FÓRUM MADEIRENSE
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As pinturas do tecto da Igreja de Santo António e a sua
relação com a Madre
Virgínia
No pretérito dia 24 de Outubro assinalou-se o 147.º aniversário do nascimento
da Madre Virgínia. De modo a assinalar tão importante efeméride, numa altura
em que decorre a elaboração do Processo Diocesano da sua Beatificação,
evocamo-la através deste artigo onde estabelecemos um paralelismo entre as
belíssimas
pinturas da igreja que ela então frequentava com a mensagem que lhe foi
confiada por Jesus e Maria.
Nos últimos meses tenho vindo a colaborar com a Irmã Otília Fontoura, osc nos
trabalhos referentes à elaboração do Processo Diocesano de Beatificação de
Madre Virgínia Brites da Paixão (1860-1929). Através de tão estreita colaboração
tive o raro privilégio de conhecer pormenorizadamente todos os manuscritos
lavrados pelo punho da “santa freirinha”, como a apelidou carinhosamente o povo
simples e humilde, e que constituem um dos pilares fundamentais para o
referido Processo.
Guiado por mão divina, e quando nada o fazia prever à partida, fui levado até
à Igreja de Santo António num dos dias em que se celebrava uma das novenas
preparatórias para a Festa em honra do Taumaturgo português. Estando no adro,
senti-me impelido a assistir à Eucaristia, que começava daí a instantes. Ao
entrar naquela igreja, o que já não fazia há imenso tempo, reparei de imediato
nas
pinturas do tecto e, estupefacto, exclamei para mim próprio que tudo aquilo
tinha uma relação directa com a Madre Virgínia. Ao constatar tal facto senti
necessidade de o anunciar ao mundo, de modo a que, no presente, as pessoas de
Santo António em particular, e da Madeira, em geral, conheçam o seu significado
e acolham a sua mensagem. Curiosamente, o orador sacro daquela novena foi o
Pe. Dr. Marcos Gonçalves, que é Juiz Delegado do Processo de Beatificação em
curso.
Após a sua expulsão das Mercês, em 1910, a Madre Virgínia regressou à casa
dos seus pais, no Lombo dos Aguiares, então um meio semi-rural habitado por
gente pobre e humilde. Na altura não existia ali o actual Mosteiro nem tão pouco,
nas redondezas, a Igreja da Visitação. O único templo religioso existente era
o de Santo António e, impelida pelo forte desejo de estar mais próxima de
Jesus e Maria, a Madre descia, todos os dias, a íngreme e penosa ladeira para ir
assistir à Missa, confessar-se, ou prestar adoração ao Santíssimo Sacramento.
Dotada de insondáveis dons místicos, algumas das páginas mais belas da sua vida
ocorreram no interior da Igreja de Santo António, segundo nos relatam os seus
valiosíssimos manuscritos. Amiúdes vezes, ao estar presente na Eucaristia,
esta humilde Clarissa foi favorecida com belíssimas visões celestiais. Toda a
riqueza da sua vida íntima com Jesus e Maria eram do conhecimento do seu
confessor, o Pe. João Prudêncio da Costa, Cura daquele templo sagrado.
Foi nesta igreja paroquial que, a 16 de Abril de 1913, a Madre Virgínia
renovou os seus votos. E foi precisamente nesse dia que ela recebeu do Filho de
Deus a missão da sua vida, a de implementar e divulgar a devoção universal ao
Imaculado Coração de Maria. Daquele dia em diante ela seria para este terno
Coração o que Margarida Maria havia sido para o Sagrado Coração de Jesus. No
mesmo
ano foram-lhe revelados os meios pelos quais este culto público ao esquecido
Coração da Mãe de Deus deveria ser feito: através da instituição de uma
Confraria e da criação de um escapulário para os seus membros. Foi naquela
igreja
que, a 1 de Novembro de 1913, o primeiro sábado do mês, se iniciou a prática dos
primeiros sábados, que consistia na recitação do Terço, celebração da
Eucaristia e bênção do Santíssimo Sacramento, tudo feito em desagravo e
reparação ao
Imaculado Coração de Maria. Foi também naquela paróquia que se realizou, em
Agosto de 1915, a primeira festa em honra do Imaculado Coração de Maria. E foi
ainda naquela igreja que, em Fevereiro de 1916, se instituiu a Confraria do
Santíssimo e Imaculado Coração de Maria, a primeira do seu género a ser
estabelecida no nosso país, e da qual a Madre Virgínia foi a primeira discípula.
Em várias igrejas madeirenses existe, na parte central do tecto, uma pintura
do seu padroeiro, como por exemplo em São Vicente. Estas pinturas revestem-se
de um significado especial para tais templos sagrados e seus paroquianos, e o
mesmo acontece na Igreja de Santo António. No entanto, nesta igreja do
Funchal, o padroeiro é este Santo franciscano e não Nossa Senhora. A que se deve,
então, a existência desta pintura da Mãe de Deus no tecto desta igreja? A
resposta é simples e encontramo-la no parágrafo anterior. Foi devido ao facto de
ali
se ter iniciado, com toda a devoção e empenho, o culto ao Imaculado Coração de
Maria.
A magnífica pintura ali existente representa uma visão que a Madre Virgínia
teve por várias vezes, a primeira das quais em 1913, em que a Mãe de Deus
revelou à sua humilde serva como deveria ser desenhado o escapulário do seu
Imaculado Coração. Num dos lados deveriam constar os dois Corações de Jesus e
Maria,
unidos por uma cruz, e do outro a imagem do Imaculado Coração de Maria
desenhado pelo punho da Madre Virgínia, guiado pela Santa Mão de Nossa Senhora,
pois
a humilde Clarissa havia reconhecido a sua incapacidade para desenhar tão
celestial figura. Num texto referente ao escapulário, a Madre Virgínia perguntou
a Nossa Senhora se poderia ser impressa uma outra imagem numa pequena pagela a
ser distribuída pelas discípulas do Imaculado Coração de Maria, ao que a
Virgem respondeu: “Sim, minha filha, contando que seja como essa que desenhaste,
Jesus Menino descansando sobre o meu braço direito e oferecendo os escapulários
aos fiéis e meu coração estará patente e o meu dedo apontará para ele; o meu
Coração é a porta para irem a Jesus. A coroa que cinge a minha cabeça deverá
ser ornada de estrelas, porque tudo tem a sua significação […]”.
(Continua na próxima edição)

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