FÓRUM MADEIRENSE
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O documentário “Festa”, de Joseph Sousa
A crónica da sua grande estreia no Estreito da Calheta
O filme deste realizador luso-descendente, no qual também cooperei como
co-produtor, estreou na Madeira no passado dia 22 de Abril, pelas 16:00, no
Centro
Cívico do Estreito da Calheta. Joseph Sousa fez questão que a sua primeira
apresentação pública na ilha se realizasse na freguesia de onde há mais de 90
anos partiram três dos quatros emigrantes que fundaram em 1915 a Festa do
Santíssimo Sacramento em New Bedford, a saber: Manuel Santana Duarte, Manuel
Agrela
Coutinho e Manuel Agrela.
Não é fácil escrever uma crónica na primeira pessoa mas vou tentar ser o mais
imparcial possível, na tentativa de elucidar os leitores do Portuguese Times
acerca dos acontecimentos daquele dia. Por motivos profissionais o Joseph
Sousa não pôde estar presente e delegou em mim a responsabilidade de promover a
estreia do seu filme. Contactei os principais jornais com o intuito de
anunciarem e promoverem este evento e notícias sobre o mesmo foram publicadas no
Jornal
da Madeira, nas edições de 16, 21 e 22 de Abril e no Diário de Notícias, na
sua edição do dia 20 do corrente mês. Concedi ainda uma entrevista de 20
minutos ao programa “Vida Nova” da Rádio Jornal da Madeira, no pretérito dia 20,
onde fui inquirido acerca da minha participação neste projecto e sobre o teor do
mesmo. Paralelamente a toda esta exposição mediática, contei ainda com a
colaboração do pároco do Estreito da Calheta, Pe. Rui de Sousa, que anunciou aos
seus paroquianos, no decorrer das missas, a realização deste evento na sua
freguesia.
Pelas 15 horas do dia 22 já se aglomeravam algumas dezenas de pessoas junto à
porta do Centro Cívico do Estreito da Calheta e à medida que o tempo decorria
muitas outras foram chegando, algumas de carro, outras a pé. Viam-se pessoas
idosas, pessoas de meia-idade, alguns jovens e crianças. As portas abriram às
15:40 e num ápice as cerca de 150 cadeiras disponíveis foram todas ocupadas, o
que levou a que muita gente tivesse que se aglomerar, de pé, ao fundo da
sala, junto às portas. Foi para mim uma grata surpresa verificar a forte adesão
das pessoas daquela freguesia à estreia deste filme. De entre os convidados de
honra para esta estreia contavam-se algumas personalidades, a saber, Gonçalo
Nuno Santos, Director do Centro das Comunidades Madeirenses, Vereador Aleixo, da
Câmara Municipal da Calheta e responsável pelo Centro Cívico, e o supracitado
Pe. Rui de Sousa.
De modo a apresentar o filme da maneira mais eficiente, decidi fazer uma
pequena apresentação em powerpoint onde fiz uma breve retrospectiva histórica da
Festa do Santíssimo Sacramento em New Bedford, mostrando algumas imagens e
recortes de jornais outrora publicados na cidade baleeira sobre esta festa, com
o
intuito de mostrar às pessoas ali presentes a evolução que esta solenidade
teve, na América, ao longo do século passado. A minha breve palestra foi seguida
com muita atenção por todos os presentes.
Imediatamente antes da exibição do filme procedi à leitura de um texto que o
Joseph Sousa fizera questão de redigir para ser apresentado a todas as pessoas
ali presentes, que transcrevo seguidamente:
«Em primeiro lugar gostaria de agradecer o apoio que me foi dado por duas
pessoas em particular aquando da minha vinda à Madeira em 2005: ao Frei Nélio
Mendonça, que me acolheu no Funchal, e ao Pe. Rui de Sousa que, desde o primeiro
minuto, se mostrou sempre cooperante para comigo. Gostaria ainda de agradecer
à Sra. Maria Aurora e à RTP Madeira. E por último e não menos importante
gostaria de deixar um agradecimento muito especial ao Funchal 500 Anos que ac
reditou no meu projecto e decidiu apoiá-lo financeiramente, ajudando assim a que
o
mesmo chegasse a bom porto.
É com grande humildade e gratidão que quero apresentar este filme às pessoas
da Madeira. Um desejo de saber mais acerca da minha própria herança madeirense
conduziu-me até este projecto e as descobertas que fiz ao longo da sua
produção acerca da rica cultura, espírito generoso, e forte adesão às tradições
do
povo madeirense realmente comoveram-me.
Foi uma surpresa, no entanto, descobrir também na Madeira uma próspera
cultura cosmopolita. A habilidade de manter a cultura e a tradição ao mesmo
tempo
que acolhe a modernidade é um testemunho da força do carácter madeirense e é
ainda uma qualidade que o resto do mundo poderia seguir.
Por favor considerem este filme como o meu humilde, imperfeito, mas sincero
tributo aos madeirenses que no presente ajudaram a edificar a bonita e vibrante
cultura da ilha e àqueles que no passado a deixaram indo para terras
distantes, que honraram com a sua rica cultura. A Festa do Santíssimo Sacramento
é um
testemunho dos laços que unem os madeirenses às suas comunidades emigrantes,
quer seja em New Bedford, na Venezuela, África do Sul, no Canadá, ou noutros
países que se orgulham de ter importantes comunidades madeirenses. Até eu, um
madeirense de 4.ª geração, fui ensinado a nunca esquecer a cultura dos meus
ascendentes e a ilha que embalou as suas tradições. Espero que este filme também
contribua para que os madeirenses residentes na ilha nunca se esqueçam dos
emigrantes. O nosso sentido de comunidade é a nossa maior força.
Muito obrigado e espero que gostem do filme.»
O filme foi visto com imensa atenção por todas pessoas presentes, que o
seguiam em silêncio, apenas interrompido com alguns breves comentários, alguns
sussurros, ou até pequenos risos quando surgia na imagem as pessoas
entrevistadas
pelo Joseph Sousa no Estreito da Calheta há dois anos atrás. Quando terminou a
exibição do filme fez-se ouvir em toda a sala uma enorme salva de palmas,
através da qual inferi que toda a gente tinha gostado de vê-lo.
Seguidamente dei a palavra ao Gonçalo Nuno Santos, que começou por apresentar
sumariamente a missão do Centro das Comunidades Madeirenses, falou acerca das
suas impressões da Festa do Santíssimo Sacramento em New Bedford, aonde já se
deslocou por várias vezes, e terminou com algumas referências elogiosas ao
meu trabalho no campo do estudo da emigração madeirense nos Estados Unidos que,
confesso, me apanharam de surpresa e comoveram. Antes de terminar o seu breve
discurso ele fez questão de pedir à audiência que me desse um forte aplauso,
solicitação de imediato correspondida pelos presentes. Depois foi a vez do
Vereador Aleixo proferir umas breves palavras, agradecendo-me por ter escolhido
o
Centro Cívico do Estreito da Calheta para fazer esta apresentação e dizendo-me
que aquele espaço estaria disponível para futuras iniciativas do género.
Por último terminei informando às pessoas ali presentes que voltaria ali em
Agosto, no decorrer da Festa do Santíssimo Sacramento, para exibir novamente o
documentário “Festa” de modo a partilhá-lo com muitos dos emigrantes que
todos os anos regressam ao Estreito da Calheta por altura das festas religiosas
para matar saudades da família e da terra que os viu nascer.
Enfim, foi uma tarde muito gratificante para mim devido à grande adesão e
satisfação das pessoas daquela freguesia. A pacatez do Estreito da Calheta foi
quebrada no passado dia 22 com a apresentação deste documentário que exalta o
espírito de tradição e união em torno de uma solenidade comum a ambas as margens
do “Rio Atlântico”, a Festa do Santíssimo Sacramento.

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