Repiques da Saudade

 
Ferreira Moreno



Narrativas do Corpo Santo (1)

Corpo Santo é o termo que, originariamente, se aplicava ao aparecimento de
faíscas eléctricas, volteando no topo dos mastros de barcos fustigados por
violenta tempestade. P'rós marinheiros e pescadores, essa descarga eléctrica
era prenúncio de próxima bonança. Muitos marítimos julgavam ver nessas
bolinhas de luz azul uma manifestação do próprio padroeiro, São Pedro
Gonçalves, assegurando que o tempo ia amainar e esbater a tempestade.
Eventualmente, Corpo Santo passou a designar não só as igrejas e ermidas,
que se iam construindo em honra do popular patrono S. Pedro Gonçalves, mas
também entrou a designar as localidades onde as mesmas se encontravam,
algumas delas ja desaparecidas.
Por exemplo, na Ribeira Grande, ilha de S. Miguel, existiu uma ermida do
Corpo Santo que, no dizer do saudoso Padre Ernesto Ferreira (1880-1943),
deve ter sido construída em fins do século 17 ou princípios do século 18.
(Ao Espelho da Tradição, Página 210). De facto o Capitão Francisco Afonso de
Chaves e Melo menciona uma ermida de S. Pedro Gonçalves na Ribeira Grande em
"A Margarita Animada", um trabalho histórico publicado em 1723.
Na terceira edição do seu livro "A Ribeira Grande", Ventura Rodrigues
Pereira (1917-1993) afirma que a ermida de S. Pedro Gonçalves, ou Corpo
Santo, situava-se na Praça do Município, onde hoje está o Paço. "Não se sabe
o ano da sua fundação mas crê-se, segundo Cabral de Melo, que foram os
pescadores que a erigiram".
Neste caso, seja-me permitido aventurar a hipótese que a supracitada ermida
teria sido substituída pela pequena Capela dos Passos, localizada
presentemente a curta distância da Câmara Municipal.
Ainda em S. Miguel, duas outras ermidas (já desaparecidas) encontram-se
referidas no Livro IV das "Saudades da Terra" de Gaspar Frutuoso
(1522-1591). No testemunho de Frutuoso, existiu em Ponta Delgada "a ermida
do Corpo Santo, bem fabricada e provida, onde os mareantes têm sua rica
confraria".
Na sua monografia histórica "Ponta Delgada", o Dr. Urbano de Mendonça Dias
(1878-1951) incluiu um episódio picaresco relacionado com esta ermida e que
passo a transcrever.
A Confraria de S. Pedro Gonçalves teve a sua sede, até 1862, na ermida do
Corpo Santo, mas como ela se arruinou e não houve ensejo de a restaurar foi
resolvido (após um caloroso debate entre os confrades) levar a imagem do
Santo p'rá Igreja da Graça.
A situação, porém, manteve-se em pé de guerra por algum tempo, pois que os
marítimos de Santa Clara tencionavam transferir a imagem p'rá sua igreja de
Santa Clara. Ao fim e ao cabo, venceram os marítimos da Calheta, e a imagem
do Santo foi levada em procissão p'rá igreja da Graça.
Conta-se então, que um dos pescadores de Santa Clara ao ver o Santo
instalado no altar, aproximou-se dele e em altas vozes falou-lhe desta
maneira: "Ó São Pedro Gonçalves, ou vós sois Santo ou não sois Santo. Se
sois, é hoje aqui e amanhã em Santa Clara. Agora se não sois..."
E na maior inconsciência, o pescador lançou uma blasfémia pela boca fora,
voltou as costas ao Santo e desceu p'la igreja abaixo.
A outra ermida micaelense do Corpo Santo, igualmente desaparecida, e
referida por Frutuoso no Capítulo 40 do Livro IV das "Saudades", estava
localizada em Vila Franca do Campo, na rocha sobranceira ao mar, "na entrada
da rua que vai ter ao terreiro da Casa da Misericórdia". Ainda hoje, o sítio
é conhecido por Rua e Calhau do Corpo Santo.
O ilustre vilafranquense Dr. Urbano de Mendonça Dias, no primeiro volume da
"História das Igrejas & Ermidas Micaelenses", escreveu que ainda conheceu a
ermida acima referida. Certamente teria sido levantada pelos pescadores,
quando Vila Franca foi reedificada após o terramoto que a sacudiu em 1522.
De facto, D. José Pegado d'Azevedo, bispo dos Açores (1802-1812), na sua
Carta de Visitação (23-Novembro-1811) deixou dito que "A Ermida do Corpo
Santo pertence aos homens do mar". Ao tempo, a ermida já estava a decair;
por isso, o bispo recomenda vigilância. Aparentemente, de nada valeu a
recomendação do prelado diocesano, visto que no princípio do século XX a
ermida encontrava-se tão arruinada que acabou por ser arrasada. Venderam-se
as pedras e as lavouras, mas a Imagem e o Altar foram transferidos p'rá
antiquíssima ermida de Santa Catarina, construída pelos primeiros povoadores
da ilha, e que "escapou sem cair" aquando do terramoto de 1522. (Frutuoso,
Saudades, Livro IV, Capítulo 70).

Na próxima semana temos encontro marcado nas ilhas da Terceira e da
Graciosa.


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