Do Tempo e dos Homens

 
Manuel Calado



Recordando...

Ainda somos do tempo, na velha Lusitânia, em que as vozes de comando, a
filosofia basilar da sociedade se resumia ao slogan "Deus, Pátria e
Família". Para além disto, pouco mais existia, além de Futebol, Fátima e
Fado e outros efs de que não me recordo. E isto era bastante para justificar
a existência da sociedade. Tudo acomodado dentro destes três paralelos. E de
um lado e do outro, como padrões assinalados, sustentáculos da lusitanidade,
os retratos de Salazar e de Carmona. Este, no seu uniforme de gala de grande
general do reino. E tudo parecia estar bem, com disciplina, ordem, fé e
Tarrafal. E o "portuguesinho valente" seguia os ditos civilizacionais e as
dores da palmatória, da cana da Índia e do bofetão.
Ainda me lembro, tinha eu os meus oito anitos, dos bofetões, com ambas as
mãos, que levei do sr. Costa, o meu primeiro professor. Estava dando a lição
das primeiras letras, e o meu cerebrozito, por mais esforços que fizesse, e
suando por todos os poros, não encaixava as letras da sebenta. O senhor
Costa perdeu a cabeça e deu-me uns bofetões com ambas as mãos, que ainda
hoje sinto nas verrugas do meu subconsciente ultrajado.
"É de pequenino que se torce o pepino", proclamava então a sabedoria
popular. E meu pai costumava usar o mesmo método quando eu, que sempre
gostei de estar ao pé de gente grande, fugia para a forja do Tio Sebastião,
nosso vizinho, e gostava de tocar o fole e ouvir as conversas, por vezes
apimentadas dos homens e dos rapazes grandes, que já punham a navalha na
cara, já namoravam e iam aos bailes...
E já que estou com a mão na massa das recordações, direi que o senhor Costa,
que veio a ser avô do ministro da Justiça, dr. Mário Júlio de Almeida Costa,
era um homem inteligente, mas irritadiço. Publicou um livro intitulado
"Anuário do Professorado Primário", era farmacêutico e dono da farmácia
local, que ao tempo, anterior aos cafés de agora, era o centro do cavaco e
de reunião da gentilidade da terra: o padre Pericão, o Manuelzinho Brito,
meu parente, o sr. Victor, pai do que viria a ser o chefe da Polícia
Judiciária, o dr. Manuel Victor e outros. O sr. Costa era um ateu dos quatro
costados e costumava envolver-se em discussão acesa com o reitor Pericão.
Ambos estes homens, nas noites frias de Inverno, costumavam ir aquecer as
pernas à lareira da nossa casa, onde meu pai fazia uma grande fogueira com
chispas de cepo de pinheiro e achas de eucalipto. E iam bebericando o sumo
das cepas da nossa Quinta do Escarigo.
Lembro-me que um dia, no aceso da discussão com o padre, o professor Costa
perdeu a cabeça e agarrou no mexedor da broa, que estava em cima da gamela
onde minha mãe estava a amassar a fornada de milho e queria ir às costelas
do padre Pericão.
No fundo, o sr. Costa era um homem liberal mas bem formado, e os filhos
seguiram a mesma rota, e um deles, o professor José Costa, que estava em
Coimbra e gostava de discutir política pelos cafés, uma noite foi
surpreendido pela PIDE, desapareceu da circulação e soube-se mais tarde que
havia estado no Tarrafal.
Era assim que funcionava o regime de Deus, Pátria e Família. As pessoas
desapareciam durante a noite, e as famílias medrosas e tremendo represálias,
nem tugiam nem gemiam. Lembraram-me todas estas peripécias quando comecei a
bater as primeiras teclas desta crónica, procurando estabelecer o contraste
com esta litigante e barulhenta liberdade político-religiosa. Que, em
essência, a democracia é assim mesmo. Cada cabeça cada sentença. E quanto
mais uns puxam para a direita, outros puxam para a esquerda. Estes alegando
a defesa da Constituição, que prega a separação da Igreja do Estado e que
agora estão implicando com a legenda Merry Christmas impressa nos bilhetes
postais e na frontaria dos negócios que podem até ser judeus, mas desejam
atrair os irmãos cristãos.
E parece-nos que não há mal nenhum nisso. Mas alguns ateus mais renitentes
acham-se ofendidos com a designação e levaram a coisa ao mais alto tribunal,
para que proíba a saudação de Feliz Natal em propriedade ou edifícios
públicos. E alguns estabelecimentos substituiram o tradicional Merry
Christmas por Happy Holidays.
Mas nisto saltam a terreiro alguns pastores da televisão, ameaçando boicotar
os armazéns de compras que arvorem a legenda de Happy Holidays, em vez de
Merry Christmas. Alegam os da esquerda que este país de imigrantes é terra
de muitos deuses e muitas fés, e que não se podem ofender aqueles que não
professam a nossa fé. Mas o Natal é uma festa cristã, quer queiram quer não.
Os judeus têm as suas, os maometanos as suas, os budistas as suas e aí por
diante.
E há também quem queira tirar do dinheiro o slogan "In God We Trust". Mas
íamos jurar, como o pregador da Galileia, que os irmãos milionários têm mais
confiança no dinheiro do que em Deus. Se não fosse assim, seriam talvez mais
generosos e humanos. E não haveria tanta diferença entre a alta finança e o
pé descalço. E o seguro social e de saúde seria uma realidade e não um
futebol político.



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