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2005
Solicitado há alguns dias atrás a efectuar um comentário e análise em
retrospectiva ao ano que agora findou, sobre o que pensava em termos de
música e espectáculos pela comunidade, confesso que tive de consultar os
nossos bem organizados ficheiros para não esquecer ninguém nem de qualquer
coisa que pudesse eventualmente ferir susceptibilidades e mentalidades,
porque há leitores, ouvintes e espectadores do outro lado que estão sempre
muito atentos ao que se escreve nos jornais e se fala na rádio e TV:
recortam, gravam e comentam. E ainda bem que assim é. Porque é nessa permuta
e partilha de ideias e opiniões que se aprende e assim se enriquece a nossa
enciclopédia de conhecimentos. A troca de ideias, com as concordâncias e
discordâncias deve ser limitada a isso apenas, com o respeito recíproco por
base. Sem complexos de superioridade ou inferioridade. É que sou 200% contra
a filosofia do boicote, porque na realidade só traz atritos, "guerrilhas"
e
não resolve coisa alguma. É parente próximo da ignorância e é quanto a mim
sintomático de uma mentalidade pobre, fraca e vazia de ideias. Gosto de
estar acima de tudo isso. Quanto a boatos e enredos, sou surdo e mudo.
Bom, mas vou ao que interessa realmente, que é realçar aqui as figuras e
eventos mais em evidência em 2005.
A começar aqui pela comunidade devo referir que foi um ano de coisas e
projectos no mínimo interessantes.
No que se refere a espectáculos, saliente-se as campanhas de solidariedade
levadas a cabo recentemente, tanto em benefício das vítimas do furacão
Katrina (16 e 23 de Outubro) e em Dezembro da "Operação Natal
Feliz", este
quanto a mim o espectáculo do ano, se bem que entre no rol de suspeitos
nesta afirmação, uma vez que fiz parte da comissão. Mas contra factos não há
argumentos e não é preciso fazer grande exercício de memória para se chegar
a essa conclusão.
No que se refere a artistas mais em destaque, considero que Ana Lisa é
realmente a artista revelação do ano. Dotada de voz bem timbrada, firme e
segura, para além de notável sentido e poder de interpretação, esta menina
das Furnas, com uma orientação adequada à sua e à realidade do meio onde
vive, pode ir longe.
No que se refere à figura do ano, é coisa que também não requer grande
exercício mental. Alexa Melo, uma jovem luso-americana natural de
Dartmouth,
com 11 anos de idade, fruto da nossa comunidade, tem impressionado tudo e
todos com o seu talento de grande intérprete que é, para além de ser
possuidora de uma soberba voz. Tive oportunidade de constatar isso de cara a
cara e fiquei verdadeiramente sensibilizado e boquiaberto com tal talento.
Já ando na música desde os 10-11 anos de idade e ainda não encontrei talento
igual na arte de muito bem cantar e interpretar. Depois de ter vencido o
concurso "America's Most Talented Kids" e ter feito parte de outros
espectáculos sempre com grande sucesso, diga-se que o salto para Hollywood
não constituiu surpresa para nós. Um talento assim precisa apenas de ser
conhecido e a Alexa enveredou pelos trilhos certos e chegou às pessoas com
poder, é certo, mas que também sabem da poda. Os grandes produtores e
agentes da TV, do espectáculo e do cinema estão de olhos postos nela e vão
apostar nesta nossa menina. Toda a família teve de mudar-se de Dartmouth
para a Califórnia. É quanto a mim a artista do ano.
2005 foi ainda um ano muito positivo para outras figuras e grupos da
comunidade: Eratoxica, com um disco gravado em 2004 e a preparar o próximo,
é o conjunto do momento, pela qualidade das interpretações e no cuidado que
tem a preparar os espectáculos, para além do inegável valor individual de
cada elemento. Este quinteto, liderado por uma voz que considero ser das
melhores femininas que temos entre nós, Bethany, é uma referência da música
rock em língua portuguesa "made in America".
Dionísio da Costa, outro grande valor da nossa comunidade, gravou um
belo
disco de inspiração religiosa, quanto a mim o melhor álbum surgido este ano
por estas bandas, mas este disco é apenas um pequeno testemunho de uma das
suas facetas musicais, a religiosa, a par de outras: tem criado belas obras
no campo da canção didáctica infantil e na canção de intervenção social e
política. Ainda no que se refere à música litúrgica, o Dionísio é uma
referência de qualidade nos Açores e nas comunidades lusas dos EUA, sendo um
dos grandes impulsionadores do novo canto litúrgico em língua portuguesa que
a partir de certa altura foi criado nos Açores. Neste campo é autor de belas
e conhecidíssimas obras. Um percurso musical de praticamente quarenta anos
de grande valor e riqueza.
Este ano que agora findou foi também muito positivo para Catarina Avelar,
jovem luso-americana que tem dado um contributo notável à divulgação do fado
nestas e noutras paragens: no início do ano levou a música mais genuinamente
portuguesa a Albuquerque, cantando na Universidade de New Mexico. Nos Açores
já é uma figura bem conhecida e não foi por acaso que cantou nas celebrações
do Dia de Portugal em Angra do Heroísmo, Terceira, a convite de Laborinho
Lúcio, ministro da República. Adivinha-se um ano de 2006 pleno de coisas
boas para a apresentadora do Teledisco do Portuguese Channel. Portugal e
Brasil são novos destinos praticamente confirmados para a sua agenda.
Gerasons e Ilhas de Bruma são dois projectos de reconhecido
valor. No caso
dos primeiros, após algum tempo de ausência por motivo de doença de um dos
seus elementos, regressou aos palcos e as suas actuações têm pautado pela
qualidade, ou não fosse constituído por elementos que sabem disto... o mesmo
podendo dizer-se em relação ao grupo de Mário Ventura, Luís Carreiro, Victor
Nóbrega e restante companhia. O seu último disco com canções tradicionais de
Natal é sem dúvida um registo de qualidade, contribuindo para isso a boa
execução e interpretação dos seus elementos e razoável qualidade técnica.
Quero também aqui sublinhar alguns espectáculos dignos de realce à medida da
sua qualidade e dimensão: Dulce Pontes, Companhia Portuguesa de Bailado
Contemporâneo, o grupo coral de Ponta Delgada, Vox Cordis, Xutos e Pontapés,
Roberta Miranda, Frank Aguiar e Reynaldo Gianecchini (o "Toni" da
telenovela
"Esperança"), a opereta "Cravos d'Abril", de Victor Santos,
sendo ainda de
salientar o disco de temas regionais terceirenses de autoria deste activo
elemento da comunidade, "Alma Terceirense".
A cantiga de improviso ficou mais pobre sem António Medeiros, falecido em
Outubro, mas graças à acção divulgadora do professor José Brites, esta arte
popular continuará a ocupar espaço de destaque na comunidade.
Resta-nos agora adicionar algo que tinha esquecido a semana passada na longa
lista de eventos de 2005: José Augusto e Dinis Paiva
gravaram dois belos
discos. No primeiro tratou-se de um disco de duetos e no segundo, produzido
no Canadá por Hernâni Raposo, um excelente trabalho. Nos dois casos posso
até afirmar com toda a certeza de que se trata dos melhores trabalhos
discográficos destes populares artistas.

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