Dionísio, Katrina e António Medeiros

Dionísio da Costa
génio de criatividade e referência da música litúrgica em português


Na noite do passado sábado, em New Bedford, realizou-se a festa de
lançamento oficial do primeiro CD de Dionísio da Costa. Como já foi referido
aqui anteriormente, trata-se de um disco de 12 composições musicais inéditas
e originais do Dionísio, com temas baseados em passagens bíblicas.
É um trabalho de temática cristã e quer-me parecer ser inédito nestas
paragens. Com uma qualidade técnica e arranjos musicais de excelente
qualidade, sendo de salientar o valioso trabalho de Roberto Leonardo e Joel
Hiller, este disco será certamente uma referência de qualidade no campo da
música de temática cristã e litúrgica.
Andava eu no segundo ou terceiro ano de seminário quando conheci a obra e o
músico. Associo para sempre à imagem do jovem seminarista de então, os seus
inseparáveis ³companheiros²: o violão e a harmónica, cantando temas de
mensagem cristã, por ocasião de um retiro espiritual no extinto
Seminário-Colégio Santo Cristo, em Ponta Delgada, S. Miguel. Entre os vários
temas, ficou-me este na memória: "A Paz é Possível", um convite à paz
espiritual, à reflexão e mudança para um mundo melhor, baseado no slogan de
1972, do saudoso Papa Paulo VI.
Mais tarde, no Seminário Episcopal de Angra do Heroísmo, ilha Terceira,
acompanhei sempre o permanente, criativo e precioso trabalho de Dionísio da
Costa, uma obrigatória referência da música litúrgica nos Açores e
posteriormente nas comunidades lusas dos EUA.
Ao longo de um intenso e rico trajecto musical, com várias etapas - música
litúrgica, o conjunto "Placard", o Coral Herança Portuguesa e a canção
didática infantil - Dionísio da Costa é o caso de um músico sério e
polivalente, comprovadamente nas suas diversas facetas como cantautor,
executante ou ainda como maestro.
No que se refere à canção didática infantil, fá-lo por gosto e profissão,
uma vez que sempre tem trabalhado no campo da Educação. É autor de mais de
50 canções para crianças.
Com várias abordagens e "viagens" por diversos géneros musicais, Dionísio da
Costa foi um dos grandes impulsionadores do novo canto litúrgico que a
partir de certa altura começou a ser criado nos Açores, quando o Seminário
Episcopal de Angra era o grande centro e mola dessa música no arquipélago.
Foi solicitado a criar essa música em língua portuguesa por diversas
ocasiões, já que a maior parte do repertório de então de música litúrgica
estava escrito em latim e impunha-se, principalmente após o Concílio
Vaticano II, a criação de música litúrgica em língua portuguesa.
São de sua autoria cânticos como "Vale a Pena Viver", "Vem Irmão", "Vinde
Espírito Paráclito", "Jesus Preparou-nos uma Festa", "Muito Obrigado
Senhor", entre muitos outros, para já não falarmos das várias missas que
criou, nomeadamente a "Missa Viva", "Missa da Esperança", "Missa da Paz" e
já nos Estados Unidos, "Missa Pão Vivo", "Missa dos Filhos de Deus", "Missa
Água Viva" e outras que ficarão certamente gravadas na memória do povo e...
do tempo!
Em boa hora, Dionísio da Costa (grande admirador de Zeca Afonso e Chico
Buarque de Holanda) pretende compilar agora em CD algumas das suas canções
de temática cristã. Depois deste, certamente outros virão para igualmente
registar outros géneros, outros temas.
Dionísio da Costa, com quem tive finalmente o privilégio de um contacto
directo e pessoal já em terras do Tio Sam, é sem dúvida uma das maiores
relíquias musicais dos Açores e da comunidade lusa da diáspora e
indelevelmente uma das maiores referências da música litúrgica em língua
portuguesa.
A comprová-lo, eis este precioso registo, fruto de um rico percurso musical
de praticamente quatro décadas.

Katrinaevent.com
Mais de 1000 mil pessoas acorreram na tarde do passado domingo ao Venus de
Milo, em Swansea, em resposta a um apelo de uma comissão formada por jovens
componentes dos conjuntos Eratoxica e Hotline, numa campanha de angariação
de fundos para as vítimas do furacão Katrina. que, como todos sabem, assolou
a costa do Golfo do México de 28 para 29 de Agosto, matando centenas e
deixando largos milhares sem abrigo nos estados de Louisiana, Mississippi e
Alabama.
Tratou-se de um espectáculo constituído por um leque de artistas de se lhes
tirar o chapéu: Eratoxica, Hotline, Mindwalk, Dinis Paiva, Catarina Avelar e
Jorge Ferreira. Todos foram muito aplaudidos, o que é bem demonstrativo da
sua popularidade e qualidade demonstrada em palco.
De todos os intervenientes em palco, que desempenharam excelentemente o seu
trabalho, apenas desconhecíamos o grupo Mindwalk, constituído pelos jovens
Jordan Ferreira (filho de Jorge Ferreira), Mike e Tyler, de 14, 13 e 10
anos. Com uma abordagem ao "progressive rock", este trio encantou tudo e
todos pelo talento e arte em saber executar a guitarra, bateria, baixo e
teclados. Para além desse talento individual de cada um o que mais me
impressionou foi a coesão e segurança musical dos três, com um àvontade
impressionante. Independentemente de se gostar ou não deste género musical,
o que interessa sublinhar é precisamente a excelência da arte ali
demonstrada em palco. Espectacular. (No próximo sábado, Teledisco apresenta
uma pequena entrevista com estes talentosos jovens).
Está de parabéns a organização desta iniciativa, que trabalhou
incansavelmente para que tudo corresse da melhor forma possível e conseguiu
plenamente os seus objectivos: montar um excelente espectáculo e no final
foi exibido o cheque no valor de 32 mil dólares angariados, entregue a um
representante da Cruz Vermelha Americana. Bravo. Entretanto, o website
katrinaevent.com continuará activo por mais algum tempo para aqueles que
desejarem contribuir com o seu donativo.

António Medeiros
Faleceu na manhã do passado sábado António Medeiros, um dos mais populares
improvisadores de cantigas ao desafio desta área. Natural de Santa Bárbara,
Santo António, Capelas, S. Miguel, desde muito novo se envolveu no mundo das
cantigas de improviso, crescendo no meio de grandes improvisadores, como
Carvalho, João Maurício, António de Sousa, Vasco Aguiar, Virgínio da Ponte,
João Plácido, Turlu, Charrua, Caneta, Abel e muitos outros nomes que assumem
claro protagonismo na cantoria ao desafio.
Numa entrevista ao PT, na edição de 29 de Junho deste ano, António Medeiros,
acompanhado dos seus amigos José Brites e José Plácido, afirmara que, face à
sua doença "sentia uma enorme solidariedade e várias manifestações de
carinho por parte de muita gente, sobretudo dos colegas desta arte
popular... Só tenho palavras de agradecimento para com todos eles...
Pretendo cantar enquanto puder..."
Faleceu rodeado por todos os seus entes queridos. À família enlutada e a
todos os seus colegas de cantigas de improviso, as nossas sentidas
condolências. Paz à sua alma.


Voltar à primeira página desta secção

Voltar à primeira página desta edição

Copyright © 1997/2001 The Portuguese Times
Autorizada a reprodução de artigos publicados nesta página desde que mencionada a origem