Trinta e um anos - VII

Hélio Bernardo Lopes




Como tive a oportunidade de salientar no meu texto anterior, a Aliança
Democrática extinguiu-se em face da decisão de Freitas do Amaral de
abandonar o terceiro Governo dessa coligação, à luz do que invocou: os
resultados das eleições autárquicas que haviam tido lugar.
Poucos se lembrarão, contudo, de que o PSD e o CDS tentaram, ainda, um
quarto Governo dessa aliança, chefiado, ao nível dos partidos,
respectivamente, por Vítor Crespo e Luís Barbosa. Muitos acreditaram mesmo,
ao tempo, que um tal Governo da Aliança Democrática poderia ter sido melhor
que os anteriores três, mas a verdade é que Ramalho Eanes recusou tal
solução, entendendo que deviam ser convocadas eleições antecipadas.
Os resultados deixados por esta coligação estiveram longe de ser brilhantes,
ao mesmo tempo que se assistiu a uma conflitualidade enorme entre os
dirigentes dos dois partidos. Uma conflitualidade que enchia as páginas dos
jornais e alimentava, diariamente, a nossa televisão. É natural que a
maioria dos portugueses já não se recorde do que foi a acção do EXPRESSO
contra Francisco Pinto Balsemão, completamente impensável nos tempos de
hoje, ao mesmo tempo que se desenrolavam as lutas dentro do PSD, com uma
intensidade dificilmente igualável, e do CDS, ainda sob formas muito
larvares mas de há muito anunciadas.
O País, esse, tinha voltado a descer aos infernos da Economia e das
Finanças. O resultado foi, então, algo de semelhante ao que há pouco se deu
na Alemanha, com a criação de uma coligação entre o SPD e a CDU: foi, entre
nós, o surgimento do Bloco Central, constituído pelo PS, chefiado por Mário
Soares, e pelo PSD, sob a liderança de Mota Pinto.
Pela segunda vez, de novo sob a liderança primeira de Mário Soares,
Portugal, com mais um esforço dos portugueses, conseguiu sair do buraco
negro para onde havia sido atirado pelo prolongado desgaste da anterior
coligação.
A verdade, porém, é que não parava a agitação interna no seio do PSD,
verdadeira marca genética do partido. Foi assim surgindo uma linha forte de
actuação contra a liderança do académico conimbricense, Carlos da Mota
Pinto. Até que, qualquer que tenha sido a razão profunda da tragédia,
ocorreu a morte de Mota Pinto. Nos termos estatutários sucedeu-lhe Rui
Chancerelle de Machete, que continuou, com Mário Soares, o bom trabalho que
vinha de trás.
E surgiu o Congresso do PSD da Figueira da Foz, onde, inesperadamente,
Cavaco Silva veio a derrotar João Salgueiro e a assumir a liderança do PSD.
Num ápice, Cavaco Silva pôs quase tudo em causa: a oportunidade da adesão de
Portugal à Europa, a actuação muitíssimo boa de Ernâni Lopes, e a própria
coligação do Bloco Central. Ao tempo, pelo que se pôde saber pela
comunicação social e se percebeu pela imagem facial e pelas parcas palavras
de Rui Machete, o fim de uma coligação que estava a realizar um bom trabalho
e se mostrava com condições para o prosseguir.
Ou seja: depois de Freitas do Amaral ter posto um fim na Aliança
Democrática, Cavaco Silva pôs um outro, mas no Bloco Central. E depois, esta
ironia da política, tantas vezes esquecida da grande maioria dos eleitores:
contra a vontade de Cavaco Silva, a verdade é que Mário Soares levou
Portugal e entrar no espaço político europeu, naquele momento histórico
célebre que decorreu nos Jerónimos. Uma vitória de Mário Soares, digamos
assim, mas que se saldou numa outra de Cavaco Silva: ele viria a ser o
primeiro Primeiro-Ministro de Portugal a receber, a fundo perdido, perto de
um milhão e pouco de contos por dia! Tivesse Mário Soares uma tal oferta, e
muitos dos sacrifícios que os portugueses tiveram de pagar não teriam tido
lugar.
A verdade, como no passado Verão se soube através do Herald Tribune, e que
todos nós bem tivemos a oportunidade de poder perceber, é que esse
fantástico dinheiro, jamais oferecido até aí a Portugal, esteve longe de ser
bem utilizado. Hoje, como pode ver-se bem, o que restou de estruturante foi,
de facto, muito pouco. Foi, como todos fomos vendo, fartar vilanagem! De
duradouro, para lá das autoestradas e de algumas grandes obras de construção
civil, ficou muito pouco, o que teve esta consequência: assim como se encheu
o balão, também depois o mesmo se esvaziou! Como é evidente, esta falta de
capacidade estruturante continuou depois, com os Governos que se seguiram,
com a notável excepção do actual.


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