FÓRUM MADEIRENSE
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O Aclamado Tenor Madeirense Lomelino Silva (1892-1967)
Breves notas sobre o “Caruso Português”
Para muitos o nome de Lomelino Silva nada diz. Poucos sabem quem foi e a
importância que teve no panorama cultural regional, nacional e internacional.
Descobrimos este esquecido artista lírico, por acaso, há seis anos atrás quando
nos encontrávamos na cidade de New Bedford a efectuar pesquisas nos antigos
jornais portugueses de modo a recolher dados para a elaboração de uma tese de
mestrado sobre a presença madeirense nesta região.
Com efeito, o tenor madeirense efectuou ali dois concertos, o primeiro a 10
de Outubro de 1927, no New Bedford Hotel, tendo assistido ao mesmo diversas
individualidades, entre as quais se encontrava o Prof. Delabarre, da Brown
University, que ficou famoso por ter decifrado as inscrições da famosa (e
polémica)
Pedra de Dighton. O segundo concerto deste prestigiado tenor madeirense nesta
cidade ocorreu a 29 de Abril de 1928, no auditório da New Bedford High School,
para gáudio dos nossos emigrantes ali radicados. A crítica a este segundo
concerto, publicada no Diário de Notícias daquela cidade, foi deveras eloquente
e
não deixava lugar a dúvidas: «O público, que não se cansava de o aplaudir,
obrigou Lomelino a cantar, como bis, o ‘Fado dos Passarinhos’, o ‘Fado das
Romarias’ e a ‘Mãesinha’, de Sarti, a sua melhor criação. Na verdade Lomelino é
sublime nesta canção, nela ele evoca a saudade pela sua mãe querida, que deixou
na Madeira e cuja fotografia sempre o acompanha. Ele comoveu o auditório e em
muitas faces vimos deslizarem sentidas lágrimas que certamente exprimiam a
saudade por entes queridos deixados no nosso torrão natal.» Estamos em crer que
este segundo concerto do tenor madeirense em New Bedford teve menos afluência
do que o primeiro na medida em que estava então em curso nesta cidade a famosa
Greve de 1928, que paralisou grande parte do tecido industrial, e deixou
inúmeras famílias a braços com muitas dificuldades económicas.
A partir da descoberta destes dados surpreendentes acerca deste grande
artista passámos a dedicar uma especial atenção a este ilustre patrício que
levou o
nome da Madeira ao mundo muitas décadas antes do surgimento do Max, e
partilhei o meu entusiasmo com algumas pessoas ligadas à área cultural insular
que me
incentivaram a continuar as pesquisas sobre este aclamado tenor.
Quem foi Lomelino Silva? Filho de Guilherme Augusto da Silva e de Helena
Lomelino da Silva, Nuno Estêvão Lomelino da Silva nasceu na Rua das Maravilhas,
na
freguesia de São Pedro, a 26 de Dezembro de 1892, e ali viveu a sua infância
e juventude. Um dia foi descoberto numa actuação no Teatro Municipal e algum
tempo depois, por recomendação de alguns connoisseurs musicais locais, que
descobriram nele excelentes dotes vocais, foi enviado para Itália com o intuito
de
estudar canto lírico com dois grandes mestres do bel canto de então: Giovanni
Laura e Ercole Pizzi. A sua estreia como tenor naquele país transalpino
decorreu em Janeiro de 1921, e marcaria o início de uma carreira ímpar que
ficaria
marcada por várias digressões internacionais, onde actuaria nos melhores
teatros líricos de vários países e onde o sucesso o aguardava.
No auge da sua carreira artística Lomelino Silva teve o privilégio de ser
convidado pela His Master’s Voice, prestigiada editora musical, para gravar
alguns discos em Inglaterra, em Junho de 1926. Das gravações originais da HMV
foram
feitas outras séries para serem distribuídas em Espanha, em Portugal e
territórios ultramarinos e uma outra pela empresa discográfica norte-americana
Victor Talking Machine Co., para a sua distribuição nos Estados Unidos e no
Brasil.
A este madeirense cabe, efectivamente, a honra de ter sido o primeiro a
gravar discos e a tê-los distribuidos a nível mundial.
Numa das suas actuações nos Estados Unidos este artista foi apelidado de
“Caruso Português” e o epíteto ficou para sempre associado a este insigne
madeirense. No entanto, ao contrário de Enrico Caruso, cuja cidade natal nunca o
acarinhou, a voz de Lomelino Silva encantou todos os conterrâneos seus
contemporâneos. A imprensa funchalense acompanhava a sua carreira, publicando
notícias que
vinham de longe e, aquando das suas apresentações no Funchal, o público
esgotava a lotação do teatro e os jornais locais (Diário de Notícias, Diário da
Madeira, Trabalho e União, Correio da Madeira, O Jornal e outros) apresentavam
longas críticas positivas ao seu desempenho, muitas delas merecendo largo
destaque, a duas colunas, nas primeiras páginas. Resumindo, Lomelino Silva, nos
anos
20 e 30, era o orgulho da Madeira.
Entre 1921 e 1933 Lomelino Silva promoveu doze apresentações no Teatro
Municipal do Funchal, que sempre teve na sua audiência o melhor escol da
sociedade
madeirense de então, que vibrava delirantemente com as suas actuações e com o
raro privilégio de escutarem um filho da terra que se tinha transformado num
tenor de renome mundial. Nos seus recitais líricos apresentava sempre uma
variedade de temas, indo dos trechos de ópera às canções portuguesas,
napolitanas,
ou até espanholas, visto que ele tinha uma enorme facilidade em cantar em
várias línguas.
Numa das apresentações no então Teatro Manuel de Arriaga (hoje Baltazar
Dias), em Agosto de 1925, foi descerrada uma placa em sua honra, numa iniciativa
do
Club Sport Marítimo, e que ainda permanece numa das paredes do átrio do
Teatro Municipal. Muitas décadas depois, aquando do assinalar do primeiro
centenário do seu nascimento foi colocada uma placa no prédio da Rua das
Maravilhas
onde nasceu este insigne madeirense. No entanto pouco mais foi feito para trazer
para a actualidade o nome deste nosso patrício que um dia conquistou os
apaixonados do bel canto. No entanto, muito mais que isso resta-nos aguardar,
pacientemente, pela edição em cd das gravações históricas de Lomelino Silva,
detidas
por uma editora discográfica regional que vem anunciando este projecto no seu
sítio da Internet há já vários anos e protelando a sua efectiva concretização.
O nosso interesse pelo percurso artístico deste consagrado artista
madeirense, que faleceu há 40 anos, levou-nos a efectuar uma pesquisa exaustiva
sobre os
anos dourados da sua carreira ímpar no mundo do canto lírico, a convite do
Prof. Manuel Morais, da Universidade de Évora, que está a coordenar a edição de
um livro sobre a história da música na Madeira para o Funchal 500 Anos e que
será publicado oportunamente. Para além disso gostaríamos de um dia redigir a
sua biografia de modo a apresentar à actual geração o percurso de um grande
artista que um dia foi o orgulho desta terra e que hoje se encontra esquecido.
Neste âmbito gostaríamos de deixar um apelo aos nossos leitores no sentido de
que se porventura tiverem alguns documentos sobre este tenor nos seus arquivos
pessoais, por exemplo, folhetos anunciando as suas actuações em diferentes
cidades norte-americanas, ou até mesmo alguns dos antigos discos de 78 rotações
gravados por ele em 1926, quer da His Master’s Voice, quer da Victor Talking
Machine Co. e que os queiram vender, gostaríamos de adquiri-los. Para isso
poderiam contactar-me para o meu endereço electrónico:
duarte_barcelos@portugalmail.pt
ou para o meu telefone (351) 965347219.
Lomelino Silva passou o final da década de 20 nos Estados Unidos e no início
da década de 30 deu início a uma tournée mundial. Tendo passado imenso tempo
na América, este tenor foi uma testemunha da difícil situação económica advinda
pela queda da Bolsa de Nova Iorque. Numa entrevista concedida ao Diário da
Madeira, a 28 de Fevereiro de 1933, o tenor foi convidado a tecer algumas
considerações sobre este assunto, que transcrevemos, na medida em que as mesmas
são
um importante testemunho de um madeirense sobre a Grande Depressão:
«-Quanto à situação económica da América?...
- Desoladora. A América atravessa, actualmente, uma crise sem igual. Há doze
milhões de pessoas sem trabalho, que se arrastam denodadamente na luta pelo
pão de cada dia. Tiritando de frio, elas enchem os bancos dos jardins e dos
parques, à procura do sol – que é a cobertura dos pobres – para aquecer e
acalentar o corpo. A maior parte das fábricas, que empregavam milhares e
milhares de
pessoas encontram-se num estado, digamos, pitoresco: erva crescida pelos
pátios e entradas, ferrugem nas portas, paredes deslavadas, dando a nota
desoladora
do aniquilamento. O povo, que outrora era raro andar em trajos andrajosos
pelas ruas, hoje, principalmente em New York, percorre as cidades num estado
deplorável. Debaixo de chuvas torrenciais, eles – os pobres – aguardam o abrigo
dumas poucas de horas para durante a noite. Acotovelam-se também, em bicha, à
porta das cozinhas económicas, horas e horas à espera das magras sopas que o
governo lhes oferece. Mas apesar de toda esta miséria, New York tem sempre o seu
movimento, o das classes milionárias, que esbanjam num à vontade
extraordinário.
- E essa situação miserável é tão acentuada em todos os Estados?
- Não, felizmente. Ela existe mais em evidência só nos grandes centros
industriais.
- Razão porque aqueles sem trabalho eram operários das fábricas…
- Sim, das fábricas que actualmente se encontram encerradas. Outros Estados
que, como a Califórnia, vivem muito especialmente dos seus produtos agrícolas,
não apresentam esse aspecto tão impressionante, porque a produção dos
necessitados tem na fruta – na fruta que ela pode obter sem lhes custar
absolutamente
nada – o seu principal alimento.
- Mas há excesso de produção?
- Não; há falta de procura. Os mercados estrangeiros, devido à crise que
atravessam, não importam a fruta que importavam normalmente.
- E gente da Madeira na Califórnia?
- Encontrei lá muitos madeirenses bem colocados. Destaco entre todos a figura
simpática do dr. Carlos Fernandes, a mão direita do Hospital Morton, de S.
Francisco.»
No auge da sua carreira de tenor lírico Lomelino Silva foi apelidado, na
América, de “Caruso Português” porque a sua voz era equiparada à do famoso tenor
italiano Enrico Caruso e no Brasil chamaram-no de “Rouxinol madeirense”. Se
este madeirense fosse vivo, a sua voz dourada, que encantou o mundo há 80 anos,
seria com certeza equiparada à dos mais prestigiados tenores da actualidade e
ao conjunto dos três magníficos tenores (Luciano Pavarotti, Plácido Domingo e
José Carreras) teria de se lhes juntar um quarto: Lomelino Silva.

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