CARTA DA CALIFÓRNIA

 
Eduardo Mayone Dias

 
Um Dia Há 33 Anos

Passavam vinte minutos das zero horas de 25 de Abril de 1974. Dos estúdios da
Rádio Renascença, em Lisboa, vai para o ar a canção “Grândola, Vila Morena”,
de Zeca Afonso. Por todo o País, em unidades militares, oficiais ligados ao
Movimento das Forças Armadas tinham os ouvidos colados a transistores,
esperando ansiosos esta senha, aviso de que podia vir para a rua a revolução que
haviam preparado. E logo nos quartéis se iniciam os febris últimos preparativos
para a arrancada.
Em Lisboa, pelas cinco da manhã, tudo se mantinha ainda calmo.  A essa hora
chega à portagem da auto-estrada do Norte, em Sacavém,  uma coluna da Escola
Prática de Cavalaria de Santarém composta por dez viaturas blindadas, duas
viaturas de transporte de pessoal, um jipe e duas ambulâncias. Estes veículos eram
precedidos por um automóvel civil de exploração, onde viajavam o capitão
Salgueiro Maia, comandante da coluna, e três outros oficiais.
Ao entrar no Campo Grande, esta força  cruza-se com viaturas da PSP. Minutos
depois, na Avenida Fontes Pereira de Melo, passa junto a um contingente da
Polícia de Choque. Tanto num caso como no outro, não se regista qualquer
tentativa de interferência por parte de elementos policiais.
Uma hora antes uma patrulha da Escola Prática de Administração Militar,
unidade que havia ocupado os estúdios da RTP, no Lumiar, observara elementos da PSP
rondando nas vizinhanças. Intimados a retirar-se, não acataram a ordem. Os
soldados fizeram então alguns disparos de G-3 para o ar e os agentes não
voltaram a ser vistos.
 A coluna da EPC atinge  assim sem incidentes, pelas 5.55 horas, o Terreiro
do Paço, onde se situavam vários Ministérios. Em numerosos relatos sobre os
acontecimentos ocorridos essa manhã não se encontra qualquer referência a uma
possível reacção pelo pessoal da esquadra da PSP situada na Rua do Arsenal, logo
à saída da praça
Só pelas 6.45 dessa madrugada é que o Ministro do Exército solicita ao
comando da GNR, no Quartel do Carmo, o envio de efectivos que atacassem a coluna da
EPC desde o lado oriental, enquanto Cavalaria 7, vinda da Calçada da Ajuda,
actuasse desde a Ribeira das Naus. Saem então do quartel do Cabeço de Bola doze
Land Rovers  que pelas 8.15 se detêm no Campo das Cebolas. O capitão Salgueiro
Maia dirige-se ao comandante da coluna da GNR e faz-lhe ver a disparidade do
potencial de fogo entre os dois oponentes. Os Land Rovers retiram-se.
Pelas nove da manhã a fragata Almirante Gago Coutinho toma posições frente ao
Terreiro do Paço esperando ordens para atacar as forças de terra. Ante esta
situação, o posto do comando do MFA, no quartel de Engenharia da Pontinha,
determina que uma bateria de obuses da Escola Prática de Artilharia, de Vendas
Novas, postada junto à estátua de Cristo-Rei, em Almada, afunde a fragata, caso
esta abra fogo sobre o Terreiro do Paço. Tal no entanto não acontece e às doze
horas o navio de guerra larga para o Mar da Palha.
Entretanto blindados vindos de Belém, acompanhados por uma companhia de
atiradores do Regimento de Infantaria 1, haviam chegado  à Rua do Arsenal. Cerca
das dez horas um tenente da EPC avança a pé por essa artéria com o fim de
negociar a situação com um brigadeiro e um coronel das forças governamentais. Não
chegam a acordo e o brigadeiro agride o tenente com três murros. Perante a
agressão, este apenas se perfila e faz uma impecável continência. Irado, o
brigadeiro ordena que se atire contra o tenente, no que não é obedecido pelos seus
subordinados.
Dentro do Ministério do Exército vários ministros e oficiais superiores,
vendo-se cercados pelos homens da EPC, conseguem passar por um buraco aberto na
parede para a biblioteca do Ministério da Marinha e daí para um parque de
estacionamento, sendo então escoltados até ao Regimento de Lanceiros 2, na Calçada
da Ajuda, onde se instalara o comando das tropas ainda fiéis ao Governo.
Às 10.15 o brigadeiro que comandava os carros de combate vindos de Belém
ordena a um alferes miliciano e a um cabo que abram fogo sobre  os insurgentes.
Ambos recusam, apontando o facto de que na praça se havia reunido aos soldados
uma multidão de civis. Então o brigadeiro  pretende fazê-lo ele mesmo mas
depois de olhar para o canhão desiste, com um sonoro brado de “Como é que funciona
esta m....?”.
Toda a Baixa fervilhava de entusiasmo. Populares subiam aos tanques,
aclamavam. Raparigas traziam comida e bebida aos militares, ofereciam-lhes cravos
vermelhos que eles colocavam nos canos das espingardas. Era óbvio que a revolução
estava vitoriosa e que o Governo se desmoronava.
Também por todo o país se movimentavam tropas ocupando pontos estratégicos e
dominando os débeis focos de apoio ao Governo.
Pelas cinco da manhã o Director-Geral da DGS, major Silva Pais, havia
telefonado ao Presidente do Conselho, Marcelo Caetano, avisando-o da gravidade da
situação e recomendando-lhe que, com a maior urgência,  se refugiasse no Quartel
do Carmo, já que “a GNR está fixe”.
Às 11.30 parte da coluna da EPC havia deixado o Terreiro do Paço e após uma
brevíssima confrontação no Rossio com forças de Infantaria 1, montara cerco ao
quartel. A GNR não se mostrou todavia tão solidamente “fixe” como Silva Pais
pensava, embora seja certo  certo que o comando da corporação resistiu —
passivamente — às intimações a uma rendição feitas ao megafone por Salgueiro Maia.
Às 15.10 o capitão havia dado aos sitiados dez minutos para se renderem. Face
ao silêncio destes, quinze minutos depois ordenou uma rajada de intimidação
feita desde uma chaimite sobre as janelas mais altas do quartel, seguida por
disparos de G-3 desde a varanda da Companhia de Seguros Império. localizada
também no Largo do Carmo, o que causou gritos e correrias no interior do quartel. 
Salgueiro Maia continua intimando a rendição. Pelas 16.30 começam a entrar e
sair emissários do MFA e busca-se uma solução airosa ao impasse. Caetano
insiste em que não quer que o poder “caia na rua” e só aceita renunciar ante um
oficial general. 
A partir das 12.45 das poucas unidades que ainda mantinham adesão ao Governo
haviam-se destacado forças que tentaram cercar os revoltosos. Assim, homens da
GNR tomaram posições no Largo da Misericórdia e na Rua Nova da Trindade, a
Polícia de Choque concentrou-se no Largo do Chiado e um contingente de Cavalaria
7, com  dois carros de combate, reuniu-se no Largo de Camões. No entanto
estes efectivos nunca tomaram qualquer iniciativa e acabaram por se afastar.
Por fim, pelas seis da tarde, a bordo de um Peugeot conduzido por um amigo
médico, o general Spínola chega ao Largo do Carmo e, frente ao entusiasmo dos
populares, só a muito custo se acerca à porta de armas do quartel. Entra com
outros oficiais e sem maiores dificuldades concretiza-se a transmissão de
poderes.
Salgueiro Maia pede ao povo que desocupe o Largo para que se possa proceder à
saída de Marcelo Caetano. Não é atendido e finalmente opta-se por formar um
cordão de soldados. Às sete da tarde o agora ex-Presidente do Conselho é metido
numa chaimite, que segue para o Quartel da Pontinha. Para lá vão também
Moreira Baptista, ministro do Interior, e o general Silva Cunha, ministro da
Defesa. Da Pontinha Caetano empreenderia no dia seguinte viagem para a Madeira e
depois para o Brasil. No voo para a Madeira seria acompanhado pelo Presidente
Américo Tomás, a quem pelas sete da manhã do dia 26 um tenente-coronel havia
pedido que o acompanhasse ao aeroporto da Portela.
A DGS, essa sim, mantinha-se firme. Alguns agentes  conseguiram impedir o
acesso de blindados à sede da corporação, bloqueando a Rua António Maria Cardoso
com carros eléctricos detidos no Largo do Chiado e na Rua Vítor Cordon. Nas
traseiras do edifício postou-se um camião do lixo.
A última operação da antiga PIDE haveria tido lugar a meio dessa tarde.
Tratava-se de fazer sair secretamente Marcelo Caetano por uma porta lateral do
Quartel do Carmo e, descendo pelo Elevador de Santa Justa, conduzi-lo até à Rua
Nova do Carmo, onde dois carros aí estacionados o levariam a Espanha. No
entanto, quando os agentes se lhe apresentaram, o Presidente do Conselho recusou
acompanhá-los, comunicando-lhes que a situação já havia sido solucionada.
Ao fim do dia foram feitos disparos desde uma janela da sede da DGS sobre a
multidão que se aglomerava em frente, os quais causaram quatro  mortos e 45
feridos. Foi virtualmente o único episódio de violência do dia. Em menos de 24
horas havia sido derrubado um regime.



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