CARTA DA CALIFÓRNIA

 
Eduardo Mayone Dias

 

As Invasões francesas


Quando Napoleão Bonaparte subiu ao poder pelos fins do século XVIII
agravaram-se as relações entra a França e a Inglaterra.  Esta declarou em 1806 um
bloqueio à navegação francesa e, como resposta, Napoleão, pouco depois, anunciou
que consideraria inimigos todos os países que negociassem com a Inglaterra.
Portugal dependia fortemente do comércio britânico e só em parte acedeu às
exigências do imperador.

Napoleão decidiu a esse ponto invadir Portugal. Assim, começou a reunir um
corpo de exército de uns 25 000 soldados de infantaria e de 3 000 a 5 000 de
cavalaria, sob o comando do General Junot. A esses juntaram-se espanhóis, 8 000
de infantaria e 3 000 de cavalaria, que entrariam em Portugal pelo Minho, pelo
Alentejo e pelo Algarve. (1)

Os franceses, por sua vez, a 21 de Novembro de 1807, irromperam pela Beira
Baixa, onde a defesa seria mais ténue, já que não existia qualquer forte entre
Almeida e Marvão. Em Espanha havia sido impossível encontrar víveres
suficientes para alimentar este exército e ao entrar em Portugal os famintos soldados
napoleónicos saquearam toda a região entre Salvaterra do Extremo e Castelo
Branco.   Avançaram depois até Abrantes, onde Junot viria a estabelecer o seu
quartel-general. (2)

Um contingente comandado pelo general  chegou a Sacavém, nos arredores de
Lisboa, a 29 de Novembro, uns 1 500 homens esfomeados, de uniformes esfarrapados,
botas quase desfeitas e exaustos por marchas forçadas desde Abrantes, sob um i
nclemente temporal, aos quais  se juntaram tropas mais frescas, vindas de
Santarém e Torres Novas. Em Sacavém Junot é recebido por uma delegação da
Maçonaria, que em nome da junta governativa do país, lhe presta homenagem e lhe
oferece um banquete.  Um dos seus planos mais ambiciosos havia-se contudo frustrado.

Tratava-se de aprisionar a família real portuguesa e, para criar uma
aparência de legalidade, manter o príncipe regente (3) sob o seu controlo. Entretanto,
todavia, a  Corte e uma numerosa comitiva tinham embarcado numa esquadra com
destino ao Brasil.

No dia seguinte, 30 de Novembro, Junot, escoltado por cavalaria portuguesa,
entra na capital, sendo-lhe prestadas honras militares por um regimento de
infantaria. Nem um tiro sequer  perturbara a sua conquista de Lisboa. O General
instala-se no palacete do Barão de Quintela, o homem mais rico de Portugal. Os
seus oficiais alojam-se em casas nobres, onde se comportam como verdadeiros
senhores. Os soldados vão-se acomodando por diversos conventos.

Junot lançou uma política de conciliação, tentando fazer crer por meio de
proclamações que as suas tropas representavam uma força aliada, trazendo uma
mensagem de paz, e não de ocupação. No entanto os factos desmentiam-no
gritantemente e os episódios de abuso de autoridade avolumaram-se. Assim, o General
proibiu aos portugueses a posse de armas de fogo  e impôs a aceitação de moeda
francesa ou espanhola. Ordenou além disso que todas as alfaias de ouro ou prata
das igrejas e capelas da capital, com a excepção das de prata necessárias ao
culto, fossem entregues à Casa da Moeda.

Contrastando com a subserviência das classes altas, o povo de Lisboa mostrou
com todo o vigor o seu repúdio à invasão. Pasquins em que se aludia
ironicamente a “el-rei Junot” encheram as paredes. A presença dos soldados franceses
pelas ruas da capital causava tensão e conflitos. Um dos mais violentos ocorreu
logo em Dezembro de 1807 quando foi ordenado  que se arreasse a bandeira
portuguesa no Castelo de S. Jorge e em vez dela se içasse a francesa. Durante
vários dias tiveram lugar motins, que provocaram violentas represálias. Também no
ano seguinte se registaram conflitos entre populares e franceses nas ruas da
Mouraria e do Socorro.

Em Agosto de 1808 desembarca perto da foz do Mondego uma expedição inglesa,
comandada pelo General Arthur Wellesley, depois Duque de Wellington. À sua
marcha para o Sul juntam-se forças portuguesas. O primeiro combate entre o
exército anglo-luso e os invasores tem lugar em Roliça, perto de Óbidos, onde 4 000
franceses são desbaratados. Dias depois, em Vimeiro, cerca de Torres Vedras,
trava-se uma batalha que termina com uma luta corpo-a-corpo, à baioneta.  Aí
também os franceses são derrotados, deixando 1 400 mortos no campo, enquanto que
os aliados perdem 850.

A invasão francesa desmoronava-se. Durante esse verão todo o país se agitava
contra Junot e no Porto as tropas espanholas de ocupação também se revoltaram
e regressaram à Galiza. A 30 de Agosto firmou-se a Convenção de Sintra, em que
os inglese se mostraram excessivamente generosos para com os vencidos. Deste
modo, a estes foi permitido partir com cavalos, armas e munições, em parte
tomados ao Exército Português, assim como bagagens e o produto das suas
pilhagens. Seria impossível estimar o valor dos móveis, quadros, livros raros, objectos
preciosos e alfaias religiosas roubados em igrejas, palácios e moradias.
Napoleão não se conforma com este desaire. Em Fevereiro de 1809 começa a
organizar-se um corpo de exército comandado pelo General Soult e composto por 30 000
soldados de infantaria e 3 000 de cavalaria, com o fim de invadir Portugal a
partir da Galiza, o que tem lugar a 27 de Março. Para se opor a esta força
Portugal contava apenas no Norte com 2 800 soldados de linha de infantaria e 60 de
cavalaria, secundados por 4 000 a 5 000 homens das ordenanças. Eram estas
milícias formadas por camponeses armados com espingardas caçadeiras, chuços,
manguais e foices roçadoiras, uma tropa inexperiente e indisciplinada. (4)

A ocupação do Minho e do Douro Litoral foi levada a cabo sem séria
resistência portugusa mas todavia marcada por um trágico acidente. Na iminência da
entrada dos franceses no Porto uma grande multidão espavorida fugiu em direcção de
Vila Nova de Gaia por uma ponte de barcas sobre o Rio Douro. A ponte cedeu ao
peso e centenas de pessoas foram arrastadas pela corrente.

Uma força inglesa chega ao Norte em Maio e obriga Soult a reentrar em
Espanha. A cidade do Porto havia sido saqueada pelas tropas francesas e depredações
tiveram lugar por todo o Norte. A este respeito escrevia a Gazeta de Lisboa a
22 de Maio de 1809: Cometem horrores inauditos por onde passam; queimam casas e
até povoações; talam os campos; cortam as árvores; mas em paga os paisanos
armados os ferem de morte onde os encontram que é a todo o instante e em grande
número.

No ano seguinte registou-se uma terceira invasão, desta vez comandada pelo
experiente General Massena. Os invasores contavam com 66 000 a 68 000 homens,
apoiados por muita artilharia. Tal como Junot o fizera, a via de penetração
iniciou-se na Beira. Esperava-se que o Vale do Mondego, apesar das serranias que
haveria de cruzar, oferecesse um relativamente fácil acesso à capital. Perto do
Buçaco encontrariam a estrada Porto-Lisboa.
O General Wellesley mostrava-se no entanto cauteloso, permitindo que Masena o
cupasse Viseu e Coimbra, cidade esta em que por três dias ocorreram incêndios,
roubos e morticínios. A 27 de Setembro de 1810, contudo, os franceses
chegaram à serra do Buçaco, onde se encontraram com uma força constituída segundo
algumas estimativas por 25 000 ingleses e igual número de portugueses. Os
franceses seriam cerca de 65 000. A batalha foi violentíssima, com cinco ataquee
consecutivos das tropas napoleónicas mas o exército anglo-luso resistiu a todos os
embates e forçou o inimigo a retirar. Calcula-se que as baixas, entre mortos
e feridos graves, houvessem sido umas 4 500 por parte dos franceses e 1 250 do
lado dos defensores.

Massena prosseguiu todavia o seu avanço rumo a Lisboa. Ocupou Leiria, cujo
Paço Episcopal foi saqueado, e chegou a Rio Maior. Aí dividiu as suas forças em
duas colunas, uma avançando por Santarém e outra por Alenquer. A primeira
ocupou Vila Franca de Xira, onde se registaram pilhagens, (5) mas aí deteve-se ao
encontrar o extremo das chamadas linhas de Torres.

Esta estrutura defensiva da capital compunha-se de três linhas. A frontal 
partia de Alhandra, na margem direita do Tejo, e passando por Torres Vedras
chegava até ao Atlântico. A segunda iniciava-se em Alverca, ao sul de Alhandra,
corria por Mafra e terminava um pouco ao norte da praia da Ericeira. Cercando
Lisboa dispunha-se a terceira linha de fortificações, que terminava em Oeiras,
onde, se necessário, se poderia efectuar uma retirada das tropas inglesas.

O General Massena havia-se sem dúvida dado conta de que cada vez se tornava
mais problemática a tomada de Lisboa, objectivo primordial da sua incursão pelo
país. Wellesley continuava a sua táctica de uma guerra de desgaste, sem
contra-ofensivas. Assim, entre Novembro de 1810 e Fevereiro de 1811 a situação
manteve-se estacionária.

Devido à falta de víveres, muitos militares franceses haviam desertado e
levado a cabo operações de guerrilha. Cerca de 1 000 actuavam nas zonas da Nazaré,
Alcobaça e Caldas da Rainha, roubando para comer, devorando até cães e
burros. Muitos soldados adoeceram durante o inverno e não se encontravam
medicamentos para os tratar. Também não se podiam renovar as fardas e o calçado que se
deterioravam. As rações de pão estavam reduzidas a um quarto.
Inicia-se então a retirada. Feridos e doentes são abandonados nos hospitais
ou à beira dos caminhos. Entretanto, na aproximação da passagem em direcção à
Beira, os camponeses praticam uma estratégia de terra queimada, ocultando
cereais, fruta, gado ou qualquer outro produto de que os franceses se pudessem
apropriar. Os soldados marcham em desordem, abandonando armas, equipamento e
objectos roubados. A retaguarda da coluna é flagelada pela cavalaria anglo-lusa.
A 17 de Março os últimos soldados deixavam Portugal. Uns 25 000 dos seus
camaradas tinham sido mortos ou capturados. Na realidade os franceses haviam sido
vencidos tanto pelas armas como pela fome.
O fim do domínio francês provocou um vácuo político, em parte preenchido pela
intervenção das autoridades militares inglesas nos negócios públicos. Ficavam
sem resposta os pedidos enviados de Lisboa ao Rio de Janeiro para que a
família real regressasse. Teria de vir a revolução liberal de 1820 para que a
situação se começasse a normalizar.

NOTAS
(1) O Tratado de Fontainebleu, de 27 de Outubro de 1807, havia estabelecido a
partilha de Portugal entre a Espanha e a França.
(2) O facto explica o dito português “Tudo como dantes, quartel-general em
Abrantes”, significando que não há qualquer novidade. (Junot assumiria depois o
título de Duque de Abrantes.)
(3) O futuro D. João VI havia assumido a regência em 1799, dado que desde
1792 a rainha D. Maria I dava indícios de alienação mental.
(4) A invasão comandada por Soult está magnificamente documentada no romance
de 1863 O Sargento-Mor de Vilar, de Arnaldo Gama. Ainda que obra de ficção,
assenta numa sólida base histórica e descreve em pormenor a actuação da
ordenança do Couto de Vilar, perto de Barcelos, nesta obra comandada pelo
protagonista. Para ilustrar a impreparação desta tropa, o autor refere que no post
o de Salamonde toda a ordenança debandou em pânico, sem disparar um tiro e
aos gritos de “Vêm aí os cães que comem gente!”, ao ver aproximar-se uma
companhia de caçadores franceses precedida por quatro cães de fila.
(5) Os contínuos roubos praticados tiveram o seu reflexo no coloquialismo
português.  “Isto não é roupa de franceses”significa isto não é qualquer coisa a
que se possa impunemente deitar mão. “Ir para o Maneta” quer dizer
perder-se, desaparecer, estragar-se. O Maneta era o General Loison, conhecido pela sua
crueldade, que havia perdido um braço numa batalha.

eduardomdias@sbcglobal.net



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