PEDRA DE TOQUE


Lélia Pereira da Silva Nunes

Florianópolis, Ilha de Santa Catarina



Um Mantra para as Ilhas
- Sob o signo da Lua Cheia –


Para Urbano Bettencourt e Vamberto Freitas,                                  
magia de mundos partilhados

                                                                             
                                                    
O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.
(Carlos Drummond de Andrade
in “Amar se Aprende Amando”)


Jaguaruna, Praia do Arroio Corrente, 2 de fevereiro de 2007, 19 horas. 
O sino da igrejinha bate anunciando a missa em honra à padroeira, Nossa
Senhora dos Navegantes. Demorou algum tempo até a última batida parar de soar e o
padre Valdir passar chispado em direção à capela com a dona Madalena, a
beata-mor e zeladora do singelo templo, no seu calcanhar a lembrá-lo que o relógio
não pára e que mais uma vez ele está atrasado. Com certeza, o bom padre em gozo
de merecidas férias, se distraíra apreciando o campeonato de sinuca lá no bar
do “Tio Patinhas” ou jogando a derradeira partida de dominó antes de correr
para o santo ofício. O que não causa espanto e muito menos reprovação, pois o
dominó é um costume dos antigos moradores deste pacato vilarejo de pescadores
de Santa Catarina e, também, de tantas gerações de tubaronenses que no verão,
fugindo do calor escaldante, há muito fizeram da Jaguaruna a “sua praia”.
 O blém, blém, blémmm do sino permaneceu no ar, mais sentido do que ouvido.
Fico sentindo o seu badalar vibrando dentro de mim enquanto caminho à beira-mar
neste fim de tarde, a hora do ocaso. Hora em que a luz do dia desvanece
suavemente dando lugar a noite que cai de mansinho cobrindo com manto estrelado
este lado da Terra. Antes, um sol magnífico se despede numa sinfonia de cores e
tons fortes em mutações cromáticas que vão do amarelo ouro, laranja, vermelho
ao violeta até, finalmente, desaparecer na branca areia das dunas numa profusão
de nuanças douradas a iluminar a terra e o mar. Paro a olhar extasiada,
respiração suspensa, com medo de quebrar o encanto, a magia desse momento de
sublime celebração telúrica.
 O rumor do mar silencia o sino no coração da praia, mas não acalma o meu
sempre inquieto e mergulhado no secreto desenhar dos sonhos e desejos
acalentados. Tenho nas mãos um ramo de “Maria Sem-vergonha”, pequenas flores brancas,
para ofertar à Rainha do Mar em seu dia. É sexta-feira. Mas, não é uma
sexta-feira qualquer. Até porque sexta-feira nunca foi um dia qualquer e, pelo
misticismo que o envolve, é considerado um dia de purificação. Esta é especial! O
calendário marca: sexta-feira, dois de fevereiro, Lua Cheia. Dia consagrado a
Nossa Senhora, a Stella Maris, protetora dos navegantes, dos homens do mar e dia
de Yemanjá, Janaína, Mãe D`água. Uma é devoção da Igreja Católica, a Mãe de
Deus e da humanidade. A outra é Oxum, a rainha e como Kilundu, divindade banto,
responsável pelo destino dos homens, chegou ao Brasil com os escravos africanos
oriundos dos reinos de Ngola e Kongo.
 Reflito sobre a rica dicotomia de crença e sincretismo religioso que faz
parte do cotidiano do povo brasileiro, raíz encravada na terra, elemento basilar
de nosso patrimônio cultural imaterial. São valores e tradições da minha
gente, de um passado que ainda é presente no simbolismo do ritual cumprido e agora
cheio de significados míticos como este meu gesto de depositar as flores no
regaço do mar, neste mar que beija a areia, que me abraça e impregna a pele com
sal, como uma benção. Sim, uma benção para que os bons sortilégios possam
fluir para dentro de mim e mandar pra longe todas as amarras, algemas que sufocam
o sentir, o bem viver. A “benzação” na conjunção dos elementos da natureza é
oração, é louvação da criatura ao Criador, à criação e tudo que deva ser
louvado.
O vai-e-vem das ondas embala meus passos, o vaporoso véu de espumas acaricia
meus pés, lambe-me as pernas. Deixo-me ficar por ali vendo o tempo passar,
olhando aquele mar sem fim e o gracioso bailar das garças em vôo planado rente à
água do talha-mar.
De repente, vem à lembrança que este dia, dois de fevereiro, também remete ao
fabulário açoriano, componente do patrimônio simbólico, universo povoado por
mitos e lendas, engenharias imaginárias, transmitidos ao longo tempo,
reproduzidos e perpetuados pela oralidade tradicional. Refiro-me a lenda das Labregas
do Mato, que aparecem na noite de 1 para 2 de fevereiro e que habitam a Ilha
do Pico – a mais bela, a mais extraordinária ilha dos Açores, duma beleza que
só a ela lhe pertence, duma cor admirável e com um estranho poder de actração,
na ontológica definição de Raul Brandão em As Ilhas Desconhecidas. Pico é o
nome da montanha que dá nome à Ilha e domina absoluta tudo em seu redor. Força
telúrica e simbólica ergue-se soberana no Atlântico Norte cheia de segredos e
mistérios. Quando estou nos seus domínios sou escrava desse mistério que
incendeia a alma, do seu encanto e magia. Meu olhar cativo espreita seu jeito de ser
e estar em contínua mutação rodeada, ou não, por uma auréola de nuvens que se
movimenta em seu torno conferindo-lhe uma identidade ímpar, anímica. É
inesquecível a visão da luz do entardecer no canal e a lumino- sidade rósea das
nuvens abraçando a montanha depois da chuva de trovoada e o cheiro da terra negra
molhada. Reverencio seu porte majestoso, seu sortilégio e sua sensualidade
traduzidos  em tantas imagens poéticas como na recente crônica de Vamberto
Freitas: seu mamilo coroado de brancura terna e desafiadora, fazendo-nos subir com
ela a céus de pura beleza imaginada ou, ainda, os lindos versos do poema
Paisagem de Urbano Bettencourt ante o Pico vestido de branco: Um seio destes, tão
perfeito/ e vasto,/ faz-se à medida do olhar guloso/ e nada casto/ de S. Jorge,
o santo da espada em riste.(...).
No último verão, regressei ao Pico com a intenção de completar os dados para
o meu trabalho sobre a Festa do Espírito Santo nos Açores. Andei por toda Ilha
documentando e colhendo depoimentos, sempre ciceroneada por amigos dos três
Concelhos: Madalena, Lajes do Pico e São Roque. Amigos que me acolhem com
carinho como se eu fosse gente sua que regressa depois de longa ausência, que abrem
a porta da casa e falam de si, partilham a mesa, contam histórias de sonhos
perseguidos nas outras margens do mar, por terras do Brasil, na “terra dos
esquecidos”, ou por califórnias perdidas de abundância (Pedro da Silveira), na
América. Atrás das manifestações tradicionais do culto em louvor ao Espírito
Santo penetrei na sua intimidade e vivenciei do seu cotidiano, de celebrações
religiosas e festas populares como a Festa de São Pedro ou a Festa das Adegas que
se realiza no Canto, na freguesia de Santo Amaro. “Território de afectos e
memórias íntimas, de imagens que o tempo recolhe e transfigura, escreveu o
escritor Urbano Bettencourt que aí tem suas raízes. Um mundo perdido entre o mar e a
encosta, povoado de antigas adegas que foram transformadas em casa de
veraneio. Uma ao lado da outra, feitas de pedra negra, com rés-do-chão tendo na parte
de cima uma ou mais divisões e um balcão de onde se avista a imensidão do
mar. Em dia de festa de São Pedro as portas das adegas se abrem de par em par, a
mesa posta com a fartura da casa, os sons da viola da terra, rabeca, bandolim
alegram o ambiente enquanto casais animados , em  passos ligeiros e volteios
marcados trocam seus pares dançando a “chamarrita”. Lá estava eu na Baía do
Canto, baía mágica, que fica sob a costa mais alta do Pico (415 metros), a Terra
Alta, participando da Festa das Adegas, com direito a provar tudo que era
oferecido, desde as bebidas como aguardente de figo, nêspera, vinho de cheiro,
verdelho, licores, angelica e as comidas típicas da ilha onde não faltaram  o
pão, os enchidos, a morcela, os doces e o queijo do Pico. E, ainda, ensaiar
alguns passos da “chamarrita”. A festa virou a noite desvirginando a madrugada.
Um convívio intenso e inesquecível. A paisagem selvagem e arrebatadora
desaparecera sob o negro manto da noite. Fiquei pelo balcão da adega da Dona
Mariquinha, Maria Xavier Bettencourt, aconchegada, contemplando a ilha de São Jorge
toda iluminada, como um presépio montado no meio do mar e ouvindo histórias e
lendas do Pico. Dona Mariquinha possui um rico fabulário e o dom de contá-las
mexendo com o imaginário da gente. Foi aí que conheci  Labregas do Mato. Diz a
lenda  que na madrugada de 2 de fevereiro as Labregas (bruxas do meio rural)
saem à rua fazendo estranhos e assustadores ruídos, aterrorizando os moradores ao
longo da noite. No entanto, não perseguem ninguém apenas assombram. Elas só
voltam a acalmar-se no dia 24 de março, quando já é primavera. Neste período de
cinqüenta dias as pessoas  evitavam sair a noite e, para acalmá-las,
realizavam a “reza grande” que consistia na reza de 100 Ave-Marias.
Assim asseguravam a tranqüilidade da freguesia e as Labregas não voltavam a
perturbar até o ano seguinte na noite de 1 para 2 de fevereiro. Será que as
Labregas, as bruxas de Santo Amaro, ainda perambulam nas frias noites de inverno?
 Confessou uma amiga santoamarense que luzes estranhas, bruxólicas, aparecem
na Rocha da Terra Alta no local também chamado de Cruz da Terra Alta em noites
de Lua Cheia .
É hora de retornar. Desaparece a luz do dia. Estrelas cintilam, surge a Via
Láctea, a trilha luminosa e mais abaixo o Cruzeiro do Sul com seu braço
alongado apontando o Sul austral. A Lua Cheia nasce das águas e lá do alto do céu,
engalanada, resplandece esbanjando luminosidade e esparramando seus raios
prateados. Uma luminosidade tão intensa que parece mesmo ter sido emprestada das
estrelas vizinhas como diz a letra da música popular brasileira, O Bêbado e a
Equilibrista na interpretação da inesquecível Elis Regina: Caía à tarde feita um
viaduto e um bêbado trajando luto me lembrou Carlitos. A lua, tal qual a dona
do bordel, pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel. E nuvens, lá no
mata-borrão do céu, chupavam manchas torturadas, que sufoco! Louco, o bêbado com
chapéu-coco fazia irreverências mil pra noite do Brasil. (...)
Escrevo como se percorresse por este tempo sob o signo da Lua Cheia em busca
da magia de mundos partilhados. O deambular me leva a outro cenário enluarado
lá na Costa da Lagoa, na minha Ilha Catarina, a santa de Alexandria.  Na
enluarada esquina do hoje com o ontem, aqui tomo emprestado a linda imagem do poeta
Semy Braga – (...)Enluarada esquina, trajeto da vida, e de tantas canções! –
recuo no tempo, para um luar igualmente belo e brilhante refletindo sua
brancura no espelho das águas da Lagoa da Conceição. Lugar mítico, depositário
tanto da historicidade insular quanto do imaginário ilhéu com seus mistérios,
encantos, bruxas, feiticeiras, boitatás, fogo-fátuo, mula-sem-cabeça,  lobisomens,
benzedeiras e suas rezas. Imagens de significados fortes e simbólicos para a
cultura local. A Ilha está contida ali, de todos os jeitos e formas, em
alusões ternas e sensuais. Ilha-mulher, na definição romântica e pícara do cronista
ilhéu Sérgio da Costa Ramos: Sempre soube que a Ilha é mulher, gênero bem
feminino, espécie cheia de curvas, com seios e principalmente com ancas. Surpresa:
dois umbigos, a Lagoa da Conceição e a Lagoa do Peri.
Foi neste cenário, abençoado pela beleza palpitante da paisagem, que
aconteceu o curioso encontro que, mesmo passados trinta dias, ainda continua dentro de
mim fazendo estripulias e provocando uma sensação incomoda de déjà-vu. Como
num replay revivo a cena e o estranho diálogo. Estivera visitando os amigos,
Vera e Semy, que têm naquele recanto paradisíaco da Costa da Lagoa o seu
esconderijo, seu lugar de criação. Aguardava no cais o barco, que me levaria de volta
ao centrinho da Lagoa, quando notei a velha senhora ali sentada, toda de
preto, mãos repousadas no colo, uma imobilidade de modo de ser, conformado com o
destino. Olhar perdido em cansaços estéreis, face enrugada, rugas esculpidas
pelo tempo. Sem idade. Mulher rendeira com certeza. Viúva de pescador,
conhecedora das marés e da Lua. Sentei no chão, tirei as sandálias mergulhando os pés
na lagoa, sentindo o movimento lânguido de suas águas bolinadas pelo vento. A
mulher se aproximou e para minha surpresa perguntou à queima-roupa: – Tu
benzes? Caí na risada e respondi na lata: - Não, eu enfeitiço. Sou uma bruxa.  Ela
olhou-me firmemente, segurou a minha mão esquerda e colocou junto do seu
coração e depois junto ao meu, dizendo: – Eu sei que és uma bruxa. O encanto está
dentro de ti, veio de longe, das ilhas dos nossos avós, atravessou o Atlântico
num barco alado. Corre nas tuas veias, como o fogo da ilha-montanha, é forte
como a rocha negra e embriaga como o néctar dos deuses que brota no solo de
mistérios. Está no teu nome que é flor da paixão e símbolo dessa Ilha: laelia
purpuratta. Está no nome de família – Machado, instrumento de trabalho e de luta.
Somos criaturas encantadas, filha! O sortilégio das Ilhas habita em nós,
invade a alma. Um fadário definitivo, jamais apartado de ti.
Quando, atordoada com o insólito diálogo, pedi que explicasse as suas
palavras limitou-se a sorrir, fez um breve aceno e entregou uma delicada caixinha de
cedro, a árvore-da-vida, que exalava a fragrância da madeira , da vidália e
das rocas-de-velha. Um relicário. Em seu interior encontrei um minúsculo retalho
roto de linho, tendo o nome Luísa Ana da Conceição Machado bordado num azul
já esmaecido pela ação do tempo, e uma pequena pedra negra, um biscoito de
lava, do formato de uma certa ilha-montanha.  Levantei os olhos da estranha prenda
com a emoção à deriva e lágrimas lavando a face. Encontrei o silêncio intenso
da noite, a plácida Lagoa e a Lua Cheia. Ela partira. Ainda a vi se
afastando, se esgueirando morro acima, corpo dobrado, saia enlutada, comprida, varrendo
as pegadas, como se, afinal, tivesse cumprido o seu fadário.
Luísa Ana da Conceição Machado era o nome da minha trisavó materna, nascida
na Ribeira das Gamelas, Terra Alta, Freguesia de Santo Amaro, Concelho de São
Roque, localizado na costa norte da Ilha do Pico, no dia 2 de fevereiro de
1747. Finalmente, eu encontrara o elo inicial da minha história de vida que há
tanto tempo vasculhava por terras de Santa Catarina e de ilha a ilha, nos Açores,
por caminhos do Divino.
Meu coração parecia um bumbo a reboar ruidosamente, descompassado. Tudo
acontecera num átimo de tempo e parecera uma eternidade. Fiquei suspensa como se um
muro de água me erguesse e me desaguasse numa outra ilha ou me regressasse à
ilha açoriana da minha memória. Sussurros do vento sul acalmaram a minha alma,
sorrindo por dentro, emocionada, cúmplice desse momento mágico, recitei
baixinho o poema-oração de Sophia de Mello Breyner: Onde o que estava lavado se
relava para o rito do espanto e do começo. Onde sou a mim mesma devolvida em sal,
espuma e concha regressada à praia inicial da minha vida.
Tudo agora se fecha como uma “mandala”, o círculo mágico, a energia em
movimento, o verbo que se torna irreversível: regressar, regressante, regressada
sempre por geografias inimagináveis e um mar de saudade pelo meio.
Um mantra para as Ilhas, sob o signo da Lua Cheia, sinaliza encontros
luminosos com sons, imagens, palavras, pessoas, afetos, uma infinidade de signos
expressos na magia de mundos partilhados.

Ilha de Santa Catarina, 3 de março de 2007
Sábado, Lua Cheia. Eclipse Total da Lua

 


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