Portuguese Times Francisco Resendes - Breves & Mínimas


Dionísio da Costa lança CD de temática cristã
"A gente da música aprendeu a transmitir esse sentimento maravilhoso que é o som da alma"
- Dionísio da Costa

- Reportagem de Augusto Pessoa

Dionísio da Costa lançou o seu primeiro CD ("O Espírito é Vida"), num evento
que constou de jantar e espectáculo, tendo por palco o Clube dos Pescadores
em New Bedford.
Falar de Dionísio da Costa é das coisas mais simples que temos feito.
Basta dizer que o Dionísio é bom em tudo o que tem feito no campo da música
de intervenção, no campo religioso, escolar, junto do conjunto Placard e
Coral Herança Portuguesa, onde foi um dos fundadores.
Tem um grande poder de expressão, comunicação, captação de plateias como se
comprovou no passado sábado.
Sabe as linhas com que se orienta e como tal apresentou-se em palco rodeado
de amigos do campo musical interpretando canções que são sucesso.
E tal como se previa, foi do agrado geral analisando pelos aplausos,
sorrisos de simpatia e de parabéns, sublinhando o desenrolar daquele rosário
de recordações (felizes) musicais.
Era o tipo de música indicado para um serão que tinha por finalidade o
lançamento de um CD de índole religiosa e este destinado a um ambiente mais
recolhido, mesmo que origine a exteriorização dos presentes mas envoltos num
véu de oração do silêncio da catedral ou da simples igreja portuguesa sob o
olhar do santo padroeiro.
Fez ouvir duas das interpretações que constituem o primeiro trabalho gravado
e tal como seria de esperar foi sucesso.
Tal como dizemos acima, tudo o que Dionísio Costa faz no campo musical é bem
feito. O seu trajecto é recheado de peripécias musicais que ilustram o
curriculum deste grande musicólogo.
"Se eu aprendia um cântico na igreja e vinha para casa o contexto era
totalmente diferente. Eu tentava cantar e desafinava. A minha Tia Angelina
chamava-me voz de cana rachada"

"O meu primeiro professor de música foi o padre Agostinho Tavares"

"Disse eu cá para comigo, eu quando for para o seminário vou aprender música
a sério. O meu primeiro professor de música foi o padre Agostinho Tavares,
no Seminário Menor em Ponta Delgada. Foi ali que eu comecei a ver a relação
das notas com os sons. O controlo que há em elaborar. Os sons em canção numa
peça musical. Tem de haver uma lógica, uma organização, uma técnica", disse
Dionísio na sua intervenção.

"Não há nenhum compositor que não seja o primeiro a saber o que fez"

"Foi no meu primeiro ano de seminário que escrevi a primeira peça. Era uma
Avé-Maria em latim. Isto aconteceu no decorrer de um retiro espiritual. Como
não queria dormir passei o tempo a compor música. Quando acabou o retiro
tinha composta a minha primeira missa. O Antero da Povoação, que tocava
orgão, foi o meu primeiro professor de composição, quando uma vez lhe pedi
para irmos ao orgão da capela e eu poder ouvir o que tinha escrito.
"Tu não sabes o que é que escreveste", eu respondi que não sabia. Ele foi o
meu primeiro professor de composição quando me disse. "Não há nenhum
compositor que não seja o primeiro a saber o que é que fez". Isto foi para
mim uma chamada de responsabilidade.
Mais tarde e baseado na devoção a Nossa Senhora com a sua ternura e bondade
escrevi uma Avé Maria em latim. Depois de escrita fui mostrar ao professor
de música Edmundo Machado. "A linha melódica aproveita-se toda. Está bonita.
Mas a grafia está toda torta". Eu não tinha noção de que os tempos fortes
devem coincidir com as sílabas tónicas da palavra", seria esta a minha
primeira composição depois de corrigida pelo professor Edmundo Machado",
salienta Dionísio da Costa.

"A segunda composição surge numa época em que estava platonicamente
apaixonado. Tinha uma menina de quem gostava, que ninguém sabia, nem ela
própria soube. Estavamos em 1965 numa altura em que se ouviam muitas canções
amorosas. A canção tinha parte musical e parte recitado. Restava a coragem
para ir mostrar o trabalho ao professor Edmundo Machado que se chegasse ao
conhecimento do reitor podia originar a expulsão do seminário. Arrisquei e
como tinha a certeza do humanismo do Edmundo Machado fui ao seu quarto e
recordo de ele me ter dito "Dionísio isto é uma canção quente". Ele emendou
a letra e a música".

"Eu queria tocar viola da terra e acabei tocando bandolim"

"Eu queria tocar era viola da terra. Em casa de minha avó materna havia um
instrumento daquele tipo. Os meus tios tinham partido para outras paragens
tendo ficado lá na terra só uma tia solteira. Já no meu sexto ano de
seminarista resolvi aprender instrumento de cordas tendo em mente o
instrumento que havia em casa de minha avó. As férias eram em Junho e eu
comecei a deixar crescer a unhas em Maio, porque diziam "quem tem unhas é
que toca guitarra". A minha avó vivia na freguesia da Praia do Norte e eu
vivia em Castelo Branco. Quando lá cheguei a minha avó estava a por pão de
milho no forno. A primeira coisa que lhe disse, foi que queria a viola. A
senhora deitou as mãos à cebeça e disse-me: ó meu querido filho eu deitei-a
no forno, pois que já estava toda descolada. Já ninguém queria a viola".
Perante aquele desabafo da simpática avozinha tive de cortar as unhas e
ficar á espera de outra oportunidade. Quando cheguei a casa contei o
sucedido à minha mãe e como as mães têm uma alternativa para tudo esta não
tardou. "A Chiquinha da Glória tem lá dois instrumentos. Uma guitarra
portuguesa e um bandolim" diz-me a minha mãe, "Vai lá pedir por empréstimo e
quem sabe se tu darão, dado já ninguém liga aquilo. Fui a casa da Chiquinha
onde na verdade existiam os dois instrumentos que tinham sido construídos
pelo bom carpinteiro o senhor Moitoso. A Chiquinha resolveu dar-me o
bandolim se bem que o meu sonho fosse a viola da terra. Lá levei aquela
reliquia do senhor Moitoso a um mestre de instrumentos na cidade da Horta.
Regressou como novo. Ora como eu já tinha um diapasão do seminário fui ver
as notas e descobri o "lá" e daqui as outras. Mas como era e sou canhoto
troquei as cordas para poder tocar à minha maneira. Aprendi uma
interpretação muito simples e fui à procura da minha mãe para dar o meu
primeiro  concerto. Estava lavando roupa na pia de pedra. "Emborquei" um
cesto de costas grandes que eram feitos pelo meu pai, sentei-me
confortávelmente começo a tocar todo entusiasmado e qual não é o meu espanto
que a minha mãe me manda parar. "Não é com essa mão. Vão-te chamar canhoto.
E para agravante não poderás tocar em instrumentos de outros à direita. E eu
respondi "também os outros não vão poder tocar no meu". Com todos estes
argumentos acabou por aceitar e ainda hoje sou canhoto.

"No seminário tive oportunidade de tocar com grande gente da música"

"No seminário tive oportunidade de tocar com Carlos Sousa, José Gabriel
Ávila, José Francisco Costa, Eduardo San Bento, João de Brito Lourenço
(guitarra portuguesa) e muitos outros. Houve gente que escreveu e que
escreve. Álamo de Oliveira, Urbano Bettencourt e outros que foram fazendo
canções de várias maneiras até mesmo o protesto no aspecto político".

"Tudo isto é de improviso espero que seja do vosso agrado"

"Gostava de chamar aqui ao palco Humberto Correia, Luís Silva, Nuno Puim,
Raúl Rodrigues, Francisco Resendes para me acompanharem. Tudo isto é de
improviso e espero que saia do vosso agrado", disse Dionisio da Costa em
pleno palco do Clube dos Pescadores.
E o som característico das últimas afinações começaram a fazer-se ouvir sob
os olhares atentos dos presentes.
Abriu a Charamba "Esta é a vez primeira que neste auditório canto...", assim
se iniciou uma noite musical com a "charamba" americanizada e a receber os
mais vivos aplausos.
De Manuel Freire veio "Se poeta sou/ sei a quem o devo/ ao povo a quem dou/
os versos que escrevo" foi a segunda da noite, que primou por aquilo que se
pode considerar uma homenagem musical a Dionísio da Costa.
"Não há machado que corte a raíz ao pensamento" foi mais outra interpretação
num rosário de recordações de sucessos e do sublinhar de um percurso musical
que tão bem identifica o músico da noite.
"Maria Faia" de letra, música, poema,  e fervor de Zeca Afonso, concluiu o
improviso da noite que saiu bem graças ao competente grupo de músicos que
estiveram com Dionísio Costa na noite do lançamento do seu primeiro CD.

Os presentes tiveram ainda oportunidade de ver desfilar pelo palco o
conjunto Gerasons. Foi mais uma achega à boa qualidade de músicos que
desfilaram pelo palco do Clube dos Pescadores.
Luís Silva, Raúl Rodrigues, Victor Cabral, Nuno Puim, Ana Ramos, Zélia
Silva, Noémia Benevides, Dora Gonçalves, constituem o Gerasons que agradou
no desenrolar das actuações contribuindo para o sucesso da noite.
Catarina Avelar e Jeremias Macedo são dois nomes que no fado dispensam
comentários. São bons, agradaram e receberam os mais vivos aplausos.
"Foi um excelente serão com grandes músicos, grande gente da música, que
sabem transmitir esse sentimento maravilhoso que é o som da alma", concluiu
Dionísio da Costa.
Está de parabéns José Brites, da Peregrinação Publications, que organizou o
evento.


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