Tudo, quando bem pensado,
No fim, ninguém é culpado!...
Neste globo terreno,
Com tanto que eu condeno,
Anda tudo revirado.
Um mata, o outro esfola,
Outro enche bem a sacola,
No fim, ninguém é culpado.
O que se passa na terra,
Roubam, matam, fazem guerra,
E tudo é perdoado.
Há terríveis falcatruas,
Quer nas casas ou nas ruas,
No fim, ninguém é culpado.
Afinal, ao fim ao cabo,
Fazem p’raí o diabo,
A olho nu reparado.
Não há culpas, porque até,
Ninguém quer dizer quem é,
Portanto, não há culpado!
Às vezes grito aflito.
Mas ninguém ouve o meu grito,
Confesso, já estou cansado.
Podem apontar a dedo
Quem ele é, mas o tal medo,
Não deixa ver o culpado!
Tudo que p’raí se faz,
Vão culpando Satanás
Este anjo endiabrado.
Andam fazendo das suas
Aí por todas as ruas,
Nem Satanás é culpado!
Há por aí, no entanto,
Alguém que lhe chamam santo,
Mas que de santo, coitado,
Toda a sua vida inteira
Tem feito tanta asneira
E de nada ele é culpado.
O culpado, quem bem nota,
É sempre aquele que vota,
No jagodes, mal formado.
Depois grita, peito aberto:
- Não está certo, não está certo!
Mas ele não é culpado.
Se uma guerra começou,
Quem é que autorizou,
Sem nela ter bem pensado?!
Nem ao menos lhes ocorre
Que o soldado é quem morre.
Depois, ninguém é culpado!
Se o mundo predomina
À base da gasolina,
Há que pôr preço alteado.
Tudo sobe, o povo sofre,
Lá quem está enchendo o cofre,
Não posso o julgar culpado!
Contribuições e seguros
E água, põem em apuros,
Com preços tão elevados.
E o senhorio em contenda,
Também sobe bem a renda.
Quem é que são os culpados?
Sobe a carne e o peixe,
Que já não há quem se queixe
Porque fica envergonhado.
Se o lucro de tal valor
Não é para o pescador,
Digam, quem e o culpado?!
O vinho, com muita mágoa,
Já foi bento, já traz água,
Ou algo já misturado.
Mas acontece Deus meu,
Se um padre não o benzeu,
Quem é que é o culpado?
Hoje tudo sofre uma muda
E se não houver quem acuda,
Continua tudo errado.
O que temos que comprar,
Tem tendência de aumentar,
Senhor, quem será culpado?!...
Eu penso que seja ele,
Se não é ele ou aquele,
Há que haver muito cuidado.
Seja lá quem quer que seja,
É preciso que se veja
O verdadeiro culpado.
Pode ser um devaneio,
Mas vejo-os de cofre cheio,
E de peito muito inchado.
Não sei bem quem ele é,
Há que saber, porque até
Tem que haver um culpado!
Na ideia que eu fiz,
Há que cortar p’la raiz,
Quem quer que seja o ousado,
Dar-lhe um aperto, um abalo,
Que ele caia do cavalo
E veja que é culpado!
O pior é as demoras,
Eles têm as esporas
Deixando o povo calado.
Com toda a sinceridade
Quem não gritar a verdade,
Irá se tornar culpado!
Lembro, com toda a razão,
Que ir preso por ter cão,
É melhor, mais acertado
Do que ir preso por não o ter,
Por isso, há que saber
Sempre quem é o culpado.
Mesmo até no casamento,
Quando se chega o momento
De cada um p’ra seu lado,
Ambos querem razão ter,
Nunca se chega a saber
Dos dois qual é culpado.
Toda a gente p’raí roga
Que se deite um fim à droga,
Este tesoiro encantado.
Há quem conheça os patrões,
Mas, só por certas razões,
Nenhum pode ser culpado.
Não temos em quem culpar
Há que tudo perdoar
Porque o culpado aparece
No meio de tanta desculpa.
Temos que culpar a culpa,
Só esta é que se conhece!...
PS
Mas que tamanha engrenagem
Fiz p’ráqui uma lavagem,
Que p’ra ser pessoa franca,
Falei… falei e falei,
E de tanto que lavei,
Até lavei roupa branca.
Não era p’ra falar tanto,
O certo é que em cada canto
Há algo p’ra criticar.
Para poder dizer tudo,
Uso luvas de veludo,
Tentando amaciar.
Vou mirando toda a gente,
O maldoso, o inocente,
Olhando os bons e maus jeitos.
De quem me conhece eu calo,
Destas pessoas não falo,
Pois conhecem meus defeitos.
Não sou pessoa que medra
Em atirar qualquer pedra,
S’é de vidro o meu telhado.
Vou acusando algum dano,
Mas, errar é bem humano,
E eu também sou um culpado!
Tanta gente que acontece
Ser mau e não se conhece!...
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