Portuguese Times Eurico Mendes - EXPRESSAMENDES

 

Salvar uma vida

Emily Quinlan morreu dia 15 de Abril último. Tinha leucemia meilóide,
variante rara que afecta cerca de 500 pessoas por ano nos EUA.
Não conheci Emily, mas chocou-me a sua morte. A doença, sem explicação
aparente, foi diagnosticada em Novembro de 2004, contava ela 17 anos. Vivia em San
Diego e, esgotadas as esperanças locais de cura, deu entrada em Dezembro no
Children’s Hospital, de Boston.
Submetida a seis tratamentos de quimoterapia, sentiu-se curada e voltou a San
Diego, mas decorridos seis meses regressava a Boston. A doença voltara e os
médicos decidiram recorrer ao transplante de células estaminais da medula
óssea, TMO na sigla em português e T-cell na sigla em inglês. Trata-se do material
encontrado no interior dos ossos, também conhecido popularmente por tutano e
que tem por função produzir os glóbulos vermelhos.
A família de Emily é oriunda de Taunton, os bisavós vieram dos Açores e a
família esperava encontrar dador compatível entre a comunidade lusa de
Massachusetts. Foram realizadas duas sessões de recrutamento de dadores, a primeira das
quais dia 4 de Março no Taunton VFW. As pessoas corresponderam, 4.700 novos
dadores ficaram inscritos no National Marrow Donor Program (NMDP), mas não foi
possível salvar Emily.
Ainda assim, a família, tanto na Califórnia como em Massachusetts, decidiu
manter viva a memória de Emily, mantém um site na internet (www.emilysfight.org) e continua a promover o registo de dadores, lutando agora por outras vidas.
Já depois do falecimento da jovem realizaram-se sessões no Stonehill College e
no Florian Hall, de Rochester, no dia 5 de Maio. Os donativos revertem para o
Children’s Hospital e para um fundo de ajuda a pacientes carecidos de
transplante e que não tenham seguro médico.
A morte de Emily foi sentida por muita gente que agora se pergunta que talvez
pudesse ter ajudado. Foi, aliás, a questão que o meu camarada Fernando
Santos, do bissemanário Luso-Americano, de Newark, pôs a si próprio em 1992, durante
um movimento surgido na comunidade lusa de New Jersey para identificação de
dadores para submeter a transplante José Rodrigues, da Virginia.
Fernando foi um dos muitos portugueses que na altura deram amostras de
sangue, mas nenhum foi compatível com o jovem Rodrigues, que veio a falecer. As
amostras deram entrada no NMDP, onde são guardados numa base informática os
registos de 10 milhões de pessoas e a que se recorre sempre que um doente é proposto
para transplante de medula óssea.
Sabe-se lá porque desígnios, entre 10 milhões de dadores, o minhoto Fernando
Santos foi o único compatível com um indivíduo cuja identidade e nacionalidade
desconhece e do qual sabe apenas que conta 57 anos e sofre de leucemia.
Segundo Fernando, o processo de doação é confidencial e o dador e o paciente
só podem conhecer-se decorrido um ano e no caso de ambos estarem interessados.
Como voluntários, os dadores não têm obrigações legais e podem a qualquer
altura retirar-se do processo de transplante, mas perante a ideia de que uma vida
poderia depender dele, Fernando disponibilizou-se e, na primeira semana de
Abril, submeteu-se durante sete horas ao processo de recolha de células
estaminais no Hackensack University Hospital, em New Jersey.
Nos últimos anos, em vez da medula, os médicos vêm recorrendo ao transplante
de células estaminais e o processo de doação é muito mais simples.
A colheita é feita no sangue do dador por meio de um processo chamado
aférese, que significa separar ou retirar e que o dador se limita a tomar previamente
um medicamento que vai fazer aumentar as células estaminais no sangue.
O dador é ligado à máquina de aférese através de punção venosa em ambos os
braços. O sangue sai do corpo do dador por centrifugação através de uma das
agulhas, a máquina procede à separação das células estaminais do fluxo sanguíneo e
o sangue regressa ao corpo do dador pela outra ligação.
Fernando diz que é simples, indolor e, concluído o processo, o dador retoma
imediatamente a sua vida normal.
Existem ainda outras fontes de células: o sangue do cordão umbilical quando o
bebé nasce, mas que tem uma percentagem muito pequena de células e é
geralmente utilizado nos transplantes de crianças e as células-tronco dos embriões, as
mais ricas, onde têm origem todos os tecidos e órgãos. Mas a recolha implica
a destruição dos embriões, que a Igreja Católica considera equivalente ao
aborto e é proibida. Contudo, os médicos garantem que estas células podem curar
doenças até aqui incuráveis como a esclerose múltipla e Parkinson.
O uso da medula óssea no tratamento das anemias remonta a 1891, quando o
britânico Charles Edward Brown-Séquard começou a administrar medula por via oral
em pacientes. Hoje realizam-se anualmente milhares de transplantes em todo o
mundo, mas os resultados dependem do estágio da doença.
Se o leitor tem entre 18 e 60 anos, boa saúde e gostava de ser dador
voluntário, não faltam oportunidades. Ainda agora O Jornal, de Fall River, deu conta
da pequena Laureen Costa, de Somerset. Tem apenas três anos e meio, foi
submetida a quimoterapia para tratamento de um tumor cerebral maligno e sobreveio-lhe
agora leucemia.
Os médicos do Hasbro Children’s Hospital, de Providence, pensam que a
leucemia foi provocada pela quimoterapia e a esperança de cura está num transplante.
Por sua vez, o Luso-Americano deu conta de Fernando Gonçalves, 49 anos,
residente na área de Washington, DC, casado, com duas filhas e também aguardando um
transplante para tentar vencer uma leucemia.
Há um ano, Gonçalves participou numa campanha para ajudar um amigo com
leucemia, agora ele próprio sofre da assustadora doença e precisa de ajuda.
Cabe lembrar que um dos primeiros pacientes submetido ao transplante de
células estaminais foi o senador Paul Efthemios Tsongas, que se candidatou à
nomeação como candidato presidencial do Partido Democrático em 1992.
Filho de um imigrante grego dono de uma lavandaria a seco, Tsongas viveu
sempre em Lowell e, como escreveu um dos seus biógrafos, foi um dos raros
senadores de origem humilde que continuou a manter os amigos de infância.
Entrou na política pelo Conselho Municipal de Lowell, foi eleito para a
Câmara de Representantes em 1974 e concorreu quatro anos depois ao Senado. Era um
dos presidenciáveis do Partido Democrático quando anunciou, em 1983, que sofria
de cancro e não se recandidatava ao Senado. Por sinal, o seu sucessor no
Senado foi John Kerry, candidato à Casa Branca em 2004.
Tsongas passou a andar de hospital em hospital, foi submetido a um
transplante de medula e, em 1992,  anunciou inesperadamente a candidatura presidencial e
chegou a vencer Bill Clinton nas primeiras primárias partidárias, em New
Hampshire.
A saúde do presidente dos EUA não é questão privada e nessa altura todos os
jornais dos EUA editorializaram-se sobre o cancro de Tsongas questionando o
candidato sobre o que aconteceria se fosse eleito.
Tsongas respondia:
 “Aconteceria que teríamos um presidente que sofrera de cancro e que foi
submetido a radiação e quimoterapia para se tratar, mas isso não o impede de ser
um bom presidente.”
Em Portugal, as pessoas ainda têm medo de proferir a palavra cancro e os
americanos não são muito diferentes e os jornais adoptam o eufemismo de
“prolongada doença” quando se referem a vítimas de cancro.
O cancro de Tsongas ressurgiu e o seu estado complicou-se, vindo a falecer em
1998, vítima de pneumonia, doença que ocorre em cerca de 8 a 18% dos
pacientes submetidos a transplantes. Embora Clinton tenha sido um excelente
presidente, estou convencido de que Tsongas teria sido melhor por variadas razões, a c
omeçar pelo facto de ser filho de um imigrante.
Se Tsongas tivesse chegado à Casa Branca os EUA teriam talvez resolvido o
problema do plano nacional de saúde e o povo americano viveria sem dúvida melhor,
pois apercebeu-se de que a sobrevivência da galinha dos ovos de ouro
americana está comprometida.
Numa das últimas intervenções públicas, Tsongas alertou para o problema: “Nos
últimos 35 anos, uns quantos americanos têm-se preocupado apenas a repartir
os ovos de ouro da galinha, mas agora é preciso tratar da saúde da galinha.”

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Kennedy Family by Gant
A empresa portuguesa Delveste, de Famalicão, representa nos PALOP a marca
americana de roupa masculina Gant e investiu 1,6 milhões de euros numa campanha
de publicidade em Portugal baseada em fotografias de  Robert Kennedy Júnior,
procurando tirar partido da ligação da marca ao iatismo e de Kennedy ao mar como
presidente da ecológica Waterkeeper Alliance. Trata-se de um dos onze filhos
de Ethel e Robert Kennedy, um dos raros Kennedy que não parece interessado em
protagonismo político, o que no caso dele se compreende se lembrarmos que o
pai foi assassinado em 1968, quando concorria à Casa Branca. Quanto à Delveste,
desde 1991 que confecciona camisas e camisolas Gant na sua fábrica Ricon, mas
agora tem também a licença de comercialização nos países de língua portuguesa
e abre dentro de três meses a primeira loja no Brasil, em Curitiba. Iniciada
pela Phillips-Van Heusen Corp., fabricante da Izod e outras confecções, a Gant
foi vendida em 1999, por 71 mi-lhões de dólares, à sueca Pyramid Partners. Por
assim dizer já só é americana no nome, pois agora até os jeans e t-shirts são
feitas na China.

O maior paquete do mundo
Largou de Inglaterra e atravessa nesta altura o Atlântico a caminho da
América e só voltará à Europa dentro de três anos, escalando nessa altura o Funchal.
Na sua viagem inaugural, navega rumo a New York, onde será baptizado e
receberá o nome de Freedom of the Seas. Custou 730 milhões de dólares e veio
aumentar para 19 navios a frota da Royal Caribbean. Ficará fundeado em Miami e fará
cruzeiros nas Caraíbas, realizando o primeiro a 4 de Julho. No interior do
navio estende-se uma rua de 140 metros, a Royal Prome-nade, com lojas, bares e
muita animação dia e noite. Tem a maior sala de jantar flutuante, com 2.100
lugares, um teatro de 1.350 lugares e uma pista de gelo. Casino, parque aquático
com quedas de água e corrente marítima para a prática de surf são algumas das
atracções. O Freedom of the Seas é uma cidade flutuante. Tem capacidade para
4.375 passa-geiros servidos por 1.360 tripulantes, entre os quais muitos
portugueses e alguns com funções de chefia. O director técnico do teatro é Luís
Antunes, cabendo-lhe a montagem técnica dos espectáculos. João Mendonça é director
de comi-das e bebidas e responde pelos comes e bebes dos restau-rantes e bares.
Por sua vez, Renato Reis é director de grupos e considera que o Freedom of
the Seas devia ser um exemplo para as Nações Unidas, tem tripulantes de 50
diferentes nacionalidades e todos se entendem.

Memória do Titanic
A última sobrevivente americana do naufrágio do Titanic, Lillian Gerstrud
Asplund, morreu no passado dia 7 de Maio, aos 99 anos de idade, na sua casa em
Worcester, MA. Tinha cinco anos de idade quando o navio naufragou no Atlântico
depois de chocar contra um iceberg e era a última sobrevi-vente que ainda tinha
lembrança da tragédia. Asplund voltava da Suécia para casa, nos EUA, com os
pais e quatro irmãos, quando o navio, que seguia de Southampton, na Inglaterra,
para New York, naufragou.  Asplund perdeu o pai e três irmãos, inclusivé uma
gémea, mas a mãe, Selma, e um outro irmão de três anos de idade sobreviveram
com ela. Deu poucas entrevistas sobre o que aconteceu naquela noite de 14 para
15 de Abril de 1912, mas a mãe contou ao jornal Worcester Telegram & Gazette
como ela e os filhos sobrevi-veram. Lillian Asplund nunca casou, trabalhou como
secre-tária, mas reformou-se cedo para cuidar da mãe. As derra-deiras
sobreviventes do Titanic são duas mulheres que vivem em Inglaterra, mas tinham meses
de idade quando o barco naufragou e não se lembram de nada. O último
sobrevivente homem, Michael Navratil, morreu em Janeiro de 2001, em França, aos 92 anos
de idade. Tinha três anos de idade quando do naufrágio. Ele e o irmão de dois
anos foram colo-cados num bote salva-vidas pelo pai e resgatados por outro
barco, mas o pai morreu. As crianças viajavam com nome falso, pois o pai trazia
os meninos para New York sem autori-zação da mãe deles, de quem se tinha
separado. Os dois irmãos ficaram conhecidos como “os orfãos do Titanic”, pois
ninguém sabia o verdadeiro nome, mas a mãe leu uma reportagem num jornal francês e
veio resgatar os filhos aos EUA. Morreram no naufrágio 1.503 passageiros e
tripulantes, entre os quais quatro portugueses naturais da Madeira.

Hino americano em espanhol
A versão em espanhol do The Star-Spangled Banner, intitulada Nuestro Himno, é
lançada no próximo dia 16 de Maio nas comunidades latino-americanas dos EUA.
A letra é diferente, mas a canção segue a melodia original do Star-Spangled
Banner, inicialmente uma canção cantada nos bares americanos, com estrofes de
Francis Scott Key alusivas à guerra entre os EUA e Inglaterra, em 1812. O
idealizador da versão espanhola é o produtor britânico Adam Kidron, residente há 16
anos nos EUA e que convidou artistas populares como a mexicana Gloria Trevi e
os porto-riquenhos Ivy Queen e Tito El Bambino para participarem na gravação
que está incluída num álbum intitulado Somos Americanos, que será vendido a 10
dólares, dos quais um dólar reverterá para organizações de direitos de
imigrantes. Talvez por isso, a canção gerou polémica, que não é inédita. Em 1969,
Jimi Hendrix interpretou no Festival de Woodstock uma versão do Star-Spangled
Banner, em que reproduzia com a sua guitarra um som similar ao de um tiroteio ou
um bombardeio e que foi considerada uma crítica à Guerra do Vietname. Desta
vez é a Guerra do Iraque e, sobretudo, a legalização de 12 milhões de ilegais.
As reacções não tardaram e o presidente George Bush disse não estar de acordo
com a tradução do hino nacional, acrescentando “quem quiser ser cidadão deste
país deve cantar o hino em inglês.” Já a secretária de Estado Condo-leeza Rice
não se mostrou ofendida e acrescentou ter já ouvi-do versões do hino em rap,
country e clássicas. O mais bizarro é que em 1919 o próprio Bureau of Education
dos EUA enco-mendou uma versão do hino nacional em espanhol e, além desta,
existem na Biblioteca do Congresso, em Washington, versões em muitas outras
línguas, nomeadamente português.

Reticências...
- É uma pobre decisão política, e aplica-se tanto aos EUA como a Portugal, os
governantes reduzirem o orçamento das escolas. Mais tarde acabam gastando
muito mais dinheiro em prisões e reformatórios...

- Um cientista conseguiu recentemente cruzar um pombo correio com uma
pica-pau e o resultado foi surpreendente: a ave não só leva as mensagens, mas bate à
porta do destinatário...

- É tempo de respeitarmos mais as vacas, a verdade é que até hoje nenhum
cientista conseguiu transformar a relva em leite...

- A ciência ensina-nos como navegar pelo Polo Norte ou voar até à Lua, mas
para atravessar a rua estamos entregues a nós próprios...

• Ferreira Moreno



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