Pedaços de Maresia Atlântica
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Poesia – um estado de alma
Bem hajas, Poeta! – era esta a expressão que cintilava na minha mente quando
no dia 11 de Outubro, no pequeno espaço da livraria Solmar, em Ponta Delgada,
João Luís de Medeiros apresentava a sua obra (Re)verso da Palavra. É comum
dizer-se que há três coisas que um Homem deve fazer na vida para que se sinta
completo: plantar uma árvore, “fazer” um filho e escrever um livro. Penso que
agora o João Luís de Medeiros poderá dizer: missão cumprida! Ora, é com enorme
satisfação e apreço pela pessoa e pela obra que poderei afirmar: obrigada,
poeta, por fazeres agora parte da minha biblioteca de sentimentos.
É de salutar importância referir que nos tempos que correm é cada vez mais
importante que a sociedade esteja preparada para que os mais experientes
cooperem com os menos experientes (seja em que área for), pois só assim os
segundos
poderão dar testemunho dos primeiros. E isto foi algo que se verificou no
lançamento da obra supracitada. Lá estavam presentes muitos amigos “do século XX”,
como disse o escritor. No entanto, também lá estavam “amigos mais recentes”,
como ele afirmou. Foi com muita alegria que constatei a existência de vozes
de diferentes gerações que se entrecruzaram naquele pequeno espaço cultural. De
facto, quem está disposto a aprender, deve fazê-lo com os mais velhos, na
medida em que estes têm mais experiência de vida, quer civil quer literária.
Jamais esquecerei o momento em que o Sidónio Bettencourt declamava alguns
poemas do nosso escritor, principalmente porque os lábios do Sidónio tremiam,
tal
como a mão que segurava a folha branca de papel com os versos escritos. E
quanto mais o Sidónio tremia de emoção, mais brilhavam os olhos atentos do João
Luís de Medeiros, mas não um brilho de altivez; pelo contrário, um brilho de
comoção, sensibilidade e convicta humildade. E são momentos como este que
ficarão eternamente na memória dos mais jovens como eu. É gratificante aprender
com
os Mestres!
Ao ler a obra (R)everso da Palavra, verifica-se uma profunda humildade po
ética, repleta de episódios que marcaram indelevelmente o quotidiano da vida do
seu autor. Desde experiências que foram vivenciadas num cenário de pré-revolução
do 25 de Abril de 1974, em que a ânsia de Liberdade é o vector crucial que
atravessa diversos poemas, ao episódio triste do conflito colonial e a
experiência do escritor em Moçambique, passando pelo desafio que é apresentado
aos mais
poderosos para que estes fossem capazes de mostrar a Verdade das coisas e dos
acontecimentos de então. De seguida, deparamo-nos com um sujeito poético que
vive extravasado de Amor pela pátria que o viu nascer e renascer múltiplas
vezes em cenários bastante distintos. Logo depois, a Saudade é um traço
fundamental, na medida em que testemunhamos a partilha da odisseia migratória
vivida
pelo autor. Muito interessante é, ainda, o facto de vários poemas serem
dedicados a pessoas que convivem diariamente connosco de forma entusiasta, desde
António Vallacorba, “Operário de Palavras” até ao Daniel de Sá, “Maná da
Igualdade”, de igual para igual como que a partilhar o “Pão Fresco da Liberdade”,
dedicado a Dias de Melo.
A obra termina com seis contos que ilustram bem a juventude insular do
escritor, pautada pela miséria material, mas muito rica em valores morais, os
quais
já raramente se encontram nas sociedades “modernas” do século XXI. Enfim,
“mudam-se os tempos/ mudam-se as vontades”, já dizia Camões.
Quanto a mim, só me resta dizer: parabéns João Luís de Medeiros por teres
tido a capacidade de partilhar connosco algo que visivelmente te é tão íntimo! E
aqui concordo publicamente com o Daniel de Sá, que prefacia a obra: “Afinal,
fazer versos dói? Ou a vida ter-te-ia doído mais ainda se os não fizesses?”.

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