Portuguese Times Eurico Mendes - EXPRESSAMENDES

 

"Bíblias", "bagaceiras" e ukuleles

Realiza-se no próximo fim de semana, em New Bedford, a festa do Santíssimo
Sacramento, autoproclamada a maior festa portuguesa no estrangeiro. Não sei
se será, mas a mais antiga é concerteza. É quase centenária.
Nesta altura estão em New Bedford umas largas dezenas de madeirenses vindos
de vários pontos dos Estados Unidos, nomeadamente um grupo de cerca de 70
vindos da África do Sul e que acompanham o Rancho Folclórico da Casa da
Madeira de Pretória.
A propósito da festa madeirense, cabe lembrar que os primeiros madeirenses
chegados a estas paragens foram os convertidos pelo médico-missionário
Robert Reid Kalley, da Igreja Presbiteriana da Escócia, pioneiro do
protestantismo em Portugal.
Kalley lançou no Funchal um importante ministério social e evangélico: abriu
um pequeno hospital, criou uma rede de 20 escolas de ensino gratuito em que
se matricularam 2.500 pessoas e às quais deu bíblias.
Os primeiros convertidos tornaram-se conhecidos pela alcunha de "bíblias" e
tinham a particularidade de não serem analfabetos.
A princiípio, Kalley foi bem acolhido, até o bispo se tornou seu amigo, mas
a conversão de fiéis provocou a ira dos guardiões da tradição católica da
ilha e, em 1843, o missionário esteve seis meses preso e os seus seguidores
foram acusados de heresia e proibidos de possuir ou ler a bíblia.
Em Agosto de 1846, a casa dos Kalley foi incendiada e, segundo se conta, o
missionário teve que se disfarçar para poder esconder-se num navio inglês,
enquanto a mulher e outros familiares se refugiavam no consulado britânico.
Esta agitação social coincidia com uma forte crise económica na Madeira, o
comércio do vinho, base da economia da ilha, estava em declínio e o
desemprego aumentava.
Por outro lado, o governo inglês andava ao tempo a recrutar trabalhadores
para as suas colónias de Trinidad e Tobago, nas Caraíbas, onde a escravatura
tinha sido abolida  em 1834.
Portanto, para além da fuga a eventuais perseguições religiosas, os
madeirenses tinham que imigrar por sobrevivência e em 1846, partiu uma
primeira vaga composta por 219 indivíduos e que eram protestantes e
católicos. Chegaram a Trinidad a 9 de Maio de 1846, viajando no navio
Senator, fretado pelos donos das fazendas.
Quatro meses depois, 16 de Setembro de 1846, o navio William, de Glasgow,
aportava a Port-of-Spain (a capital de Trinidad) com outro grupo de 177
pessoas, estes protestantes e aos quais se seguiram mais dois mil.
Com um milhão de habitantes, Trinidad e Tobago é uma república de ilhas que
se  tornou  independente da Grã Bretanha em 1962. É terra de carnaval e de
festas, onde  os madeirenses deixaram marcas, nomeadamente  a carne em vinha
d'alhos que se tornou prato de Natal.
Alguns madeirenses tornaram-se produtores de rum, bebida destilada de
canas-de-açúcar, por isso chamada "vinho de açúcar".
O rei do rum foi Joseph Bento ("JB") Fernandes, nascido a 31 de Maio em
Port-au-Prince, filho de Gregório Fernandes, natural do Funchal e chegado a
Trinidad em 1870.
Gregório destilava rum igual a tantos outros que se faziam na ilha, mas teve
visão empresarial: ajudou outros portugueses a tornarem-se lojistas de rum,
e fornecia-lhes o produto, que se tornou a bebida nacional e fez a maior
fortuna da ilha.
Em 1973, Fernandes vendeu a empresa à multinacional Bacardi e criou a Joseph
B. Fernandes Foundation para apoiar obras em Trinidad, Madeira e comunidades
portuguesas.
Nos EUA, o Clube Madeirense S.S. Sacramento, de New Bedford, promotor da
festa, atribui anualmente bolsas de estudo instituidas pelos descendentes de
"JB".
Outro descendente desses pioneiros foi Alfred Hubert Mendes, autor das
novelas Black Fauns e Pitch Lake,  e considerado um dos pais da literatura
das Caraíbas. Teve dois filhos, um dos quais, Peter Mendes, professor de
literatura numa universidade britânica, é o pai de Sam Mendes, o realizador
premiado com o Oscar por American Beauty
A sorte não sorriu a todos os madeirenses em Trinidad e, graças à American
Protestant Society, uns quantos conseguiram que a American Hemp Company, do
Illinois, os trouxesse para os EUA.
O primeiro grupo de 260 pessoas chegou a New York na primavera de 1849, mas
a companhia dera o dito por não dito e ficaram à deriva.
Contudo, a saga dos "exilados" tinha sido largamento noticiada pela imprensa
norte-americana e o povo do Illinois decidiu honrar o compromisso da
companhia e acolheu os madeirenses.
Um primeiro grupo de 130 pessoas instalou-se na cidade de Springfield em
Novembro de 1849 e grupo semelhante na vizinha cidade de em Jacsonville.
Os madeirenses deram-se bem nas pradarias americanas, ou pelo menos melhor
do que nas húmidas plantações de cana e cacau e, pouco tempo depois, dois
tercos dos que tinham ido para Trinidad e Tobago já estavam no Illinois,
onde constituiam uma comunidade de mil pessoas em 1855 e que continuava a
aumentar com a chegada de mais "exilados", pois bastava dizer que eram
protestantes vítimas de perseguições religiosas para serem admitidos.
As plantações de cana que tinham levado os madeirenses para às Caraíbas,
atrairam-nos também ao Hawaii.
Em 1878, chegou a Honolulu a barca Priscilla, com 63 homens, 16 mulheres e
35 crianças, que tinham deixado o Funchal cinco meses antes. No ano seguinte
chegaram 400, em 1881 mais 800 e nos dez anos seguintes mais 8.000.  Em
1900, viviam no Hawaii 12.000 portugueses, que representavam três quartos
dos 27.000 brancos do arquipélago.
Os portugueses eram maioritariamente católicos e isso isso terá levado os
missionários protestantes no Hawaii a recorrer à colónia protestante
madeirense no Illinois, pedindo pastores que falassem português.
Em 1890 chegaram a Honolulu os três primeiros missionários protestantes de
origem portuguesa, que traziam na bagagem os salmos traduzidos 60 anos antes
para português por Robert Kalley.
Tempos depois  era construida  uma capela que se tornou a Igreja Evangélica
Portuguesa, mas os luso-havaianos continuaram maioritariamente católicos e
um padre madeirense, Stephen Peter Alencastre, ordenado em 1902, em
Honolulu, tornou-se bispo do Hawaii em 1924.
Os católicos não perdoaram a tentativa de evangelização e passaram a chamar
depreciativamente "bagaceiras" aos compatriotas protestantes. A palavra
"bagasse" ficou na gíria havaiana, para referir alguém de quem não se gosta.
No Hall of Fame madeirense nos EUA figuram nomes como o empresário Joseph
Fernandes, amigo de presidentes como Richard Nixon e Gerald Ford, pugilistas
como Rocky Marciano e apresentadores de TV como Larry King.
Ou o médico Mathias Figueira (1853-1930), formado em Coimbra, exerceu
clínica em New York e foi um dos fundadores do American College of Surgeons.
Ou ainda, Manuel Nunes, José do Espírito Santo e Augusto Dias, chegados ao
Hawaii en 1870 e que introduziram nas ilhas do Pacífico o cavaquinho
minhoto, que se tornou no ukulele.
Do Hawaii, o cavaquinho já chegou à Indonésia, onde é conhecido como
kerontjong.

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A EMPRESA norte-americana Mohave Oil and Gas Corporation retomou, a
prospecção de gás natural em Aljubarrota, no concelho de Alcobaça. A empresa
actua em Portugal desde a década de 90 e realizou sondagens sem sucesso na
zona da Nazaré e Porto de Mós, mas renovou a licença por um período de oito
anos e acredita conseguir a viabilização comercial do gás existente no
subsolo. Até aqui o gás encontrado mal dá para encher um isqueiro.

A EMPRESA Madeirense de Tabacos (EMT), de Joe Berardo, começou a vender a
sua marca Marbelo no Continente português, depois do Tribunal do Comércio de
Lisboa ter indeferido uma providência cautelar interposta pela Tabaqueira,
da multinacional americana Philip Morris. O grupo americano queria impedir a
distribuição do Marbelo, considerando que o grafismo da embalagem e o
próprio nome de Marbelo podem levar o consumidor a confundi-lo com o
Marlboro. Mas a única semelhança é que ambos fazem mal.
 
TOMATES portugueses fornecem a maior parte do concentrado das pizas das
cadeias americanas Papa John's, Domino's na Europa. É produzido na fábrica
da Italagra em Castanheira do Ribatejo, que exporta por ano 15 mil toneladas
de concentrado de tomate para toda a Europa. Mas o negócio é italiano. A
Italagra é da Parmalat.

SEGUNDO o jornal britânico The Guardian, os EUA e a Grã Bretanha planeiam a
retirada do território iraquiano. Vai ser acelerado o treino das novas
forças iraquianas que irão substituir gradualmente as forças da coligação e
a retirada poderá começar entre 15 de Agosto e 15 de Dezembro. Não se sabe é
de que ano.

TUDO muda e o famoso Ponta Delgada Club, na Shove St., Tiverton, que já foi
o principal clube dos portugueses na área de Fall Rivere cuja equipa de
soccer foi famosa, tornou-se The Patriots.

PORTUGAL está na cauda salarial da União Europeia. Um francês ganha em média
24 mil euros por ano, um espanhol 16.699 e um português 17.771 euros.
Complicando as coisas, o custo de vida em Portugal é superior ao de Espanha.

LEMBRETE: os sacallops, molusco que converteu New Bedford no porto de pesca
mais lucrativo dos EUA, dão pelo nome de vieira em Portugal e a sua concha
era usada pelos romeiros de Compostela como insígnia nos chapéus.

GEORGE W. Bush diz que a sua administração já criou 18 milhões de novos
empregos. É verdade. Mas foi na China, no México, na Tailândia e na Índia.

TELEVISÃO. Estreou domingo no canal TNT a nova série policial Wanted, em que
o actor português Joaquim de Almeida interpreta a figura de Manuel Valenza,
um capitão da polícia de Los Angeles. Intérprete de mais de 60 filmes entre
os quais Desperado, Clear and Present Danger e Only You, Joaquim de Almeida
já participou na série Miami Vice. Este ano já interveio em três filmes: The
Celestine Profecy, faz o padre Sanchez, Blue Sombrero onde é o presidente de
San Placebio e Thanks to Gravity.

IRA. O Exército Republicano Irlandês anunciou a semana passada que suspende
a luta armada e adota apenas a luta política. O IRA sempre contou com apoios
na numerosa e politicamente influente comunidade irlandesa nos EUA,
nomeadamente em Boston, mas o suposto envolvimento da organização no assalto
a um banco irlandês, levou muitos apoiantes da causa dos católicos na
Irlanda do Norte a reduzirem o seu apoio.
 
NEW YORK adoptou novo slogan: "The World's Second Home".  A cidade continua
a receber milhares de imigrantes e calcula-se que sejam ali falados entre
175 e 200 idiomas. O número dos novaiorquinos que não falam inglês  é de 1,5
milhão, 20% da população. Dos que não falam inglês, 51% falam espanhol em
casa, 13% falam chinês, 8% russo e 28% falam outras línguas. Português não
chega a 0,5%. Vivem na cidade alguns portugueses e um número indeterminado
de brasileiros, que se queixam de terem sido mal contados.

ENVELHECIMENTO. É liderado por um cientista português o grupo de
investigadores que apresentou a primeira base de dados na área da genética
do envelhecimento humano. João Pedro de Magalhães, natural do Porto,
licenciado em Microbilogia e doutorado em Biologia do Envelhecimento,
trabalha no Departamento de Genética da Faculdade de Medicina da
Universidade de Harvard, em Cambridge. Pedro de Magalhães liderou uma equipa
de investigadores que, em colaboração com investigadores do Hospital Brigham
and Woman, de Boston, e da Universidade de Namur, Bélgica, desenvolveu
estudos sobre a longevidade em mais de 2000 animais e 800 mamíferos, com
objectivo de obter um maior conhecimento sobre o envelhecimento.

NOMES. O seguro morreu de velho e muitos cidadãos árabes residentes nos EUA
decidiram mudar de nome depois dos atentados de 11 de Setembro de 2001. A
esmagadora maioria dos imigrantes árabes nada tem a ver com o terrorismo,
mas nomes com ressonância árabe passaram a ser pouco "recomendáveis" e
muitos Mohammed tornaram-se Michael, Mike ou Moe. Contudo, Samir, um
marroquino residente em Boston, resolveu chamar-se Manuel. Diz que parece
português e por isso quer ter nome português.

PREÇOS. JÁ lá vai o tempo em que os luso-americanos de visita a Portugal
ofereciam um jantar à família com 100 dólares. Hoje em dia, dão para um
pequeno-almoço. Com a desvalorização do dólar, um euro vale cerca de $1.50 e
o resultado é New York estar a ser invadida por turistas ingleses, alemães e
outros. Os EUA tornaram-se pechincha para os europeus, tal como foi há anos
a Europa para os americanos. Um jantar num restaurante de New York custa
metade do preço de um restaurante do mesmo nível em Londres e as passagens
de avião são 400 dólares. Metade do que paga um português nos EUA que queira
ir à terra.

OSTRAS. Quando se encontrava em França, o escritor Ernest Hemingway adorava
comer "portugaises" (portuguesas). Comia "portuguesas" às dúzias. Cruas, na
chapa ou abertas no vapor. Acontece que "portugaises" é o nome dado às
ostras (Griphea angulata) portuguesas exportadas para França e outros países
europeus.

ÓBITO. Morreu segunda-feira o rei da Arábia Saudita, o maior aliado dos EUA
no Médio Oriente. Tanto que se diz não haver muita diferença entre os dois
países. Na Arábia Saudita tudo é propriedade de uma família. Nos EUA, por
enquanto, tudo é propriedade de dez famílias.

Reticências...
O casamento é uma aliança entre duas pessoas: uma que nunca se lembra da
data dos aniversários e outra que nunca esquece...
O casamento são  duas pessoas a tentar mudar os hábitos uma da outra...
Casamento é como comprar a crédito: vê-se uma coisa de que se gosta, fica-se
com ela e paga-se mais tarde...
Maridos são como fogo na lareira: apagam-se quando não são ateados...
Os homens lutam para conseguir um beijo antes de casarem e as mulheres
depois...
Umas mulheres casam-se porque não gostam de passar as noites sozinhas e
outras divorciam-se pela mesma razão...
O amor embriaga um homem e o casamento torna-o sóbrio...
O casamento é como a artrite, temos que aprender a viver com ela...
Muitos homens pensam que casaram com uma grande cozinheira e muitas
mulheres pensam que casaram com um grande milionário...

- Ferreira Moreno


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