|
Em Português nos entendemos
|
Em Português é que nos entendemos
70 Anos de Rádio Portuguesa no Centro do Vale de São Joaquim da Califórnia
Um olhar histórico — Uma leitura pessoal
Cheguei aos Estados Unidos há 39 anos! Tinha 10 anos quando no sombrio 26 de
Outubro de 1969 aterrei no aeroporto de Fresno, na Califórnia, proveniente
duma jornada de vários dias, feita em dois barcos e três aviões. Poucos dias
depois de chegar a terras americanas, estava eu com os meus pais, em casa dos
meus tios, ouvindo o nosso nome na rádio de língua portuguesa. Era a voz do
saudoso Joaquim Morisson, emigrante da ilha do Faial, locutor da rádio no centro
da Califórnia e agente de viagens e assuntos de emigração, a dar-nos as boas
vindas à comunidade portuguesa do centro da Califórnia. Apesar de já na minha
ilha gostar de ouvir o Rádio Clube de Angra, fiquei a partir daquela tarde de
domingo (não por ouvir a saudação de boas-vindas), um ouvinte assíduo da rádio
em língua portuguesa. Aliás, recordo-me vivamente, que os meus sábados à tarde
e domingos (praticamente durante todo o dia) eram passados junto ao receptor
a ouvir aquelas vozes que nos transmitiam uma amizade especial. É que a rádio
em língua portuguesa no centro da Califórnia, toda ela então feita por
produtores independentes, que compravam horas às estações americanas, era,
sobretudo,
uma rádio que comunicava directamente com os ouvintes.
A história da rádio portuguesa no centro da Califórnia é extremamente
interessante. Foi no ano de 1937, como está documentado no excelente livro “A
Presença Portuguesa na Califórnia” do Professor Dr. Eduardo Mayone Dias (a quem
devemos a histórias dos portugueses na Califórnia), que o casal Inácio (Enos) e
Margarida Santos começaram o primeiro programa de rádio em língua portuguesa
nesta parte do estado. O programa que teve como primeiro nome Recordações de
Portugal, mudou, pouco depois para Programa Portugal e continuou a emitir
semanalmente até meados da década de 1990, já então na posse de Joe Silva. O
Programa
Portugal iniciou as suas emissões antes dos próprios açorianos, na sua terra
de origem, terem a sua rádio, já que o Rádio Clube de Angra e o Clube Asas do
Atlântico começaram as suas transmissões na década de 1940. E durante alguns
anos o casal Santos dirigia o único programa de rádio em língua portuguesa nesta
zona. Mais tarde, outros apareceram, nomeadamente Maria Sousa com Ecos dos
Açores, Ana Calado com Melodias de Portugal, George Ázera com A Voz da
Lusitânia, Joaquim e Amélia Morisson com Ecos do Vale, Joaquim Correia Sr. com
Estrelas
de Portugal, Casey Santos com Hora de Recreio e Idalina Melo com Aurora de
Portugal, António Carvalho com Portugal Terra de Fé e Lúcia Noia com Sol de
Portugal, este mudado em 1974 (depois da Revolução dos Cravos) para Portugal
Novo.
Todos estes programas iniciados em alturas diferentes, mas todos produtos das
décadas de 1950 e 1960. Já na década de 1970, aparecem Eduardo Paim com Amor
da Pátria, Pedro Miranda e Manuel Simões com Jardim dos Açores, mais tarde só
com Pedro Miranda e rebaptizado como Pérolas dos Açores, Maria Fernanda
Simões com Saudades da Pátria, Diniz Borges com A Voz do Emigrante, Aires
Madruga
da Silva e Carlos Reis com Voz Portuguesa, este tendo continuação apenas com
Aires Madruga da Silva e João e Ana Maria Morisson com Portugal na Califórnia.
Foram estes homens e mulheres da rádio que para o bem e para o mal, serviram
a nossa comunidade durante vários anos. Foram estas vozes que os portugueses e
luso-descendentes se habituaram a ouvir, quer nas manhãs de cada dia, o caso
de Casey Santos, Lúcia Noia e mais tarde Carlos Reis e Madruga da Silva, quer
aos sábados e domingos, os dias nobres para a rádio portuguesa onde cada
locutor (a), com o seu próprio estilo, comunicava com os ouvintes. É que esta
era
uma rádio de afectos, de amizades, de dedicação, de sentimentos e duma
comunicabilidade intensa. Os locutores da rádio em língua portuguesa eram
figuras
queridas, convidadas para as festas pessoais, desde os casamentos às matanças de
porco. E esses convites tinham reciprocidade através do microfone, ou seja:
as famílias esperavam pelo disco que lhes era dedicado, pela oferta musical,
pelo anúncio que solidificava a amizade entre o locutor e as famílias da
comunidade. Depois haviam preferências! Havia quem adorasse o casal Morisson,
Joaquim
e Amélia, (confesso que era um desses admiradores) particularmente pelas
célebres “Lições do Joaquim”, pequena rubrica semanal em que o casal, ela como
professora, e ele como aluno, dava-nos lições de gramática, de cultura, de
crítica social e política; havia quem gostasse da voz suave e melodiosa de
Inácio
Santos, quem preferisse as notícias locais dadas pelo George Azera — um dos
poucos a dar notícias do mundo americano local; quem preferisse a leitura de
poesias que Lúcia Noia apresentava, e que tenho de reconhecer, eu com os meus 11
e
12 anos, mesmo sem muitas vezes perceber o poema, adorava ouvi-la. Depois
quem gostava de desporto esperava para ouvir as notícias que o Eduardo Paim ia
dar ao programa Portugal Terra de Fé, até que mais tarde este também começa o
seu próprio programa. Aliás, foram estas pessoas e com o empurrão do amigo e
também locutor da rádio de então Manuel Simões, agora regressado aos Açores, que
em finais de 1977, com 19 anos, comecei o programa Voz do Emigrante.
Foi esta gente que muitos antes de haver as chamadas organizações mais
viradas para a cultura, mesmo a cultura popular, como por exemplo o Tulare-Angrense
que começou no ano de 1964, a Tulare-Angra do Heroísmo Sister City Foundation
em 1967, os programas de língua e cultura portuguesas nas escolas secundárias
de Tulare em 1976, o Centro Cultural de São João Batista em Hanford no ano de
1980, a Filarmónica Portuguesa de Tulare em 1981 ou o Centro Português de
Evangelização e Cultura em Tulare no ano de 1986, já em Tulare e Hanford
tínhamos
quem preservasse e promovesse a língua e a cultura portuguesas: os programas
de rádio. Eram eles a única voz pública que tínhamos. Eram também os
fomentadores dum vasto calendário social. As festas com que celebravam os
aniversários
dos respectivos programas eram acontecimentos marcantes. Pelo preço módico e
simbólico de $1 cada, os salões portugueses enchiam-se. Havia música
portuguesa, a massa sovada, os petiscos da nossa gastronomia tradicional e a
comunidade, numa era mais simples, com menos eventos sociais, vestia-se com a
sua roupa
domingueira e lá estava em vulto. É que as “festas da rádio” eram mesmo
autênticos bailes de gala.
Hoje a rádio em língua portuguesa no centro da Califórnia está diferente. A
mudança começou na década de 1980, precisamente, no ano de 1980, com o programa
Rádio Aliança 80. Um programa diário, uma aliança entre três locutores: Joe
Silva, Madruga da Silva e Diniz Borges. Um programa que primava pela diferença
e pelo espaço noticioso. A partir daí a rádio foi-se transformando. Em 1981,
Joaquim Correia Jr. e Diniz Borges fundaram, com a presença do locutor
Henrique Dédalo, a primeira estação de rádio de circuito fechado na Califórnia:
Rádio Clube Comunidade. Depois do desaparecimento desta rádio, circunscrita a
quem
queria pagar uma quota mensal, e com a recusa das emissoras americanas de
permitirem a presença dos programas independentes, estes fizeram uma aliança e
recomeçaram, num formato mais abrangente, outra emissora de circuito fechado, a
KTPB que foi a primeira estação de rádio em língua portuguesa na Califórnia a
transmitir 24 horas por dia em língua portuguesa. Iniciada em Novembro de 1988
— o primeiro dia de transmissão foi o dia das eleições presidenciais nos EUA,
acontecimento que a estação transmitiu ao vivo com comentários sobre o
acontecimento — a KTPB durou até 2005, ano em que cessou a suas transmissões
porque
a maioria dos programas independentes haviam também cessado e porque pouco
depois da KTPB começar as suas emissões, a KIGS, estação da onda média, começou
a
transmitir em português, tornando o projecto do circuito fechado, um projecto
com poucas probabilidades já que tinha que competir, directamente, com uma
estação sem restrições de audição.
Hoje, dos programas independentes supracitados apenas existem dois: Amor da
Pátria de Eduardo Paim com praticamente 35 anos de vida radiofónica e Portugal
Terra de Fé com Anthony Carvalho (programa que tinha sido começado pelo seu
pai) e que data de 1964, portanto com 43 anos. Hoje a rádio já não faz as suas
festas, e o calendário social dos emigrantes dos Açores e luso-descendentes
(estes segundos a vasta maioria da comunidade local), está repleto de
acontecimentos, cada vez menos frequentados porque assimilação e a integração
ocorreu e
a comunidade fica mais americana e menos portuguesa. Hoje, temos uma rádio que
transmite praticamente 24 horas por dia em português. Mas também hoje, e com
o estancar da emigração para estas paragens há mais de 25 anos, a rádio,
começa a sentir um decréscimo no número de ouvintes. É que a gente jovem, e
mesmo
a vasta maioria dos adultos jovens, na faixa etária dos 20 e 30 anos, não ouve
a rádio em língua portuguesa, ouve sim, as estações americanas.
Dir-se-á, em género de conclusão, que a comunidade do centro da Califórnia ao
adquirir uma rádio, mais profissional, a qual encetou com o advento da Rádio
Aliança 80, perdeu a comunicabilidade intima que havia entre o ouvinte e o
locutor. Há ainda que registar o papel dos programas de rádio independentes na
fomentação da língua e cultura portuguesas e no estabelecimento de pontes que
ligavam o emigrante à sua terra de origem, assim como a vivacidade que davam a
uma comunidade em construção. Sem eles, sem a sua ousadia, a sua coragem, a
comunidade portuguesa seria diferente. Foram os locutores dos programas de
rádio que mantiveram, durante muitos anos, a chama da portugalidade acesa em
terras do centro da Califórnia. Daí que há que contar esta história e há que
nesta, e noutras comunidades, prezar-se a nossa memória colectiva, há que
narrar-se o nosso historial em terras californianas, o qual seria muito
diferente sem
as rádios locais.
Dir-se-á ainda, que, e na minha perspectiva, num futuro, que talvez não seja
assim tão distante, a rádio no centro da Califórnia, ainda voltará aos seus
tempos antigos de produtores independentes, comprando umas horas nas rádios
americanas para se transmitir uma programação de cariz local, porque os
contactos
directos de Portugal, esses, já só se precisa das novas tecnologias.

Copyright © 1997/2001 The Portuguese Times
Autorizada a reprodução de artigos publicados nesta página desde que mencionada a origem