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O ACTOR VAI TORNAR-SE CIDADÃO NORTE-AMERICANO EM OUTUBRO
Série policial e telefilme sobre João Paulo II marcam
regresso à TV de Joaquim de Almeida
Por HENRIQUE MANO
(LUSO-AMERICANO)
Especial para o PORTUGUESE TIMES
Joaquim de Almeida, indubitavelmente o mais internacional dos actores
portugueses, está de regresso ao convívio com os telespectadores
norte-americanos. Aos 49 anos, vive uma das fases mais dinâmicas da sua já
longa carreira, com a participação na série policial "Wanted", da
TNT, e a
inclusão no elenco de um telefilme que acabou quarta-feira de ser filmado na
Europa para a cadeia ABC, dos Estados Unidos, sobre a vida do papa João
Paulo II.
"Wanted" estreou dia 31 de Julho. Os seus episódios podem ser vistos
às dez
horas da noite no canal TNT (consultar programações locais para os horários
de retransmissão). O telefilme da ABC, intitulada "Have No Fear: The Life
of
Pope John Paul II", deve ir para o ar até ao final do ano, em quatro horas
de duração. Na primeira produção, Joaquim de Almeida dá vida ao capitão
"Manuel Valenza", da Polícia de Los Angeles; na segunda, interpreta o
polémico arcebispo salvadorenho Oscar Romero, cuja existência terá
influenciado profundamente o falecido papa polaco.
Período fértil, igual a este, na carreira do actor português, só mesmo 1994,
quando entrou em duas grandes produções de Hollywood - as películas "Clear
and Present Danger" (com Harrison Ford) e "Only You" (Marisa
Tomei e Robert
Downey Jr.). Mas 2005 é um ano a comemorar para este lisboeta com casa em
Los Angeles, prestes a tornar-se cidadão americano: para além de "Wanted"
e
da participação no telefilme sobre João Paulo II, em Fevereiro foi candidato
a um prémio do "Screen Actors Guild" (o sindicato mais importante de
actores
em Hollywood), pelo excelente trabalho no papel de "Ramon Salazar" na
série
"24", da Fox.
"Eu fiz muitos maus da fita, e quando se fazem muitos maus da fita, e se
fazem bem, há a tendência para nos pedirem sempre para fazer esse tipo de
papel", - diz Joaquim de Almeida, comentando o seu primeiro "polícia"
na TV,
o capitão "Valenza" de "Wanted".
"Também fiz muitos padres, mafiosos, tubarões da droga, e o grande
desafio é
sempre tentar não fazer sempre os mesmos tipos de papéis".
Na entrevista que concedeu, por telefone, de Lisboa, ao jornal Portuguese
Times, o actor reconhece que, com a chegada dos 50 anos, entra numa fase de
grandes mudanças.
"Deixamos de ser o jovem "attractive leading actor" para
passarmos a fazer o
papel de pai da actriz principal. É uma passagem em que geralmente as
mulheres sofrem mais, nesta profissão".
Por enquanto, Hollywood continua a mantê-lo ocupado. A série "Wanted",
por
exemplo, criada pelo "amigo" de longa data, o produtor Jorge Zamacona,
proporcionou a Almeida uma vitória na sua luta contra os estereótipos -
"é
um avanço", nota. O actor participa em 7 dos 13 episódios originais e
espera
regressar para a segunda temporada, "se a TNT aprovar a continuidade da
série".
"Wanted" retrata o quotidiano de uma brigada especial da Polícia de
Los
Angeles, encarregue de capturar os cem mais violentos criminosos da cidade.
O telefilme da emissora ABC é um projecto mais ambicioso, não apenas por se
atrever a contar a vida de uma figura gigantesca do século XX, o papa João
Paulo II, como pela grandeza do seu elenco - onde brilham, para além de
Joaquim de Almeida, no papel de Romero, os actores Bruno Ganz e Thomas
Kretschmann. O guião televisivo é de autoria de Michael Hirst, que escreveu
a película "Elizabeth"; o projecto narra a trajectória de Karol
Wojtyla
desde a sua infância na Polónia ocupada pelos nazis, até à sua chegada ao
Vaticano. As filmagens decorreram este mês em locais como Vilnius, na
Lituânia e Roma.
"O arcebispo Oscar Romero, que foi assassinado em El Salvador, influenciou
de certa forma a maneira de pensar de João Paulo II, sobretudo em relação à
teologia de libertação", - explica Joaquim de Almeida, referindo-se ao
seu
papel em "Have No Fear: The Life of Pope John Paul II".
A vida do actor reparte-se entre Lisboa, onde tem casa e passa grande parte
do tempo, e Santa Mónica, nos Estados Unidos. Prefere não envolver-se em
projectos televisivos longos, para poder continuar a fazer cinema e estar
perto dos filhos. Chegou a ter um apartamento em Manhattan, "mas vendiu-o e
comprei casa em Los Angeles quando gravei a série "24", revela. ³É
que
depois do 11 de Setembro tornou-se mais difícil arranjar trabalho em Nova
Iorque no campo do cinema e da televisão e foi mais importante para mim
estar na Califórnia".
Joaquim de Almeida saiu de Portugal aos 18 anos para se fazer actor. A
Conservatória de Lisboa, na fase pós-25 de Abril, tinha interrompido os
cursos de representação e Almeida acabaria por viver em Viena de Áustria,
onde, para sobreviver, até jardineiro foi. Em 1977, casado com a pianista
Maria Cecília de Almeida, mudou-se para Nova Iorque. Enquanto fazia o curso
no "Actor's Studio", trabalhou como empregado de mesa em restaurantes.
Hoje,
tem o seu próprio espaço gastronómico - "Xurrascão" - em Lisboa.
O actor confirmou ao PT que, depois de 25 anos de residência nos Estados
Unidos, resolveu pedir a nacionalidade americana. "Tenho a entrevista para
a
cidadania no dia 12 de Outubro", revela, acrescentando: "Já era tempo
de o
fazer. Quero votar e fazer parte activa do país onde pago os impostos".
Em relação à opção pela dupla cidadania, explica ainda: "Eu achei que,
ao
fim de tantos anos, começava a ser estranho para mim não fazer parte da
política americana, não poder votar. Nasci em Portugal e tenho com o meu
país uma relação de amor e ódio, porque acho que isto é um país onde a
política anda quase sempre de mãos dadas com a controvérsia. Fui para os
Estados Unidos primeiro para estudar e depois obtive a carta verde".
Com o passaporte norte-americano na mão, vai sentir-se mais português ou
cidadão dos Estados Unidos?
"Eu acho que me sentirei um autêntico luso-americano, serei português e
serei americano".
As convicções políticas do actor, pendem para a esquerda. "Desde que fui
viver para os Estados Unidos que fui sempre um grande apoiante dos
democratas", sublinha Joaquim de Almeida, que confessa a sua admiração
pelo
antigo presidente Bill Clinton. "Acho que foi um dos grandes presidentes
dos
Estados Unidos" - e diz estar menos inclinado para a política da actual
administração. Uma das razões: a guerra no Iraque. Daqui a já menos de
quatro anos, quando tiver na mão o poder do voto, espera que "haja paz em
geral na Terra" e que o seu país adoptivo "não esteja envolvido em
guerras".
O actor considera, por outro lado, o terrorismo - um dos flagelos do nosso
tempo - "um problema bastante deprimente para todos nós. Basta entrarmos
no
aeroporto para sentir a dificuldade, por exemplo, que hoje em dia é viajar".
Como é que Joaquim de Almeida lida com a popularidade?
"As pessoas reconhecem-me em várias partes do mundo", afirma. "O
desagradável é quando nos deixam de reconhecer. É difícil às vezes lidar
(com a fama) quando por exemplo estamos a almoçar, estamos com amigos e as
pessoas nos vêm incomodar. Mas temos que corresponder e ser simpáticos,
porque o público é quem faz de nós aquilo que nós somos".
Na mudança para a Califórnia, o actor perdeu o contacto com a comunidade
lusa de New Jersey - o que lamenta. "Ia a Newark ver os jogos de futebol e
até gostava de mandar um grande abraço a essa comunidade portuguesa, que
conheço bem". Na Costa do Pacífico, contudo, diz ter já "descoberta"
uma
presença lusófona importante, mas com características diferentes, "onde
até
touradas se fazem".
Joaquim de Almeida, apesar de ser mais conhecido pelas películas a que
emprestou nome e talento, também fez muita televisão. Para além das
participações em "Wanted" e "24", mais recentemente, o
actor entrou em
episódios de séries de muito sucesso, como é o caso de "Miami Vice"
(em
1985), "LaFemme Nikita" (1998) e "West Wing" (2004).
No cinema, fez cerca de setenta películas, entre elas algumas de peso e
importância. É o caso de "The Honorary Consul", onde contracenou com
Michael
Caine e Richard Gere e "Behind Enemy Lines", ombro a ombro com Gene
Hackman.
O actor português é igualmente muito requisitado na Europa, por realizadores
italianos, franceses e espanhóis, mas não põe nunca de parte o cinema
português - e "Capitães de Abril", entre variadíssimos outros,
prova-o.

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