Crónica ao Emigrante


• Manuel de Portugal



A  Granel

Portugal é um país engraçado. E o povo que nele habita, bem diferente de
todos os outros, no bem e no mal, parece que vai ter mesmo que, agora,
finalmente, começar a acordar. Em 1974 os militares revoltados fizeram um 25
de Abril para acabar com uma ditadura com teias de aranha. E para
implantarem um sistema democrático que pusesse termo à guerra colonial e ao
atraso crónico que a miopia de Salazar havia condenado a nação. Um pouco
surpresos, deram de caras com toneladas de lingotes de ouro que se
empilhavam nos cofres subterrâneos do Banco de Portugal e centenas de
milhões de contos em moedas fortes (francos suíços, marcos alemães e dólares
americanos) que avareza salazarista tinha acumulado à custa da barriga dos
pobres. Em vez de pegarem nesse verdadeiro tesouro do Ali Bábá para o
investirem num inteligente desenvolvimento industrial e em tudo quanto
faltava para sairmos da cauda da Europa, hospitais em condições, escolas
para erradicar o analfabetismo (na época 42% da população) estradas que
fossem verdadeiras artérias onde com segurança pudéssemos escoar as
mercadorias produzidas, fomentaram uma mentalidade despesista, concebida
pelos oficiais comunistas que dominavam o aparelho do Estado. Porque, como
então diziam, era preciso deitar abaixo o que estava podre para depois se
poder construir tudo de novo. Foi a famosamente triste época do "socialismo
à portuguesa" uma teoria que não se percebia lá muito bem o que era porque
os tropas talvez percebessem de armas, mas de Economia eram uns autênticos
zeros à esquerda.
O sistema a empregar para nos condenarem ao comunismo consistia na usual
técnica da terra queimada que já dera resultado na União Soviética em 1917 e
na China do revolucionário Mao-Tsé-Tung. Como se lembram, as ruas de Lisboa
encheram-se de manifestações e um pouco por todo o lado dispararam as
greves. Instituiu-se uma política de salários altos, uma panóplia de
regalias sociais que nem os países mais ricos mantinham. Diz o povo que
ninguém é profeta na sua terra e é bem verdade porque, como devem estar
recordados, ando há anos a avisar que a continuarmos por aquele caminho um
dia iríamos ver o fundo do tacho. Já se começou a ver...
Com as contas públicas completamente falsificadas (basta ver o Orçamento
Geral do Estado onde a fraude contabilística tentou disfarçar o défice real)
com a Economia a resvalar perigosamente para a estagnação, com a confiança
dos portugueses em baixa e os números do desemprego a atingirem níveis
verdadeiramente assustadores, creio que chegámos, por desgraça nossa, a um
patamar em que este ou qualquer outro governo tem que ganhar juízo e
deixar-se de fantasias. Para quem não está muito a par da forma como
tecnicamente se "douram" orçamentos quero dar-vos um exemplo simples de como
as coisas se fazem. O Amigo Leitor tem uma casa, um carro, um frigorífico e
duas máquinas de lavar. Mas deve, por hipótese, quatrocentos mil dólares a
alguém. Se lhe perguntarem como vão as suas finanças, embora não tenha um
cêntimo na sua conta bancária, pode apresentar uma situação financeira
risonha se sobrevalorizar aquilo que na realidade possui. Do lado esquerdo
duma folha de papel escreve tudo o que tem, alinhando por ordem os
respectivos valores: a casa vale trezentos e cinquenta mil dólares (quando
na realidade só vale duzentos) o carro vale cinquenta mil (mas de verdade só
vale trinta) o resto dos bens avalia-os em cinquenta mil (quando nem vinte
mil valem). Tudo somado deve um passivo de quatrocentos mil, mas tem um
activo de bens reais de quatro centos e cinquenta mil. Ou seja
CONTABILISTICAMENTE a sua situação financeira é próspera e tem muito por
onde sossegar os credores. Nas contas do Estado é fácil mascarar os défices
porque basta aumentar o valor das centenas de imóveis e viaturas que tem
para se escamotear a verdade. Outra técnica é mascarar as previsões. Basta
"prever" que o petróleo se manteria barato e que as exportações iriam subir
para que os valores positivos aumentassem. O pior é que as exportações têm
vindo a baixar devido à crise económica na Europa e à invasão dos produtos
chineses ao preço da uva mijona e o petróleo não tem parado de ser cada dia
mais caro por via do aumento da procura e das crises no Médio Oriente.
Durante décadas todos os governos apresentaram finanças prósperas e
positivas quando na realidade a nossa situação real se vinha a degradar de
ano para ano. Apesar dos alertas de vários economistas respeitados (Silva
Lopes, Medina Carreira, Miguel Cadilhe, Ernâni Lopes, João Salgueiro, etc)
todos os governos, todos, sem distinção de partidos, preferiram enterrar a
cabeça na areia a encararem as medidas drásticas que urgia tomar. Para
avaliarem como tem sido a nossa mentalidade transcrevo um e-mail que pessoa
amiga me remeteu ontem pela internet. Mostra uma fotografia da árvore de
Natal que a Câmara Municipal de Lisboa construiu no Terreiro do Paço e da
qual está a fazer publicidade nos jornais e na televisão (pagando os
respectivos custos, é claro) e que anuncia como "a maior árvore de Natal da
Europa"). De seguida mais abaixo vem uma foto dum computador gigantesco com
a seguinte legenda: "no dia em que Portugal inaugurou a maior árvore de
Natal da Europa a Espanha inaugurou o maior computador da Europa". Ou seja
que enquanto nós esbanjamos o pouco dinheiro que temos em coisas supérfluas,
os espanhóis investem em bens que geram riqueza. É por estas e por outras
que o nosso crescimento económico vai rondar uns míseros 1% enquanto a
Espanha (cujo nível de vida não pára de crescer) pôde anunciar um
crescimento económico anual e real de 3,5% !!!S
Embora não seja socialista, tenho que reconhecer que a política adoptada
pelo engenheiro Sócrates é cem por cento correcta. As suas prioridades não
se restringem a medidas para o imediato, mas vão-se projectar num futuro de
médio e longo prazo. Considera e bem que a Educação é a pedra angular do
desenvolvimento daí que tenha instituído como obrigatório o ensino da língua
inglesa nas escolas desde os primeiros anos de frequência e ampliou o número
de horas das aulas de matemática porque sem uma boa aprendizagem desta
disciplina não há hipótese de concorrermos em condições nas actuais
dificuldades do mercado. A par destas tomadas de posição, atacou de frente
as regalias de algumas classes que com o 25 de Abril passaram a mamar à
grande e à francesa na teta gorda do Orçamento do Estado. Quer tirar aos
juízes os dois meses de férias que tinham por ano, equiparando-os a todos os
outros trabalhadores que só podem gozar trinta dias. Quer tirar à Polícia o
regime especial que tem de assistência médica e farmacêutica, integrando-a
no Sistema Nacional de Saúde que abrange toda a população portuguesa. E quer
que os enfermeiros dos hospitais públicos só se possam reformar aos 65 anos
de idade, como toda a gente que trabalha, e não aos 57 que foi uma das tais
regalias que tiveram no 25 de Abril. Como não podia deixar de ser, os juízes
andam às turras com o governo, os polícias saíram para a rua com
manifestações de protesto e os enfermeiros vão para a greve que é para
agravar ainda mais o défice económico a que fomos condenados. É muito
difícil lutar contra a corrente e tirar o chupa-chupa da boca das
criancinhas provoca logo choros, birras, lágrimas e más-criações.
Só para vos deixar bem esclarecidos, ainda quero relatar-vos as últimas
declarações do governador do Banco de Portugal, absolutamente insuspeitas
por virem da boca dum político que foi líder do Partido Socialista, o
respeitado economista Victor Constâncio. Segundo ele, o endividamento
particular dos portugueses vai sofrer um agravamento de seis por cento em
2005. Isto quer dizer que se em 2004 o endividamento das famílias
portuguesas era, em média, de 117% do seu rendimento disponível em 2005 esse
valor vai subir par o perigoso nível dos 123%. Ora conforme todos os
tratados de Economia ensinam a taxa máxima de endividamento por família não
deve nunca ultrapassar os 40% do seu rendimento real. Logo os portugueses
estão endividados em 83% a mais do valor que as suas carteiras suportam. Mas
o mais grave é que devido ao crédito barato os portugueses não fazem contas
ao dia de amanhã (quando os bancos lhes apresentarem a conta para pagamento)
e entraram numa fúria de compras duma insensatez sem limites. Restaurantes
cheios. Viagens para férias no Brasil esgotadas. Carros de topo de gama
todos vendidos. Andares e casas de praia é um ver se te avias. É que com as
facilidades dos cartões de crédito, as pessoas têm a sensação de que não
estão a gastar dinheiro. Mas como um mal nunca vem sozinho, Victor
Constâncio lastima que o défice real (e não o mascarado...) seja
previsionalmente de seis por cento ao mesmo tempo que a dívida pública já
ultrapasse os 65% do Produto Interno Bruto (PIB) até ao final do ano. Daqui
resulta que a Economia Portuguesa vai crescer apenas uns irrisórios 0,3%
(ainda menos 0,2% da previsão do governo) fruto do descalabro das nossas
estruturas sociais e da terrível e fortíssima concorrência dos países que
entraram em Maio para a União Europeia e que por terem sistemas fiscais
melhores do que o nosso e uma mão-de-obra muito mais bem classificada do que
a portuguesa estão captar os investimentos estrangeiros que deixaram de vir
para Portugal ao mesmo tempo que nos começam a fazer frente (com melhores
condições competitivas) nos nossos mercados tradicionais.
Como somos um povo muito engraçado já começou em fins de Outubro a campanha
para as eleições para a presidência da República quando só se deviam ter
iniciado em meados de Dezembro. E quando se pensava que apenas iriam
disputar o cadeirão do Palácio de Belém os candidatos do PSD (Cavaco) e do
PS (Soares ou Alegre) eis que surgem na ribalta mais alguns comparsas para
animar à festa. Assim além dos já mencionados também querem fazer uma
perninha de dança (quanto mais não seja para aparecerem a mandar umas bocas
na televisãoS) alguns ilustres desconhecidos (Manuel João Vieira e Manuela
Magno, professora de Música em Évora) e os advogados Garcia Pereira (um
candidato crónico e já habitual nestas andanças por conta do MRPP) e José
Maria Martins, o advogado do tristemente famoso Bibi, o célebre pedófilo em
julgamento no badalado processo da Casa Pia, constando ainda que a velha
revolucionária Carmelinda Pereira talvez venha a subir à ribalta à
semelhança do que fez no passado. Pode não haver dinheiro nos cofres do
Estado, mas candidatos para presidentes da República os há a granel...
Com o abraço de sempre prometo que para o mês que vem vos darei conta de
como vai este barco que de ano para ano se tem vindo a fundar.


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