Quando será que termina o namoro que a América tem com as armas?



Diniz Borges

 



Na violência, esquecemo-nos quem somos
Mary McCarthy (1912-1989)
escritora e critica norte-americana

“Uma tragédia de proporções monumentais” foram as palavras escolhidas por
Charles Steger, reitor da Universidade Virgina Tech, para descrever o pior
massacre numa instituição de ensino na história dos EUA.
Mas será que foi de proporções suficientes para que finalmente se encare, com
alguma seriedade, o namoro que temos tido neste país com as armas.  É que
apesar das reacções desta tragédia serem similares às precedentes, no que
concerne à história dos últimos anos, particularmente, o massacre de Columbine, os
resultados têm sido nulos. 
Na contemporânea sociedade americana, há vários temas que definem o debate
político entre os liberais e os conservadores.
O controlo das armas de fogo, o direito à interrupção da gravidez, e os
casamentos entre pessoas do mesmo sexo são assuntos marcantes no debate de ideais
entre estas duas vertentes da esfera politico-partidária estadunidense. 
As armas de fogo, e a liberdade do cidadão comum de as possuir, tendem a ser
uma política enraizada mais nos estados do sul e centro do país, os quais têm,
como se sabe, a tendência para votarem pelo Partido Republicano. Mais, o
poder de influenciar políticos, o chamado lobby da Associação Nacional de Armas de
Fogo (National Rifle Association-NRA), é dos mais pujantes da nação. 
Recorde-se que John Kerry, considerado um dos políticos mais progressistas do Partido
Democrático, fez questão de ir caçar aos patos no estado de Ohio, poucas
semanas antes das eleições presidenciais e há quem afirme que a forte posição
assumida por Al Gore em 2007 para que o pais avançasse para uma política de
controle das armas de fogo, particularmente as semi-automáticas, havia-lhe custado
as eleições, perdendo, como se sabe muitos estados do sul americano. 
Aliás, muitos dos Democratas que ganharam as eleições legislativas em 2006
fizeram-no com credenciais conservadoras, incluindo o direito às armas de fogo. 
É já famoso o caso do assessor do senador Jim Webb, Democrata de Virgínia,
que foi detido no Capitólio por possuir uma arma pertencente ao próprio senador,
que é apologista de uma medida de cada cidadão possuir a sua própria arma de
fogo, uma espécie de mentalidade de far-west em pleno século XXI.  Só mesmo o
oximoro como um democrata/conservador, o mesmo que dizer um católico/ateu,
poderia pensar assim.
É frequente ouvir-se o movimento do NRA, e o seu fortíssimo lobby, invocarem
a segunda emenda à constituição, como a sua tábua de salvação, o intuito da
constituição de permitir que os cidadãos sejam portadores de toda a espécie de
armas. Apesar de saber que a provisão vem dos tempos em que era necessário
ter-se milícias armadas para combaterem as tentativas britânicas para readquirirem
as colónias americanas, é o argumento preferido por aqueles que acreditam que
uma sociedade armada até ao pescoço é uma sociedade em progresso e uma
sociedade a combater o crime. E nem mesmo os factos fazem com que este namoro com as
armas cesse. É que na realidade, aqui nos EUA cerca de 80 pessoas por dia
morrem vítimas de armas de fogo, a maioria por homicídio ou suicídio.  A
violência provocada pelas armas de fogo custa ao erário público, em programas de
saúde, mais de 2 biliões de dólares por ano.  Mas nada disto configura na
mentalidade (incluindo a de muitos políticos) de quem acredita que possuir uma
semi-automática é um direito fundamental, tal como a liberdade de expressão.
E de todos os estados da união, o estado da Virgínia, que até recentemente
era um bastião do Partido Republicano, tem as leis mais abertas no que concerne
à compra e possessão de armas. Imaginem só que há anos quando a legislatura
estadual passou um decreto-lei limitando as compras de uma arma por mês, os
conservadores e o NRA viram isso como uma restrição nas liberdades dos cidadãos. 
Mas quem é que precisa comprar mais do que uma arma por mês, aliás, quem é que
precisa comprar uma por mês? 
E não sejamos ingénuos, nada disto está relacionado com as pessoas que gostam
de ter uma arma para caçar.  Aliás, o Congresso, apesar da oposição de
praticamente todos os departamentos da polícia através do país, não deu continuidade
a uma lei que proibia, a nível federal, a compra de armas semi-automáticas,
que, como se sabe, são as armas preferidas pelos criminosos.
A tragédia na faculdade Virgínia Tech foi de “proporções monumentais”, e
requererá uma reflexão também monumental.  É que para além dos “pensamentos e das
orações” que o Presidente George W. Bush pediu, há que contemplar-se este
namoro com armas e com a violência. 
Há que questionar todas as políticas que apadrinham os negócios das armas de
fogo, sejam elas as que os cidadãos possam comprar, sejam as que a industria
militar fabrica para o estado.  Há que reflectir sobre a idiossincrasia de que
as armas de fogo fazem parte da identidade americana.

Califórnia, Abril de 2007



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