Nas duas margens

 

Vamberto Freitas


 
Sobre o Português que nos pariu,
de Ângela Dutra de Menezes


O Português Que Nos Pariu: Uma visão brasileira sobre a história dos
portugueses de Ângela Dutra de Menezes é um livro muito especial por várias razões, a
menor das quais não será uma inusitada declaração de amor ao passado lusitano
da sua autora. Estamos a habituados a pensar que para os brasileiros – uma
parte deles, pelo menos, pois a generalização é sempre injusta, e muito
particularmente neste caso – viramos simples anedota, bombo da festa, “Manuel” e
“Joaquim” estupidamente espertos, mas pouco inteligentes. Acontece que todos esses
estereótipos, tanto os nossos como os deles, pouco representam na realidade e
nos inabaláveis afectos comuns. O Brasil está agora muito presente em
Portugal através da sua gente que connosco partilha a pátria ancestral, e muito
especialmente através das artes, literatura e música num lugar muito privilegiado.
A nossa queixa foi sempre o amor mal correspondido, mas teremos pouca razão em
lhes apontar o dedo acusador. O facto é que aparentemente não sabemos fazer
chegar a eles muita coisa. Se nunca soubemos sequer chegar a todo um país
pequeno como o nosso, como deveríamos ter conseguido ultrapassar outras fronteiras
e longas distâncias? Mas a realidade é esta, e bem diferente: existiu sempre
uma minoria intelectual que respeita e estuda a nossa cultura e história, e
tudo faz para as dignificar no seu país imenso, ante a pouca solidariedade das
nossas autoridades e reconhecimentos-outros. A única vez que visitei o Brasil
até hoje, vi como até a literatura e a cultura açorianas eram respeitadas e
estudadas, inúmeras teses sobre o nosso legado defendidas nalgumas das suas
melhores universidades, especialmente na Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul.
Por outro lado, artistas brasileiros como Chico Buarque e Caetano Veloso
têm-nos convocado ao longo dos anos na sua arte, e Maria Bethânia acaba de lançar
um novo CD exactamente com o título de Mar de Sophia, no qual inclui o
magistral “Marinheiro só/O marujo português”, como que numa homenagem (outra) a toda
mítica portuguesa e à própria cidade de Lisboa. Cada vez mais no Brasil,
pelos vistos, se pede a presença cultural portuguesa, um pouco por toda a parte,
como que num renascimento de curiosidade, respeito e, uma vez mais, afecto
puro.
Na minha experiência muito pessoal, verifico ainda isto: quando envio música
nossa a amigos e amigas brasileiras a reacção é quase sempre eufórica. Não,
não lhes mando a música que estarão alguns a pensar, muito pelo contrário:
mando, sim, por exemplo, o Fado da nova e genial geração (Camané, Kátia Guerreiro,
Ana Moura, Mísia, Mafalda Arnaut, Raquel Tavares, Cristina Branco, Mariza,
etc.).
Pergunta constante: por que não conhecemos estes artistas aqui? Resposta:
porque não os divulgamos como seria natural. Amaremos Camões, Eça, Fernando
Pessoa e José Saramago mais do que os nossos irmãos no outro lado do Atlântico?
Somos um país, a outro nível, tão mesquinho, auto-raivoso, estupidamente crispado
e invejoso que nada conseguimos fazer por nós próprios. Vão se impondo, lá e
noutras latitudes, aqueles que entre nós corajosa e inteligentemente partem
sem pedir autorização a ninguém, ignoram os que preferem o Silêncio e o Nada em
que Portugal sempre viveu até há bem pouco tempo. São estes os que nos
dignificam e devolvem a honra de um velho país como o nosso, perpetuam a Tradição do
melhor que fomos e somos ainda capazes de oferecer a nós próprios e aos
outros. O Brasil não deveria ser um país qualquer para nós: é o país que nos redime
e nos engrandece na História. O Português Que Nos Pariu é uma deliciosa,
amigável e muito carinhosa bofetada – sem ser essa a sua intenção, suponho – na
nossa cara já sem expressão e, sempre, perplexa.
O Português Que Nos Pariu é uma narrativa interpretativa da história do seu
país (desde a chegada de Pedro Álvares Cabral até aos nossos dias) à luz da
saga lusa que dá pelo nome de Descobrimentos. O livro de Ângela Dutra, que
depressa se tornou num dos mais vendidos e apreciados positivamente pela crítica do
Brasil, é muitíssimo simpático para connosco, especialmente vindo de um Brasil
que tradicionalmente, para além do afecto de que falei anteriormente, também
(pelo menos entre alguns dos seus sectores político-culturais) tem culpado a
sua herança ibérica por todos os seus males, passados e presentes. É, uma vez
mais, uma declaração de amor a Portugal, cheia de humor e carinho, e, sim,
parece concluir a autora, o Brasil foi sempre e continua a ser “filho” predilecto
nosso, a língua e a cultura não nos permitindo qualquer negação freudiana,
por assim dizer. Ângela Dutra de Menezes, ex-jornalista de publicações tão
influentes como a revista Veja e o diário O Globo, e autora dos romances Mil Anos
menos Cinquenta, Santa Sofia e O Avesso do Retrato, é uma brasileira de
terceira geração, com raízes em Trás-os-Montes. O último parágrafo de O Português Que
Nos Pariu resume lindamente a sua atitude ante esses seus dois mundos
separados só pelo Atlântico – que Onésimo T. Almeida nos habituou a chamar de “rio”
pela proximidade das suas margens nos tempos modernos. “Em tempo: aprendi
parte do hino de Trás-os-Montes. Eventualmente, canto-o para minha mãe e meus
filhos. Certas ocasiões – escreve Ângela Dutra em O Português Que Nos Pariu –
exigem solenidade”.
A capa do livro de Ângela Dutra é ilustrada com uma estilização de Pedro
Álvares Cabral, de olhar ambíguo e perplexo, talvez nem tanto pela surpresa de ter
“achado” o que viria a tomar o nome de Brasil, mas já vendo a loucura dos
seus homens numa das praias do Nordeste a perseguir loucamente as inesperadas
fontes do seu prazer em correria cheia de medo e pavor à sua frente, num paraíso
de verdura e frescura tão sensuais como inocentes. O Português Que Nos Pariu
também se presta a esta leitura muitíssimo “criativa”, e daí a beleza e
prazer de o encontrar tão inesperadamente entre nós. O humor deste livro é
constante, dizendo a seu modo coisas sérias e, atrever-me-ia a adicionar, bem
importantes. Ângela Dutra começa a sua sinfonia ancestral com o “Fado Tropical” de
Chico Buarque e Ruy Guerra, segue com “Receita do português”, esta secção uma
deliciosa “salada” de povos que se misturaram na Península para criar aqueles
que um dia repetiriam tudo no Brasil, às ordens de D. Manuel I: ide e
“misturem o nosso sangue”, talvez a mais saborosa ordem de um monarca ao seu povo, e à
qual, parece, continuamos a obedecer! O resto da narrativa é constituída por
quadros históricos que, muito antes (começando com D. Afonso Henriques) e a
partir do Achamento, segundo a autora, decidiram a natureza e o rumo da nova
sociedade e nação. Pelo meio, ficam-nos bocados de informação e interpretações
absolutamente surpreendentes, como a própria fundação da república brasileira e
alguns dos seus símbolos e “tiques” duradouros, de todo significantes da
inseparabilidade das nossas duas nações.
“Vamos esclarecer – escreve Ângela Dutra de Menezes no seu tom constante
entre o riso e a seriedade – de uma vez por todas: o verde e amarelo de nossa
bandeira não tem absolutamente nada a ver com nossas matas e nosso ouro, como
ensinam às criancinhas nas escolas. Verde e amarelo são as cores da casa de
Bragança, dinastia que reinou no Brasil até 1889.
“O lero-lero de matas e ouro surgiu porque a recém-declarada república
precisava explicar as cores brasileiras, sem evocar o monarca expulso. E saiu-se com
esta mentira capenga, onde só falta um mico-leão-dourado para explodir a
emoção.
“A história verdadeira dá de dez na oficial. Nossas cores têm passado.
Nasceram em 1401, ano em que Brites Pereira aceitou para consorte dom Afonso de
Aviz, primeiro duque de Bragança”.
O Português Que nos Pariu: uma visão brasileira sobre a história dos
portugueses parece vir numa certa onda em alta de narrativas históricas positivamente
revisionistas no país-irmão. Seguiu-se agora outra, e vejam com atenção o
longo e expressivo subtítulo - 1808: Como uma rainha louca, um príncipe medroso e
uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do
Brasil, de Laurentino Gomes (Editora Planeta do Brasil, LTDA, 2007). Mais uma
boa notícia: são narrativas escritas por escritores e jornalistas, de linguagens
limpas e claras, sem o impeditivo (e na maior das vezes, inútil) jargão
académico.

*Ângela Dutra de Menezes, O Português Que Nos Pariu: uma visão brasileira
sobre a história dos portugueses, Civilização Editora, Lisboa, 2007.

**Algumas das passagens desta recensão foram tiradas de um artigo meu sobre
outro livro, mas no qual eu já falava brevemente n’ O Português Que Nos Pariu.



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