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Nos EUA, futebol é coisa de mulher
A crónica de hoje é dedicada à memória da minha tia Hortense e escrita
segunda-feira, 5 de Dezembro, dia em que se realizou em Lisboa o seu
funeral.
Hortense Dinis faleceu sexta-feira, duas semanas depois de completar 90
anos. Telefonei-lhe nesse dia a felicitá-la e foi a última vez que falámos.
Abencerragem da ínclita tribo dos Mendes de Pomares que há 70 anos se
lançaram à conquista das leitarias de Lisboa e de que faziam parte os seus
quatro irmãos, um deles meu pai, Hortense conheceu um único emprego, tomando
conta da casa de banho das senhoras no Odeon, velho cinema da Baixa
lisboeta, o que me dava direito a ouvir as damas urinar de chafariz e a ver
o filme à borla.
O marido, Henrique Dinis, era tão doente pelo Sporting que, quando casou,
fez questão de que a mulher fosse também sócia e assim Hortense Dinis se
tornou a sócia mais antiga do Sporting, quase 70 anos de filiação.
Gostava talvez mais do Sporting que do futebol, mas ouvi-lhe um dia uma
profecia que parece começar a concretizar-se: "Alguns jogadores são tão
mariquinhas que o futebol ainda um dia vem a ser jogo só de mulheres."
A tia Hortense tinha razão. Em Portugal há cada vez mais mulheres a jogar
futebol e já são cerca de mil, enquanto o futebol masculino está cada vez
pior, com os árbitros a venderem-se por férias pindéricas no Brasil.
Nos EUA, onde dez milhões de mulheres praticam futebol, elas estão a
conseguir aquilo que os homens nunca conseguiram, popularizar o jogo.
O futebol chegou aos EUA em meados do século 19 trazido pelos imigrantes
ingleses, mas tornou-se conhecido por soccer, pois aqui o football já era
aquilo que se conhece por futebol americano no resto do mundo.
Se repararem, no soccer todos os jogadores podem pontapear a bola e só o
guarda-redes lhe pode tocar com as mãos, no futebol americano todos podem
colocar as mãos na bola e só dois jogadores, o kicker e o punter podem
chutar.
Boston foi uma das primeiras cidades onde se jogou soccer e há notícia
de
um jogo realizado em 1895 no Franklin Park, entre as equipas da Boston
English High School e da Boston Latin a que assistiram 45.000 pessoas.
Em 1900, dizia-se que New York tinha metade dos italianos que viviam em
Nápoles, tantos alemães como Hamburgo, tantos judeus como Varsóvia e o dobro
dos irlandeses de Dublin. Todos conheciam o soccer e constituiram os
primeiros clubes surgidos nos EUA: Brooklyn Hispano, Philadelphia
Ukranians, San Francisco Scots e Cambridge Lusitânia, que os portugueses
também entram nesta história e criaram clubes associações em Fall River, New
Bedford, Newark e outras cidades industriais onde se fixaram.
O clube português mais popular foi sem dúvida o Ponta Delgada, de Tiverton,
arredores de Fall River. Foi o primeiro clube a ganhar no mesmo ano (1947)
as duas principais provas de soccer, US Open (National Challenge) e
National Amateur Cup. Ainda existe, mas é apenas bar e a única modalidade
desportiva praticada é a sueca.
Os EUA participaram no primeiro campeonato do mundo, disputado em 1930 no
Uruguai e ganho pelos donos da casa, que venceram a Argentina na final por
4-3.
A selecção americana era formada por seis ingleses, cinco escoceces e um
português, Adelino Gonçalves, nascido em 1908, em Portsmouth, RI, um dos
sete filhos de Agostinho e Rosa Gonçalves, um casal madeirense imigrado dois
anos antes. Adelino tornou-se Bill Gonçalves, ainda hoje a maior legenda do
soccer.
Os jogos da selecção dos EUA, que já foi treinada pelo português Carlos
Queirós, têm hoje direito a transmissão nos canais nacionais de televisão,
mas o soccer ainda é sobretudo jogo de imigrantes.
Basta lembrar que em 1998, em Pasadena, a selecção do México venceu os EUA
por 1-0 e o estádio estava cheio, mas com 100.000 mexicanos.
Embora não conseguissem ter um campeonato nacional, os EUA organizaram o
Mundial de 1994 e ajudou a divulgar a modalidade.
Hoje há 3,5 milhões de jovens americanos a jogar soccer nas escolas (mais do
que beisebol) e, embora nem todos dêem futuros Bill Gonçalves, serão futuros
espectadores.
Mas ainda mais significativo é a existência de 10 milhões de mulheres a
praticar futebol nos EUA, mais do que homens. A selecção feminina dos EUA é
bicampeã mundial (1991 e 1999) e campeã olímpica (1996) e isso parece ter
criado toda esta febre.
Existem programas de futebol feminino em mais de 300 universidades e uma
dezena de ligas, uma das quais profissional, WUSA criada em 2001 e com oito
equipas que pagam às jogadoras $10.000 mensais.
Existe também uma selecção feminina portuguesa, ELAS (Elite Luso-American
Select), projecto sediado em Tampa, Fl. e dinamizado por Francisco Marcos.
Há que reconhecer que as mulheres estão mais vocacionadas para o soccer e
até no namoro só rescindem o contrato quando já têm outro em vista.
Quando a LASA (Luso American Soccer Associaton) estava no auge e os jogos do
Portuguese Sports (que figura no Massachusetts Soccer Hall of Fame) e do
Portuguese American chegavam a atrair cinco mil espectadores, muitas
portuguesas de New Bedford iam à bola e vibravam mais que os homens.
Algumas iam ver os namorados, os maridos ou os filhos jogar, não contendo as
emoções. E aconteciam por vezes situações hilariantes, com uma ou outra mamã
mais exaltada a gritar a plenos pulmões para o filho jogador: "Vê lá se
não
falhas meu filho da p...!"
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DESCREVENDO a trajectória atlântica da tempestade tropical Epsilon, uma
sorridente meteorologista da Fox TV referiu-se a Açores como sendo uma única
e remota ilha e não um arquipélago. A menina precisa voltar à escola.
ALÍCIA Machado, a luso-venezuelana que se sagrou Miss Universo em 1996, vai
aparecer tal como veio ao mundo na edição de Fevereiro próximo da edição
mexicana da revista Playboy. Filha de um lisboeta dono de lojas de
brinquedos em Caracas, Alícia fixou-se em 1999 no México e trabalha em
telenovelas.
CARMEN Miranda, a portuguesa que se tornou a actriz e cantora brasileira de
maior fama internacional no século 20 e faleceu em 1955 em Hollywood, será
recriada numa exposição no Rio de Janeiro, juntamente com os seus
extravagantes chapéus de frutas e as monocórdicas marchinhas carnavalescas.
O QUE parecia impossível acontecer no Brasil, a TV Record, que pertence à
Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), do bispo Edir Macedo, está a impor
uma verdadeira derrota à TV Globo, líder da audiência das telenovelas.
A TV
Globo lidera na novela (Alma Gémea) e das 8:50 (Belíssima), mas na novela
das 7:00 (Bang Bang) perde para a Record (Prova de Amor). A sede da Record é
em S. Paulo, mas a emissora resolveu imitar a Globo e comprou estúdios no
Rio de Janeiro para ter mais facilidade em contratar actores de novelas.
EXISTE uma Nova Iorque que não tem Estátua da Liberdade e arranha-céus. É no
Brasil, Maranhão. Burgo de cinco mil habitantes, à beira do rio Parnaíba e
que nasceu em 1764 com o nome de Vila Nova. Mas apareceu por lá o engenheiro
americano Edward Burnet, que contribuiu para o progresso local e, em 1886, o
burgo homenageou-o adoptando o nome da sua cidade natal. Até há poucos anos
o nome era New York e chapa de matrícula dos carros exibia New York, MA. Mas
a municipalidade decidiu aportuguesar para Nova Iorque.
PORTUGAL marcou presença no festival e curtas metragens da New York Film
Academy, que decorreu de 18 a 26 de Novembro. Além do envio de alguns
trabalhos produzidos pelo cineclube da Universidade de Évora, o municipio
enviou também um subsídio de 20 mil euros que fez jeito à organização.
A AVELEDA está a exportar queijo para a Suíça e para França, um país que
produz 360 tipos de queijos. É o mesmo que exportar neve para o Polo Norte
ou areia para o deserto do Saara, mas ajuda a explicar também a exportação
de cafés solúveis portugueses para os EUA. É o mercado da saudade a
funcionar.
Ténis para imigrantes
A artista plástica argentina Judi Werthein lançou um modelo especial de
ténis destinado aos imigrantes ilegais que atravessam a pé a fronteira do
México para os EUA. Os ténis são de cano alto, nas cores verde, vermelho,
preto e amarelo, têm uma águia americana bordada à frente uma águia mexicana
no calcanhar, vêm numa caixa com bússola, lanterna e comprimidos. A palmilha
é removível e tem impresso um mapa da fronteira. O modelo foi baptizado de
Brincos, palavra que significa saltar em espanhol e é como os clandestinos
chamam a travessia. Judi Werthein tem andado a oferecer os ténis aos
candidatos à travessia, mas já estão à venda em Tijuana e outras cidades na
fronteira mexicana e o preço é mais de 200 dólares e o mercado é fabuloso. A
fronteira tem 3.140 kms e é cruzada todos os dias legalmente por mais de um
milhão de pessoas e ilegalmente por largos milhares. O problema não é
questão de leis, mas de oferta e procura. Os Estados Unidos precisam de
mão-de-obra barata e na América Latina há milhares de desempregados e, dos
que têm trabalho, muitos ganham apenas cinco dólares por dia, enquanto que
nos Estados Unidos podem ganhar o mesmo por hora.
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EUA executam milésimo condenado à morte
Os EUA fizeram na passada sexta-feira a milésima execução desde que a pena
de morte foi restabelecida em 1976. Kenneth Boyd, 57 anos, condenado à morte
por ter assassinado a mulher e o sogro na frente dos seus dois filhos em
1988, foi executado com uma injecção letal no estado da Carolina do Norte.
Boyd nunca negou que fosse culpado, embora afirmasse que os traumas vividos
na Guerra do Vietname foram um agravante para alterar o seu estado mental no
dia do crime. A pena de morte ainda vigora em 38 dos 50 estados americanos,
mas o público está cada vez mais reticente sobre esta prática e os tribunais
têm mostrado mais relutância em aplicá-la. Portugal aboliu a pena de morte
para crimes civis em 1867 e foi a primeira nação europeia a fazê-lo. Mas
para crimes militares a pena máxima continuou a vigorar em caso de guerra
com país estrangeiro e em cenário de guerra e só seria abolida em 1976. O
último militar português executado foi o soldado Ferreira de Almeida,
acusado de se ter vendido aos alemães. Foi fuzilado em 1917, durante a I
Guerra Mundial, em França, por um pelotão de oito sargentos e um alferes. O
derradeiro pedido do soldado foi para não lhe desfigurarem o rosto. Os
executores respeitaram esse desejo.
Os zumbis de Lennon
Cumprem-se amanhã 25 anos sobre o assassinato do ex-beatle John Lennon pelo
desequilibrado Mark Chapman, a 8 de Dezembro de 1980, quando saía do
edifício Dakota, na Rua 72 com a Central Park West, onde foi filmado o
primeiro King Kong e o Rosemary Baby, de Roman Polansky, em 1968. É um
prédio de nove andares, pátio interno e decorado com figuras demoníacas. Foi
sonhado em 1878 pelo advogado Edward Clark, herdeiro da fortuna da família
Singer das máquinas de costura. Clark encomendou o projecto ao arquitecto
Henry Hardenburg, que desenhou também o Plaza Hotel, a curta distância. Um
prédio com 60 apartamentos, ao todo 65 suites e 623 quartos, janelas de
dois metros de altura, paredes de mármore e tectos trabalhados. Naquele
tempo, o edifício ficava tão distante de tudo que o povo passou a chamar-lhe
Dakota e o nome pegou. Foi inaugurado em 1884 e tem tido inquilinos anónimos
como embaixadores de Portugal nas Nações Unidas e celebridades como as
cantoras Judy Garland e Roberta Flack, que chamava às estátuas os zumbis de
Lennon e vendeu o apartamento por $2,3 milhões; actriz Gilda Radner; os
actores Jose Ferrer, William Inge e Boris Karloff, especialista em filmes de
terror; maestro Leonard Bernstein; o apresentador de televisão Maury Povich,
actualmente membro da comissão administrativa dos condomínios cuja
manutenção pode ser de $3.500 por mês. Lennon comprou o apartamento em 1975
por $800.000, quatro quartos e duas suites. Lennon gostava de passear por
Central Park entrando pela esquina da Rua 72, onde foi morto. O local foi
baptizado Strawberry Fields em homenagem à composição homónima de Lennon. No
chão, em bela calçada portuguesa, foi construída uma rosa dos ventos com a
palavra Imagine, título de outra famosa canção de Lennon. Há muitos anos
que, no aniversário da sua morte, os admiradores de Lennon concentram-se
no
Strawberry Fields e passam a noite cantando os seus temas. Yoko Ono vai
dormir para outro local.
Os maiores nos mayors
Na edição de 24 de Novembro falou-se aqui de mayors luso-descendentes, mas
Frances Gracia Silvia, uma senhora de Fall River que se dedica à recolha do
historial português na América do Norte, telefonou a lembrar um nome que
ficou esquecido: John A. Pereira, açoriano da ilha de Santa Maria, que se
fixou na localidade de John Day foi eleito mayor em 1928 e novamente em
1937-38. John Day é no Oregon, numa bela pradaria por onde andou Daniel
Boone. Uma cidadezinha turística que deve o nome a um tal John Day, que
andou por lá de passagem e acabou por dar o nome a um rio (John Day River,
muito procurado pelos rápidos), a um parque fóssil de que há notícia (John
Day Fossil Bed) e a duas cidades (John Day e Daysville). Day acabou os seus
dias em Mayville, New York, em 1819. Não faz sentido terem dado o nome de
Day à cidade. Deviam era ter-lhe chamado Pereira.
Reticências...
- Os boatos são como os balões: crescem, crescem e rebentam...
- Boato é quando alguém ouve um sopro e o converte em ciclone...
- Errar é humano e deitar as culpas para os outros é ainda mais humano...
- Errar é humano e esquecer é rotina...
- Errar pode ser humano, mas insistir no erro é estupidez...
- Os erros estúpidos são sempre cometidos pelos outros; nós só cometemos
erros "inevitáveis"...
- Nunca exagere os seus próprios erros, deixe que os outros se encarreguem
disso...
- As faltas alheias são como os faróis dos carros dos outros, parecem mais
luminosos que os nossos...
Ferreira Moreno
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