MEMORANDUM
|
“quando os melhores vencem
toda a gente ganha”
… o esvoaçar das palavras, a alegria esperançada no recomeço, a pressa
leviana de enterrar o passado sob o lajedo da indiferença do presente – são
alguns
dos ingredientes típicos do aroma tradicional das manifestações de fé na
herança do 25 de Abril. Os actos simbólicos de contrição democrática, que
detectamos
um pouco por todo o lado onde há ainda retalhos dum subsídio governamental a
agradecer, fazem lembrar o efeito ambívio da aspirina: declaração de guerra à
dor e paz à doença...
Vamos pela positiva. Os rumores políticos da mais generosa revolução do
último quartel do século XX continuam a ser ouvidos, embora cada vez mais em
surdina. Tinha de ser: a jornada da democracia portuguesa tem sido sinuosa,
salpicada de retrocessos pavorosos, e teimosias criadoras, e temores imaginários,
e
até protagonismos encomendados, alguns “tocados” pela contingência de não
entender que as enfermidades sócio-económicas da humanidade são eventualmente
tratáveis mas não curáveis...
Ainda por cima, há o doce queixume dos sonhadores revolucionários (ó Ceus...
não seria elegante falar em causa própria) — aqueles que foram empurrados para
a “valeta” revolucionária do seu tempo; e os outros que se deixaram
ensimesmar no martírio de não terem sido entendidos na legitima euforia
renovadora
(Baudelaire deixou-nos escrita a lembrança de que “há uma certa glória em não
ser
entendido...”).
Foi há trinta e três anos. A revolução chegou como uma lanterna frágil para
iluminar a longa escuridade cívica.
Muitos andam esquecidos de que a “crise santa” do petróleo (que agitou o
mundo industrializado na alvorada da década de 70), contribuiu indirectamente
para abreviar o fim do opus-dei marcelista. Todavia, a revolução aconteceu:
chegou fresca, sem apetite sanguinário, com as espingardas floridas, disfarçadas
em círios de paz, como que esquecidas das próprias balas e do seu parentesco
com a morte...
O aniversário da revolução chegou sorrateiramente para armar tenda nos sulcos
da nossa pele: revolução que aprendeu a caminhar pelo próprio pé, subindo as
ladeiras pedregosas do tempo, qual trilho sequioso em busca do mirante
apetecido da liberdade...
Perante a manifesta dificuldade em criar (reinventar? ) um mundo justo,
resta-nos ainda a tarefa de inaugurar uma comunidade da tolerância: “deixo-te o
meu
instante, o meu excesso / a força que investi no arremesso.”
Adiante. Uma revolução política não é um evento – é um processo em trânsito,
inacabado. O mesmo pode ser dito em relação à autonomia das regiões insulares.
Não me parece aconselhável que os elogios sensacionais cheguem prematuramente
ao destino do vedetismo político, herdeiro da revolução. Quem cuida da vida
colectiva com afinco, eficiência, talento, e daí obtém reconhecido sucesso –
recompensado está!
É por isso que me atrevo a comentar e a recomendar um conselho colegial aos
“herdeiros de Abril”: as vitórias da democracia não pertencem apenas àquelas
forças que, numa dada etapa do percurso eleitoral, conseguem armazenar maior
número de votos. A democracia é uma ferramenta de trabalho. Não é troféu para
glorificar o gladiador sobrevivente...
Vamos continuar a trabalhar em direcção ao interese colectivo, para que não
se morra, civicamente, à míngua do pão e da água do saber. Depois, se for caso
disso, então iremos comemorar o sucesso da democracia; mas o festival deveria
ser celebrado com horizontalidade cívica, ou seja, sem palanquins, sem
rituais “ave-ceasar — morituri te salutant”, nem guerrilhas protocolares de
precedência institucional...
Pensemos, irmãos! Gostaria de apresentar as homenagens da minha mais elevada
consideração aos nossos valorosos antepassados que morreram à beira da
esperança dos cravos de Abril.
Lembro-me vivamente do tempo em que a democracia ibérica ainda vivia à mingua
da prosperidade avassaladora do Novo Mundo. Como sabemos, no tempo que passa,
essa pseudo-majestade político-financeira está a ser evaporada, devido às
recentes e dramáticas mudanças climáticas da política internacional...
O nosso voto, caríssimos(as), é o de que ninguém se atreva a cuspir no rosto
confiante da mudança. Há sempre lugares vagos no carroussel da competência:
“quando os melhores vencem, toda a gente ganha”.
- 25 de Abril, sempre!
Rancho Mirage, California, Abril, 2007

Copyright © 1997/2001 The Portuguese Times
Autorizada a reprodução de artigos publicados nesta página desde que mencionada a origem