Portuguese Times Eurico Mendes - EXPRESSAMENDES

 

Autárquicas cá e lá

Tivemos na passada terça-feira, 5 de Outubro, a primeira volta das eleições
autárquicas em New Bedford e no domingo, 9 de Outubro, eleições autárquicas
em Portugal e o Adelino Ferreira chamou-me a atenção para a diferença das
campanhas dos candidatos, que em New Bedford passaram despercebidas à
maioria das pessoas e em Portugal foram uma festa.
Realmente, parece que não é só amor que é diferente em Portugal, conforme
constataram os cardeais de Júlio Dantas durante a sua jantarada, eleições
autárquicas também são diferentes.
Tal como os políticos americanos, os políticos portugueses lavam roupa suja
e prometem resolver o problema desemprego se forem eleitos, mas o único
emprego que asseguram é para eles próprios.
Embora os EUA tenham uma superfície continental e Portugal seja uma nesga da
Europa meridional, os dois países são hoje tão democráticos que até os
mortos continuam a votar em algumas localidades.
Não há portanto grandes diferenças entre os dois países, a não ser que a
campanha dos autarcas americanos é uma pobreza franciscana e os portugueses
parecem nadar em dinheiro.
Naturalizado americano e residente em New Bedford, sou eleitor na cidade e,
embora houvesse este ano nove candidatos a mayor, fui contactado apenas por
um deles, o advogado Scott Lang, uma tarde destas à entrada do supermercado
Seabra e com uma proposta convincente: "Ajude-me a tentar limpar New
Bedford."
Lang, um bem sucedido advogado que resolveu lançar-se na política aos 59
anos, fez campanha contactando as pessoas na rua, acompanhado apenas da
mulher. Muito diferente dos candidatos em Portugal, que percorrem as ruas em
numerosas caravanas automóveis com barulhentos altifalantes, vão a feiras,
arraiais, comícios e até à saída das missas, nas igrejas.
As avenidas e praças de Portugal enchem-se de outdoors com a cara dos
candidatos, que percorrem as ruas rindo e beijando quem lhes estende a cara,
enquanto os seguidores agitam bandeiras e entulham as ruas com folhetos.
Nos EUA, os autarcas não têm grandes apoios partidários, limitam-se a
espalhar pequenos cartazes nos jardins de familiares e amigos e procuram
angariar dinheiro para propaganda entre os apoiantes.
Se não forem bons angariadores de fundos, os políticos americanos estão
condenados, a começar pelos candidatos à Casa Branca. Se quis ser mayor de
New York, Michael Bloomberg teve que gastar 50 milhões de dólares do seu
bolso.
Em Portugal, apesar da grave crise económica do país, a campanha das
autárquicas portuguesas de domingo foi a mais cara de sempre.
Nos últimos quatro anos, as previsões de gastos mais do que quintuplicaram,
subindo de 19 milhões de euros para mais de 108 milhões. Só à sua conta, PSD
gastou 45 milhões de euros.
O caso de Lisboa é exemplar: em 2001, PS gastou 150.000 euros e PSD 100.000;
em 2005, PS 455.000 e PSD 505.000 euros.
Apesar do investimento, PS não conseguiu eleger Manuel Maria Carrilho. Se
tivesse proposto a mulher do candidato, Bárbara Guimarães, teria sido mais
bem sucedido.
Com despesas por conta do partido, não admira mais de 400.000 portugueses
terem concorrido aos 43.000 postos autárquicos que estavam em disputa no
domingo. Pouco poleiro para tanta galinha. Houve resultados curiosos. Em
Manteigas, José Manuel Biscaia, do PSD, teve 1.327 votos e foi eleito
presidente da câmara apenas por um voto.
Os três manos Câmara Pereira, o Nuno, o Gonçalo e o Vasco, fadistas e
monárquicos, concorreram às câmaras de Vila Viçosa, Arronches e Évora. Só
Gonçalo foi eleito vereador de Arronches, onde reside.
Mas desta vez a media concentrou-se sobretudo nas candidaturas dos
independentes Isaltino Morais em Oeiras, Fátima Felgueiras, em Felgueiras,
Valentim Loureiro em Gondomar, Isabel Damasceno, em Leiria e Ferreira Torres
em Amarante, que concorriam à revelia dos partidos.
São alvo de processos por fraude (forma benigna de dizer roubo), os quatro
primeiros aguardando julgamento e o último já condenado por corrupção.
Não passa pela cabeça de ninguém que um tipo a contas com a justiça possa ir
a eleições, mas é possível em Portugal Isaltino, Fatinha, o major e a Isabel
foram reeleitos. Só Avelino Ferreira Torres, que foi 22 anos presidente da
câmara de Arcos de Valdevez, não foi bem sucedido na candidatura em
Amarante, apesar de ter investido mais de 300 mil euros e das viagens de
helicóptero que ofereceu aos eleitores.
Os autarcas americanos também oferecem transporte aos eleitores, mas de
autocarro.  
Comparada com Portugal e tirando os "showmícios" das convenções nacionais
dos democráticos e republicanos para escolha dos candidatos à Casa Branca, a
política americana está longe de ser uma festa e o próprio país é cada vez
menos divertido.
A destruição do furacão Katrina em New Orleans alertou-nos para uma nova
realidade: os pobres, os negros, os velhos e os doentes foram abandonados e
os ricos escaparam a tempo.
Para cúmulo, segundo consta em Washington, George W. Bush só não fez uma
comunicação ao país dizendo que o furacão Katrina fazia parte do ³eixo do
mal² que quer destruir a América porque a secretária de Estado Condoleeza
Rice armou uma cena e ameaçou demitir-se.
Outra preciosidade, o senador Hank Erwin, do Alabama, disse numa entrevista
à NBC que o Katrina foi mandado por Deus para punir os pecados dos
americanos. É idiotice, claro. Jay Leno é que tem razão: para punir os
pecados dos americanos Deus já nos tinha mandado Bush.
Enfim, o mal da democraria é alguns tipos que nem para a vida privada servem
tornarem-se figuras públicas. E cada vez que penso nisso ocorre-me uma
quadra de António Aleixo:

Há tantos burros mandando
Em homens de inteligência
Que às vezes fico pensando
Que a burrice é uma ciência

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Enigma Colombo
Segunda-feira, 10 de Outubro, foi Dia de Colombo nos EUA, feriado celebrado
sobretudo pela comunidade italiana como se a descoberta da América tivesse
sido um feito italiano.
Na realidade tratou-se de uma expedição espanhola e por isso a Espanha, os
países hispânicos e as comunidades hispânicas dos EUA assinalam o dia de
hoje, 12 de Outubro, como Dia da Hispanidade.
Mas é possível que a história venha a ser reescrita. Há cada vez mais
dúvidas sobre o nascimento de Colombo em Génova, em 1457, numa família de
tecelões de que não se conhecem ascendentes ou descendentes. Colombo não
assinava Christophoro Colombo, na realidade assinava Cristóvão Cólon ou
Colom.  Também não falava nem escrevia italiano, o que não faz sentido em
quem se diz que viveu até aos 24 anos em Itália.
Há muitas dúvidas sobre a nacionalidade do indivíduo que teria chegado a
nado a Portugal em 1476, depois de ter naufragado ao largo do Algarve. A
biografia do navegador escrita pelo filho, Fernando, inclui cartas trocadas
com cosmógrafo florentino Toscanelli, que vivia em Lisboa e o futuro
descobridor da América que são datadas de 1474, portanto antes de 1476, o
ano oficial da chegada a Portugal. Durante 15 anos, Mascarenhas Barreto,
tradutor de romances policiais da Colecção Vampiro, investigou Colombo e a
era dos descobrimentos e desenvolveu uma teoria fascinante: Colombo era
português e, quando para Espanha oferecer os serviços aos reis espanhóis,
estaria verdadeiramente ao serviço do primo, D. João II, rei de Portugal,
filho de D. Afonso V, irmão de seu pai, o infante D. Fernando, duque de Beja
e de Viseu, mestre da Ordem de Aviz.
Segundo Barreto, Colombo recebeu na pia baptismal o nome de Salvador
Fernandes Zarco e a verdade é que o navegador assinou muitos documentos com
as iniciais SFZ. A mãe era Isabel Gonçalves Zarco, filha de João Gonçalves
Zarco, judeu sefárdico português de Tomar, fidalgo da Casa do Infante D.
Henrique e descobridor de ilha de Porto Santo, em 1418.
Quanto ao alegado pai, o infante D. Fernando, já teria o casamento agendado
com D. Beatriz, quando perdeu a cabeça com Isabel e, para evitar escândalo,
a jovem deu à luz em Cuba, Alentejo, aldeia a 12 km de Beja, em 1448. Quando
contava seis anos, foi com a mãe para Porto Santo, que casara com um tal
Diogo Afonso e aos 14 nos embarcou na primeira caravela portuguesa.
Não deixa de ser também curioso Colombo ter dado às terras que descobriu
cerca de 40 nomes portugueses e não espanhóis ou italianos: Santo António,
Vera Cruz, S. Jorge, Isabel, S. Miguel, Faro, Brasil, Belém e Cuba, entre
outros. No regresso da viagem de descobrimento, antes de seguir para
Espanha, Colombo parou em Santa Maria, depois Porto Santo, onde teria
família, pois além da possibilidade de lá ter sido criado, viveu depois de
casar em 1480 com Filipa Moniz, filha de Bartolomeu Perestrelo e por fim em
Lisboa, sendo recebido por D. João II. Luciano da Silva, investigador e
médico, residente em Bristol, RI, tem divulgado nos EUA a teoria da origem
portuguesa de Colombo e pensa que o DNA pode tirar tudo a limpo.
As ossadas do navegador estão em Sevilha e em São Domingos, não se sabendo
quais serão as autênticas, mas é possível compará-las com o DNA do duque de
Verágua, D. Diego de Colon, 18º descendente directo do navegador. Por outro
lado, a dra. Jeanine M. Barsel, do laboratório Orchid BioSciences, de
Dallas, já terá obtido o DNA de Colombo e Luciano da Silva aguarda a
divulgação para confrontar com o DNA de descendentes de João Gonçalves Zarco
que vivem em Portugal, a fim de esclarecer se Colombo era português.

Ir à terra à custa das autárquicas
Algumas centenas de portugueses do concelho de Viana do Castelo imigrados em
França viajaram para Portugal no passado fim-de-semana para votar nas
eleições autárquicas depois de lhes ter sido oferecida a viagem de ida e
volta para votarem em determinado partido.
"Há mais de 20 anos que não vínhamos a Portugal, mas desta vez sempre
viemos, já que não podíamos perder esta oportunidade de virmos à nossa terra
de borla", disse Madalena Ribeiro, que com o seu marido veio de avião de
Paris até ao aeroporto Sá Carneiro, no Porto, onde tinham à espera um
autocarro que os transportou até Vila Mou, freguesia do concelho de Viana do
Castelo.
Nas mesmas condições vieram no mesmo avião mais 30 casais e há quem fale em
500 pessoas divididas por vários voos e recenseadas em várias freguesias do
concelho.
"Fomos contactados em França por alguém nosso conhecido que nos informou que
podíamos ir a Portugal de borla para votar. Contactámos a TAP, confirmaram
que era verdade e cá estamos", admitiu António Rodrigues, confirmando ter
recebido determinada orientação de voto. "Pediram-me para votar num
determinado partido para castigar a actual Câmara de Viana do Castelo, que
não presta para nada."
A Câmara de Viana do Castelo era liderada pelo PS e as viagens foram
oferecidas por gente ligada ao PSD, mas os socialistas repetiram a vitória.
Parece ter sido a primeira vez que um partido português levou imigrantes à
terra natal para votarem nas autárquicas, mas a prática podia (e devia)
generalizar-se e ser alargada aos EUA. E nesse caso até podia haver eleições
todos os anos.

Mário Soares viola a lei
Depois de ter votado domingo, Mário Soares defendeu a vitória do candidato
do PS à Câmara de Sintra, o filho, João Soares.
"Toda a gente sabe que há um empate técnico e espero que se decida a favor
do candidato socialista, ou seja, João Soares", disse Soares pai.
De acordo com a Comissão Nacional de Eleições (CNE), estas declarações
"violam claramente o nº 2 do artigo 177 da Lei Eleitoral para as autárquicas
locais, que proíbe que no dia da eleição seja feito um apelo ao voto".
A violação da lei pode acarretar prisão até seis meses ou multa de 60 dias,
mas isso parece não preocupar o ex-presidente da República e candidato às
presidenciais do próximo ano.
Uma vez que, com excepção de Ferreira Torres, em Amarante, todos os
candidatos a contas com a justiça, nomeadamente por suspeitas de corrupção
(Gondomar, Felgueiras, Leiria e Oeiras) foram reeleitos no passado domingo,
Mário Soares, tendo em vista as próximas presidenciais, talvez pense que o
melhor talvez seja ele ter também um processo às costas.

Corvo por exemplo
O PSD manteve a presidência em 11 dos 19 municípios dos Açores, sendo os
restantes do PS, que, na ilha do Corvo, conseguiu eleger o seu candidato,
Fraga Fernandes, com 60,28% dos votos, sendo os restantes 37,98% para o
CDS-PP. O Corvo tem 339 eleitores e ainda um cidadão de um país da União
Europeia que por isso tem direito a votar e a ser eleito para a autarquia.
Os cidadãos dos países de língua oficial portuguesa com residência legal há
mais de dois anos também podem votar nas eleições autárquicas em Portugal,
desde que os imigrantes portugueses gozem de igual direito, como é o caso do
Brasil e de Cabo Verde. Entre os eleitores recenseados para as autárquicas,
8.053 eram cidadãos de países comunitários e 18.641 originários de países
com os quais Portugal tem acordos de reciprocidade.


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