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Desporto

Afonso Costa

 

OPINIÃO

A dança dos treinadores

Sou dos que acreditam que em Portugal há bons treinadores e acredito
igualmente que tanto o Benfica como o Porto até nem tinham grande
necessidade de ir às compras lá fora. Mais, acho que há jovens técnicos em
Portugal com capacidade para treinar qualquer um dos três grandes e se na
verdade os Mourinhos não aparecem todos os dias não será menos verdade que
se não tiverem oportunidades como o "inglês" as teve, nunca poderão chegar à
pequena constelação dos chamados consagrados.
Da nova geração gosto do Carlos Brito e do José Couceiro, mas há outros com
certa tarimba de quem gosto particularmente quer pelo que têm feito por onde
passam, quer pelo seu discurso correcto e personalizado. Refiro-me ao
professor Nelo Vingada, agora na Académica, e a António Sousa, que tomou o
lugar de Carlos Brito no Rio Ave. Há os outros, como o Jaime Pacheco, por
exemplo, de quem não gosto nem uma "pisquinha", como dizem os terceirenses,
mas o facto é que esteve sempre bem no Boavista e sempre mal pelos outros
lados. Uma vez até defendi a sua ida para o Benfica, mas a ideia, triste,
claro está, era pôr os jogadores da Luz a correr e a dar porrada como os
axadrezados faziam, porque na altura o Benfica nem só não jogava mas também
levava pancada de tudo e todos. Meninas, era o que eram...
Mas nem sempre a fama e proveito ganhos por este ou aquele treinador à
frente desta ou daquela equipa são confirmados noutras paragens. Por outras
palavras, há treinadores que aprovam aqui e quando chegam ali ficam-se pelo
mau e por vezes medíocre, acabando por sair pela porta pequena. Este ano
essa tese fica mais provada, a ver por alguns resultados de início de
temporada, embora haja que dar tempo ao tempo e só mais para a frente é que
se poderá dizer se a mudança valeu, ou não.
Veja-se, por exemplo, os casos de Carlos Brito que transformou o Rio Ave
numa equipa vencedora e competitiva, para além de muitos serem de opinião
que foi a equipa da I Liga que melhor futebol praticou a época passada. A
ida para o Boavista, clube com outra estrutura e outra ambição, funcionou
como prémio justo para este jovem talentoso e naturalmente ambicioso. Só
que!...Só que no Bessa a máquina emperrou e já há quem afirme que o Boavista
está talhado à medida do Pacheco e que o Pacheco está talhado para o
Boavista. Sim, porque o espalhafatoso do Jaime foi para o Guimarães, ali
pertinho, e ainda não viu o padeiro. A equipa não joga, não marca, não tem
padrão de jogo e ninguém se entende. Se as coisas não mudarem rapidamente o
Pacheco vai à vida, adivinha-se.
Veja-se agora o caso do Rio Ave, feito à medida do afinadinho Brito. Dois
jogos, duas exibições de luxo, duas vitórias. Dedo do Sousa ou coisas do
passado? Atenção que este Sousa não é nada tolo, ao contrário do filho, que
dizem ser um bom tarola (os de Santa Clara não o podem ver nem com molho de
mogango). Mau para o presidente do Beira Mar, cujos sócios acusam de ter
sido o culpado da sua saída e consequente queda dos canarinhos na II Liga.
Depois temos o Manuel Machado, esperto, bem falante, que começou mal o ano
passado em Guimarães e acabou na mó de cima. Quando as coisas corriam mal
disse mesmo que se ia embora, e foi mesmo, para o Nacional, onde está também
a fazer um bom trabalho.
Há outros, como o Ulisses do Gil Vicente. Não gosto nada do seu discurso,
meio apalermado e armado em filósofo barato, mas lá que tem feito as suas
aventuras até tem. Perguntem aos do Benfica...
Por falar do Benfica, de Portugal disserem-me que o seu técnico é um bom
tamanqueiro e que a cabeça dele não faz muita diferença de uma toca de
inhame. "Vais ver que esse gajo não vale nada!" ­ dizia, convencido o meu
amigo, pessoa instruída e dentro dos meandros da bola. Para principar, tem
razão. Mas pode ser que as coisas mudem em breve com uma vitória em Alvalade
frente à equipa do Pesadelo (perdão, Peseiro)
Já agora, cá está o exemplo de como se sobe na vida sem fazer muito por
isso. O Peseiro, natural de Coruche, treinou o União de Santarém, o União de
Montemor e o Oriental, antes de ir para o Nacional. Rumou depois para o Real
Madrid, como adjunto de Carlos Queirós e essa passagem por Espanha valeu-lhe
logo o estatuto de grande treinador, pelo menos na cabeça do senhor dr. Dias
da Cunha. Títulos? Sim senhor, da II Divisão B na época de 99/00. Chama-se a
isto um gajo cheio de sorte.
Como não tenho mais espaço direi apenas que o outro holandês, o do F.C. do
Porto, parece mais afinadinho e mais inteligente do que o do Benfica. Nestas
coisas quando mete Pinto da Costa contra Lisboa o demónio ajuda sempre o seu
amigalhaço do Dragão, até porque de olhos fechados sabe mais de bola do que
a direcção do Benfica e do Sporting juntos.
Óh, esqueci-me do José Couceiro. Gosto da sua atitude, da sua verticalidade,
do seu carácter. Não triunfou no Porto porque os dados estavam viciados mas
continuo a defender que estamos perante um treinador de classe que vai
aparecer em grande, mais cedo ou mais tarde.