Repiques da Saudade
Ferreira Moreno
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A Festa dos Cornos
Antecedendo as modernas comemorações do 25 de Abril, celebrando a “Revolução
dos Cravos” de 1974 em Portugal, era já tradição muito antiga observar-se nas
ilhas, precisamente aos 25 de Abril, a Festa de S. Marcos, mais popularmente
conhecida por Festa dos Cornos.
Não existe correlação alguma entre o santo e os cornos, excepto que o dia da
festa litúrgica do mesmo ocorre anualmente aos 25 de Abril, e o símbolo ou
emblema do evangelista S. Marcos é o leão alado (com asas). O boi alado
representa S. Lucas, a águia S. João e o homem alado S. Mateus.
O coronel Francisco Afonso Chaves (1857-1926) descreveu uma analogia com
determinadas festas realizadas na Bélgica, onde se comemorava “um santo patrono
dos maridos a quem as mulheres não são fiéis”. (Arquivo dos Açores, Volume XIII,
páginas 191-194, ano 1920 e revista “Insulana”, volume XIV, primeiro
semestre, páginas 65-71, ano 1958).
O santo chamava-se Eternon ou Arnould. Numa peregrinação a Roma teria casado
com uma mulher tão formosa quão leviana, mas tudo sofreu com paciência e
resignação. A sua devoção foi tão exemplar que mais tarde foi canonizado, com
festa
litúrgica afixada aos 18 de Julho.
Nada encontrei àcerca do hipotético Eternon, a não ser que se trate do
histórico Santo Arnulf ou Arnoul, um nobre estadista casado com Doda, filha do
Conde
de Boulogne, pai de dois filhos (Clodulf e Ansegisel) e já viúvo, foi
aclamado bispo de Metz no ano 614. A sua festa ocorre aos 18 de Julho. (Butler’s
Lives of the Saints & The Oxford Dictionary of Saints). Na lista dos Santos
Protectores, o padre jesuíta José Leite aponta um Santo Arnulfo de Metz
“invocado em
casos de incêndios”. (Santos de Cada Dia, Volume III).
O artigo do Coronel Chaves, com a data de Outubro de 1905, explica a passagem
do patronato de Santo Eternon para S. Marcos da seguinte maneira:
“A cabra é entre os animais o que tem a reputação de ser mais inconstante nos
seus amores, e esta má reputação recaiu sobre a cabeça do bode, que ficou
sendo a representação do marido atraiçoado pela mulher. Sendo os cornos o mais
belo atributo do bode, deram por metáfora um par ao esposo da qual a mulher lhe
não é fiel.
Em Portugal Continental e nos Açores, não sei por que causa, não é a armação
do bode, mas sim a do boi o indicativo do marido atraiçoado. Os colonos
flamengos conhecedores das festas de Santo Eternon, encontrando-se nos Açores
com os
colonos portugueses entre os quais havia algarvios, com eles conviveram, e é
natural harmonizaram as suas festas, entre as quais a do patrono dos maridos
infelizes. Desconhecendo os portugueses Santo Eternon ou Santo Arnould, e
sabendo os algarvios que S. Marcos protege e amansa bois, naturalmente o
indicavam
para o novo patronato”.
Teófilo Braga (1843-1924), no segundo volume de “O Povo Português nos seus
Costumes, Crenças & Tradições” (página 198, edição 1986), numa referência ao dia
de S. Marcos em 25 de Abril, anotou esta curiosidade:
“Na freguesia de São Marcos da Serra (Algarve) os pais levam as crianças
travessas ao padroeiro da freguesia e batem-lhe com a cabeça no touro que está
aos
pés da imagem, dizendo: “Mé senhor San Marcos / Que amansais dois brabos /
Amansai-me este filho / Que é peor qu’a todolos diabos”.
A cada verso segue-se uma valente cabeçada, de sorte que a criança atordoada
fica mansa. Na freguesia de Penha de Águia há uma ermida com uma sepultura que
se diz também ser de um São Marcos. É de fé por ali, que tem a virtude de
amansar os rapazes bravos, que são deitados de costas por espaço de uma hora
sobre a sua sepultura”.
No seu livrinho “Costumes Açoreanos” (segunda edição, 1937), o professor
picoense Manuel Dionísio fez largas referências à irmandade, procissão e sermão
dos cornos. E Raúl Brandão (1867-1931), no livro “As Ilhas Desconhecidas”,
referiu-se à “extraordinária festa de S. Marcos, que se faz no dia 25 de Abril,
nas ilhas do Pico, Faial, Corvo e Flores”.
No testemunho do Coronel Chaves, “tempos houve na cidade da Horta que, no dia
de São Marcos, as freiras do convento da Glória mandavam aos membros da
colegiada da igreja matriz, antes da hora das ladainhas celebradas em tal dia,
uma
bandeja com uma coroa formada por pequenos cornos de alfenim, tendo ao centro
flores artificiais e com corno maior destinado ao vigário.
Durante a ladainha, presidida pelo beneficiado mais novo revestido de pluvial
roxo, dois cantores ao entoarem a invocação de São Marcos voltavam-se p’ró
beneficiado e faziam-lhe uma reverência, ao que ele correspondia com outra. Na
bandeja com a oferta das freiras da Glória, vinham sempre uns versos alusivos à
festa dos maridos atraiçoados. A colegiada agradecia por
escrito o presente e enviava também versos referentes à
festa".
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