FÓRUM MADEIRENSE


Duarte Miguel Barcelos Mendonça

 

Memórias da nossa comunidade (8)
Evocação do 1.º Concerto do Tenor Lomelino Silva em New Bedford


Os nossos leitores mais antentos com certeza constatarão que já tinhamos
aludido num outro texto a este tenor madeirense que outrora deu brado pelo mundo
fora. Com efeito, fizemo-lo num artigo publicado na edição de 24 de Janeiro
deste ano do Portuguese Times. No entanto, naquele texto, apenas mencionei por
poucas palavras o primeiro recital lírico de Lomelino Silva em New Bedford, que
decorreu a 10 de Outubro de 1927. No presente artigo destacamos esta efeméride
com mais ênfase, visto que este ano se assinala o 80.º aniversário desta
brilhante e emocionante actuação.
A actuação deste nosso ilustre conterrâneo, o primeiro artista madeirense a
se apresentar à comunidade portuguesa de New Bedford, teve um grande destaque
na imprensa desta cidade, sendo que algumas destas apreciações foram
transcritas na sua congénere insular. No artigo de hoje apresentamos um artigo publicado
na edição de 19 de Novembro de 1927 do Diário da Madeira, sob o seguinte
título: “Lomelino Silva na América do Norte – Elogiosas referências da imprensa
americana ao grande tenor madeirense – “Uma voz de grande beleza” – “O Caruso
Português””, sendo este a tradução de um artigo publicado num jornal da
cidade baleeira:
«Do jornal norte-americano «New Bedford Times» de 14 do mês findo, traduzimos
expressamente para o «Diário da Madeira» o seguinte artigo em que são feitas
entusiásticas referências ao nosso ilustre patrício e amigo, tenor Lomelino
Silva, que na sua digressão artística pelos teatros de varias cidades dos
Estados Unidos vem aumentando com os gerais aplausos que lhe têm sido tributados a
sua já enorme reputação de cantor lírico, agora mundial.
O salão de baile do «New Bedford Hotel» deve vibrar ainda com as belas notas
emitidas tão naturalmente pelo famoso tenor português Lomelino Silva que ali
cantou a noite passada. As oito árias que constituíam o programa escolhido de
trechos de grande ópera e de canções portuguesas, foram cantadas tão lindamente
que se torna na verdade difícil dizer qual a que mais agrado causou.
Depois de referir a impressão da franca simpatia que Lomelino Silva inspirou
à assistência, conquistada com a bela apresentação do jovem artista que conta
apenas 31 anos, continua o mesmo jornal:
Lomelino Silva cantou peças de ópera em muitas capitais e centros musicais da
Europa e da América do Sul, assim como em muitos teatros dos Estados Unidos
quando fez parte do elenco da «tournée» artística da Companhia de Ópera de
Filadélfia.
Os seus papéis desempenhava-os com uma graça natural e talento que faltam a
numerosos cantores que se ouvem em muitos teatros líricos. Ele vivia os pers
onagens que representava e duma maneira tão natural, que o seu canto
sublimava-se, a sua voz tornava-se mais cheia e rica e simpática. Não acusa nenhuma
aspereza de tom, nenhum acento anasalado que se tem notado em certos tenores, ate no
próprio Caruso. Todas as notas emitidas pelo cantor português têm
profundidade, extensão e altura.
Lomelino Silva, na carreira lírica que vem seguindo com tamanho brilho está
destinado a atingir espantosas alturas. Dentre a assistência ao concerto de
ontem houve quem se sentisse comovido até às lágrimas, quem estremecesse de
emoção pela grande beleza do seu canto, quem vibrasse com o poder, a força que ele
imprimiu tão arrebatadamente aos trechos que cantou.
E que melhor elogio pode fazer-se a um artista do que dizer que ele empolga
os corações dos seus ouvintes, os enobrece com a sua arte e fá-los vibrar em
uníssono com a sua própria alma?
Um jornal italiano recentemente chamava a Lomelino Silva o «Caruso português».
Partindo tal denominação da Itália, a pátria de Caruso, pode isto
considerar-se como uma dupla homenagem, mas é de facto uma honra merecida para quem, para
alcançá-la, teve de trabalhar com toda a energia, sinceridade e talento de um
grande artista, cuja alma se revela em tudo o que canta.
A estrada de glória lírica do tenor português não foi para ele aplanada por
mãos estranhas.
No campo da Arte ele próprio teve de sustentar a grande batalha para vencer
na vida, como resumidamente tivemos ocasião de lhe ouvir (Lomelino Silva que se
encontra neste país há apenas dez meses, fala correntemente o inglês).
Quando Lomelino Silva era um simples estudante das escolas da Madeira, sua
terra natal, ele manifestou muitas vezes o seu ardente desejo de «ir ao teatro».
Este prazer era lhe permitido raras vezes. Seus pais mantinham o preconceito
de que a profissão da gente de teatro era uma profissão desonrosa, destituída
de pureza e de princípios morais. Mas a atracção pelo teatro despertava já no
seu espírito de rapaz todo cheio de curiosidade pelas coisas de teatro, e
desejando fazê-las ele próprio.
Volvidos alguns anos rebentou a Guerra, e Lomelino Silva deu ingresso nas
fileiras do exército do seu país.
Em pouco tempo tornou-se oficial miliciano, tendo combatido até ao fim da
guerra.
Depois — diz ele — segui eu mesmo o meu destino, obedeci ao meu comando. Eu
quis ir estudar para a Itália, mas não possuía os necessários recursos. Eu era
pobre. Aproveitei os meus dotes naturais, a minha voz então ainda inculta,
esta voz que Deus me concedeu, e cantei até alcançar o dinheiro necessário para
me transportar a Itália e estudar e aprender aquilo que tanto me interessava
saber.
E sofri, sofri, sofri muito. Pessoas amigas têm felicitado a minha família
dizendo que deve sentir-se honrada com a minha carreira artística.
Sim, os meus sentem-se honrados, agora que eu consegui vencer. Mas sinto-me
feliz actualmente.
Os concertos de Lomelino Silva estão sendo realizados sob a direcção do
coronel Barry Bolkley, de Washington, que tem representado em muitas grandes
exposições os ministérios da Marinha o do Interior. Ele interessa-se por Lomelino
Silva não somente por ser um notável artista mas também como um factor para o
estreitamento dos laços internacionais entre Portugal e este país. No seu
discurso de apresentação do cantor português ele agradeceu à cidade de New Bedford e
a todos aqueles que tinham por qual quer modo contribuído para o grande êxito
que estava certo resultaria do contrato daquele artista para dar algumas
audições em New Bedford. Por seu turno sentia-se feliz por ter trazido ao seio da
colónia portuguesa e do povo americano a maior voz de Portugal.
Junto do jovem tenor e aplaudindo-o entusiasticamente viam-se os seus amigos
coronel Tomaz Birch, antigo ministro plenipotenciário dos Estados Unidos em
Portugal, Dr. Clarence J. Owens, Presidente da União Pan Americana e o professor
Edward T. Delabarre da «Brown University». O Professor Delabarre durante um
dos intervalos falou da sorte que tivera em tomar conhecimento com Lomelino
Silva através dos seus trabalhos de investigação científica.
Ao Dr. Artur J. Taveira, também vão os agradecimentos da população de New
Bedford por ter trazido a esta cidade Lomelino Silva».

(conclui na próxima edição)



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