A ser lançado dia 15 de Outubro em New Bedford
"O Espírito é Vida", disco de temática cristã de Dionísio da Costa

Dionísio da Costa, uma das nossas maiores relíquias musicais, com um
percurso musical extremamente rico nas suas experiências e vivências de
praticamente quatro décadas, acaba de gravar um CD de música de temática
cristã, a ser lançado oficialmente no sábado, 15 de Outubro, no Clube dos
Pescadores, em New Bedford.
O evento, com início marcado para as 6:30 da tarde, inclui jantar com ementa
variada (bilhetes à venda nos estabelecimentos comerciais habituais da
área), fados com Jeremias Macedo e Catarina Avelar, acompanhados à guitarra
e viola pelos irmãos Lima, música tradicional portuguesa com o grupo
Gerasons e claro a actuação do homem da noite, Dionísio da Costa e outras
surpresas...
Gravado nos estúdios de Roberto Leonardo, com produção do mesmo e de
Dionísio da Costa e ainda a valiosa participação do excelente músico Joel
Hiller nos arranjos musicais, o CD inclui 12 temas inéditos e originais de
Dionísio, a saber:
"Em Nome do Pai", "Senhor Estou Aqui", "Senhor Pai Santo", "Enchei-nos os
Corações", "Sentimentos", "Responde ao meu Clamor", "O Caminho", "Meu
Querido Amigo", "Dou Fruto", "Magnificat", "O Espírito é Vida" e "Ide".
Editado pela Peregrinação Publications, de José B. Brites, o disco é um dos
poucos registos que temos pela comunidade no que se refere a trabalhos de
inspiração religiosa e música litúrgica, reflexo de um longo trajecto
musical do seu autor, Dionísio da Costa, um nome que é sem dúvida uma
obrigatória referência da música litúrgica em língua portuguesa e que a
partir de certa altura começou a ser criada concretamente nos Açores,
sobretudo a partir do Concílio Vaticano II.
"Esta ideia de fazer um disco de música de temática cristã partiu de uma
conversa que tive com o meu amigo José B. Brites, da Peregrinação
Publications e confesso que de início não tinha uma ideia definida da
temática a seguir. Ainda pensei na temática imigrante, mas depois pensando
melhor decidi fazer uma abordagem pela música de inspiração religiosa, uma
vez que este tema irá de encontro a um público mais vasto e que conheço bem,
até porque grande parte do meu percurso musical aqui nos EUA tem a ver com
grupos corais, pelo que em termos de resposta e de aceitação deste trabalho
penso que terá resultados mais positivos por agora", sublinha Dionísio da
Costa em entrevista ao PT no passado sábado.
Ainda sobre este CD, Dionísio da Costa, natural de Castelo Branco, ilha do
Faial e que imigrou para os EUA em 1974, afirma que "este disco pode
proporcionar às pessoas momentos de reflexão, e estímulo à oração, e vai
criar e manter uma ambiência religiosa e espiritual e isto para mim é muito
importante. Há outros trabalhos de inspiração cristã e religiosa que são
"fabricados" para as grandes massas, este não é bem assim, está despido de
grandes arranjos concentrando-se mais na intimidade directa da mensagem
poética e musical", salienta Dionísio da Costa, que passa a recordar várias
etapas do passado relembrando como deu os primeiros passos para a música.
"O padre Edmundo Machado Oliveira, professor de Educação Musical no
Seminário Episcopal de Angra, é que foi o meu grande mestre, embora eu seja
oriundo de uma família de gostava muito de música. Um dia entrei no quarto
dele com uma canção escrita em latim e denominada "Avé Maria", com todo
aquele entusiasmo próprio de quem faz alguma coisa pela primeira vez. Ele
gostou da melodia, no entanto fez a devida correcção ao compassos que eu
havia marcado e disse-me, ó Dionísio a melodia está boa mas os tempos não
estão certos. O padre Edmundo Machado Oliveira, uma pessoa muito admirada
não só seminário como em todo o arquipélago era na realidade um grande
pedagogo", recorda Dionísio da Costa, para acrescentar um episódio
hilariante com "Avé Maria".
"O pe. Edmundo Oliveira pegou na composição e estreámo-la nas academias que
se faziam nessa altura no seminário. O Paulo Martinho (agora na RTP-Açores)
é que a estreou, cantando a primeira parte. Mas para minha decepção, quando
entrámos na segunda parte desse espectáculo aquilo foi uma autêntica
barracada. Cada um ia para seu lado. Meu Deus, aquilo acabou por ser uma
autêntica palhaçada. Envergonhado que estava, eu queria fugir dali", recorda
divertidamente, provocando gargalhadas dos dois, que também passámos por
situações semelhantes.
Ainda sobre o saudoso padre Edmundo Oliveira, Dionísio da Costa não esconde
a grande admiração que nutre por ele.
"Para além desse talento invulgar eu admirava nele o seu humanismo, recordo
uma vez de ter escrito uma canção romântica. Imagina eu, seminarista, a
escrever uma canção de amor, coisa que não me atrevia a mostrar aos outros
padres, mas tinha muita confiança nele. Pois eu mostrei a canção ao padre
Edmundo e ele ainda ajudou-me a corrigi-la. Recordo-me de ele me ter dito:
Éh rapaz, isto está quente. Se o reitor põe a mão nisto, é que são elas! Foi
um verdadeiro pai para mim", afirma o nosso entrevistado sobre o padre
Edmundo Machado Oliveira, que mais tarde deu nome ao famoso Orfeão Edmundo
Machado de Oliveira, constituído na sua maioria por ex-seminaristas e
actualmente em fase de hibernação.
Depois de recordarmos juntos certas passagens e antigos colegas pelo
seminário, a conversa foi direccionada para outra etapa da vida musical do
Dionísio, com predominância para a música de intervenção social.
"Zeca Afonso foi para mim uma grande influência e continua a ser a grande
referência para mim e muitos outros colegas meus. Foi um bom poeta mas eu
continuo a entendê-lo muito melhor como músico e essas lindas baladas que
ele compôs, digo isto porque há certos poemas que eu confesso que não
entendo muito bem o que está a querer dizer, mas a ambiência da balada é
muita rica para mim e tenho outras referências de qualidade na nossa música,
nomeadamente o padre Francisco Fanhais, Manuel Freire, Adriano Correia de
Oliveira, Fernando Tordo, José Mário Branco, a par com outros, nomeadamente
Paulo de Carvalho e os maestros Pedro Osório e Thilo Krassman", confessa.
Carlos Alberto Moniz, um dos maiores nomes da música que se vai criando
pelos Açores, é um dos amigos de outrora e de sempre com quem chegou a
trabalhar, nos tempos da sua passagem pela bela Angra do Heroísmo, a Coimbra
dos Açores.
"Um dia o Carlos convidou-me a escrever um tema para um disco de música
regional açoriana que estava a gravar, com arranjos de Thilo Krassman e foi
para mim uma grande honra constatar que este famoso maestro alemão seguiu
fielmente a minha melodia", recorda Dionísio, para adicionar ao seu "livro"
de memórias outras passagens inesquecíveis:
"Para além do Carlos Alberto Moniz, trabalhei muito com Álamo de Oliveira,
Urbano Bettencourt e Emílio Porto".
A canção de intervenção social na época terá porventura trazido alguns
dissabores ao nosso entrevistado e a muitos outros amigos e colegas que
gostavam de cantá-la em público em verbenas, nos tempos da ditadura fascista
e já no limiar de uma transformação política e social que veio a
confirmar-se em Abril de 1974.
"Gostava imenso de cantar, e ainda hoje o faço, temas como "Não há machado
que corte" e "Pedra Filosofal", de Manuel Freire, e outros temas de um vasto
repertório da canção de intervenção social que interpretávamos. Recordo-me
que houve alturas em que tivemos alguns problemas com o governador civil de
Angra e com alguns elementos da PIDE, cujo quartel estava ali mesmo
localizado em frente ao Seminário de Angra", recorda Dionísio da Costa, que
finaliza afirmando que está nos seus planos a gravação de um CD com este
tipo de música.
Na nossa breve conversa matinal do passado sábado falou-se ainda da sua
experiência na canção didática infantil, fazendo-o por gosto e profissão,
uma vez que trabalhou num centro de produções didácticas, deslocando-se
frequentes vezes à Califórnia para conferências em Português. É autor de 50
canções para crianças.
"Há alguns anos atrás fui convidado a gravar alguns temas da canção
didáctica infantil e o meu amigo Onésimo Teotónio Almeida até me incentivou
a gravar um CD, mas isso, por razões diversas, não foi possível, mas tenho
grande gosto e honra nesse trabalho efectuado e que me enriqueceu bastante a
vários níveis", confessa Dionísio da Costa.
Um dos projectos a que esteve ligado, já aqui nos EUA, foi o conjunto
"Placard", já extinto:
"Vim para os EUA apenas com a intenção de visitar a família que já aqui se
encontrava. O que é certo é que acabei por me fixar aqui. Formei o conjunto
"Placard". Tocávamos todo o tipo de música, com incidência para o folclore,
com alguns temas de Carlos Alberto Moniz, Zeca Afonso e outros, para além de
canções originais e até chegámos a gravar uns discos. Actuávamos para todo o
tipo de espectáculo: festas culturais, festivais étnicos em universidades,
etc., com outros artistas, nomeadamente Carlos Alberto Moniz e o saudoso
guitarrista português Carlos Paredes".
O Coral Herança Portuguesa, que durante vários anos dirigiu e actualmente
sob direcção artística do pianista Álvaro Pereira, foi outro dos projectos
mais válidos no mundo artístico comunitário luso e daqueles que guarda no
coração.
"O Coral foi fundado em 1976, uma ideia de Rogério Medina, antigo
ex-vice-cônsul de Portugal em Providence. O objectivo inicial era apenas de
fazer parte nas celebrações dos 200 anos da independência dos EUA. Fui o
primeiro maestro e o nosso repertório é baseado no folclore harmonizado
incluindo ainda alguns temas clássicos e algumas canções de revistas
portuguesas, para além de canções originais cuja temática foca a imigração".
No que se refere à música litúrgica, Dionísio da Costa foi na realidade um
dos seus impulsionadores que a partir de certa altura se começou a criar nos
Açores, quando o Seminário Episcopal de Angra era o centro e a grande mola
desse tipo de música em língua portuguesa, após o Concílio Vaticano II, nos
primeiros anos da década de 60. A maior parte do repertório de música
litúrgica nos Açores era em latim e impunha-se, principalmente após o
Concílio Vaticano II, a criação de música litúrgica em língua portuguesa.
Foi mesmo solicitado a criar esse tipo de música por diversas ocasiões.
São de sua autoria cânticos como "Vale a Pena Viver", "Vem Irmão", "Vinde
Espírito Paráclito", "Jesus Preparou-nos uma Festa", "Muito Obrigado
Senhor", entre muitos outros, para já não falarmos das várias missas que
criou, como "Missa da Esperança", "Missa Água Viva", "Missa Pão Vivo",
"Missa da Paz", "Missa de Peregrinos", "Missa dos Filhos de Deus", etc.
"Havia realmente uma necessidade muito grande em Portugal de novas canções
litúrgicas e o seminário era efectivamente o grande centro da música
litúrgica dos Açores. Fui solicitado a criar música para diversas ocasiões,
já que grande parte desse repertório era em latim. Numa certa altura sairam
do seminário indivíduos como Onésimo T. Almeida (grande referência das
letras em todo o Portugal e professor na Brown University), o padre Octávio
Medeiros, o pe. Gastão Oliveira, José Gabriel Ávila (realizador e
apresentador da RTP/A), Carlos Sousa (ligado ao grupo Belaurora), José
Francisco Costa (outro grande músico e poeta, agora professor no BCC), malta
que considero humana e intelectualmente muito rica. Com a saída destes meus
colegas, que controlavam várias actividades, nomeadamente as musicais, o
seminário ficou "vazio". Fiquei em director da música no Seminário de Angra,
eu e o Manuel Azevedo (antigo deputado do PSD à Assembleia da República).
Dava aulas no Seminário, ao mesmo tempo que exercia as funções de regente
musical na Sé de Angra. Foram três ou quatro anos de muita criatividade",
recorda Dionísio da Costa.
Recorda a criação da sua primeira missa cantada em português, com nova forma
e com uma cena deveras hilariante.
"Criámos uma missa cantada em português com nova forma. Era uma missa
extremamente simples para ser cantada na festa de S. Tomás de Aquino, no
seminário. Mas como não tinhamos ainda a autorização eclesiástica resolvi
dar-lhe um pseudónimo de Padre Domingos Dias Santos, para livrar-me assim de
problemas que poderiam surgir no futuro. Chegou ao dia da festa cantámos
essa missa, em que estava presente o bispo. Não gostei, francamente, da
missa, talvez porque era e continuo a ser o maior crítico daquilo que faço
e, quando a missa acabou resolvi pôr tudo a queimar num fogão que havia por
ali. Mas quando ia precisamente fazer a "charruscada" de toda a papelada eis
que surge o padre Américo Vieira, já falecido, e que na altura era o reitor,
a perguntar-me quem teria sido o autor da missa, ao que eu lhe respondi que
tinha sido um tal pe. Domingos Dias Santos. Criar e cantar uma missa sem
autorização eclesiástica, uma missa simples, ainda por cima na presença do
bispo, eu pensei que não tinham gostado daquilo e que iria ser expulso. Mas
não. O reitor aproximou-se de mim e disse que sabia de tudo, que tinha
gostado imenso, dando-me um abraço de parabéns", recorda. A autorização
eclesiástica, claro, foi obtida.
"Vale a Pena Viver", um cântico muito cantado nas igrejas portuguesas, tem
assinatura musical de Dionísio da Costa, com letra do saudoso padre Coelho
de Sousa. "Foi composto no Terra Alta, no trajecto S. Jorge-Pico, numa
viagem em que me acompanhava aquele padre que durante anos esteve à frente
da paróquia de S. Sebastião, na Terceira".
Dionísio recorda ainda a criação de um conjunto musical no seminário,
denominado "Shalom" (termo hebraico que significa paz), formado por um grupo
de voluntários, entre os quais Bartolomeu Dutra, Leonardo Melo, Santos
Cardoso, todos oriundos da ilha do Pico, Agostinho Lima (actual pároco do
Nordeste, S. Miguel), Paulo Simão, entre outros.
Muito mais haveria para dizer sobre Dionísio da Costa e o seu rico e vasto
percurso musical, mas fiquemo-nos por aqui, porque o espaço está a faltar.
Convidam-se os amigos e toda essa gente que trabalhou e continua a trabalhar
de perto com Dionísio da Costa, para a sua festa de sábado, 15 de Outubro,
no Clube dos Pescadores, em New Bedford. A sua comparência é a melhor forma
de homenagear um grande músico e bom homem da nossa comunidade.
No circuito musical dos Açores, entre professores e alunos, nos corredores
das salas dos liceus, seminário, universidade e igrejas, quase todos
conhecem ou ouviram falar de Dionísio da Costa. Não tem o rótulo de popular,
famoso ou espectacular. Traz consigo momentos inesquecíveis e uma vivência
riquíssima que perdurará para sempre na memória do homem e do músico... e de
outros que tiveram o privilégio de acompanhar e conviver com ele de perto.
Isso vale mais do que os adjectivos e superlativos acima mencionados.
Falar com o Dionísio sobre esses tempos de outrora é, para além do simples
abrir de uma enciclopédia e dedilhar do rosário de recordações e tocar ali
mesmo um passado distante e recente, um enriquecimento espiritual, de
convite à mais sublime das virtudes do homem: viajar no seu íntimo, chegar
perto de Deus, numa experiência religiosa de reflexão interior
verdadeiramente rica e de autêntico prazer espiritual.
Deixou um dia o seminário, mas o seminário jamais o deixará. Isso é bom.
Muito bom.


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