PSICONOTAS


Manuel S.M. Leal




Repenicando na Memória o Fado da Saudade

Eu sou admirador da voz da Cristina Branco. Quando jovem, nos Açores, não
gostava do fado. Aprendi a ouvi-lo na América. E até ainda me deleito com a
Amália, viva na memória colectiva de Portugal. Amália está cinzelada no património
popular como a legendária Severa, de quem nos ficou a notícia longínqua do
talento e da popularidade sem o eco da sua voz.
Conheci a melhor intérprete histórica do Fado Português, ainda com um
semblante de juventude, em Lisboa. Demos um aperto de mão e trocámos algumas
palavras. Dois segundos depois, energética e sorridente, ela saiu do restaurante, de
cujo nome me olvidei.
Naquele tempo, pouco depois de eu chegado aos Estados Unidos em 1959, o rock
era rei entre a rapaziada nova e o jazz já entrara na Europa, mesmo em
Portugal, quase snobe, mas com cuidado. Desde os nomes dos bebés à música, as linhas
rimadas das canções e a crítica cinematográfica como a notícia política – tudo
o que se lia e escutava passava pelo pente fino da Censura. Em Boston, o fado
fazia visitas semanais, ao domingo, no programa radiofónico A Hora
Portuguesa, do micaelense John de Melo.
Gosto de ouvir fado quando estou só no meu quarto de trabalho, em casa, com
surround sound. Cerro os olhos e fico ali, imóvel, enterrado numa cadeira fofa
e corpulenta que me abraça como uma manta da minha avó Maria Luísa (Boga).
Ouço o retinir das cordas instrumentais, atento, como se os guitarristas
estivessem ao meu lado.
Quando vivia em Massachusetts, às vezes ia com a família a um ou outro
restaurante para jantar e escutar o fado. (Os meus filhos ainda hoje se riem do
drama implícito na roupa negra e o xaile sobre os ombros das fadistas castiças.)
Aqui, agora, encostado à fronteira novajeirsiana do sul histórico destes
Estados Unidos, a linha Mason-Dixie que transponho de automóvel quando vou ao Rodeo,
num lugar apropriadamente denominado Cowtown, Aldeia das vacas, o fado num
restaurante está à distância de um percurso de quase três horas de automóvel
para ambos os lados por via rápida. Já não há fado ao vivo na minha vida.
Existem outros sons, outras melodias a competir com o que resta do que eu
como pessoa fui numa dimensão cultural e até socioeconómica e a realidade rítmica
e fonológica, num conflito intermitente, sempre presente, que se expressa na
marginalidade linguística. Sure...    
“Deve ser da idade”, a frase que na sabedoria popular quer dizer a
decadência cognitiva na integração da soma experiencial da adaptação à vida. Gosto,
praticamente, de toda a música, desde uma ópera de Puccini às sinfonias de
Beethoven, uma balada country e até da Paulina Rubio, mexicana caliente, cadenciosa,
no papel de Border Girl, Moça da Fronteira. Delicio-me ainda com Alexandre
Fernandez, ou seu pai Vicente num corrido, o ritmo mariachi da tradição
ranchera. “Olé, muchachos...” Os Cânticos Gregorianos misturados na mesma emoção com
os sinos da Igreja das Angústias, os bronzes com que eu cheguei a anunciar o
meio-dia e a alegria de um baptizado. O samba bamboleante, tropical, soado,
finório e sedutor sempre me apraz. Excita-me como o linguarejo mavioso e doce da
fala brasilina. Mas a chamarrita, que nem sei bailar, transporta-me à
adolescência como toda a nossa música popular, – “mais um senhor à frente” – um
Bailinho da Madeira ou as danças com os passos ligeiros marcados pela pandeireta
dos ranchos folclóricos, sejam de onde for: “Tia Anica, tia Anica...”
O fado tem uma qualidade nostálgica que faz a gente viajar através das
memórias longínquas. Activa processos neurológicos nos circuitos límbicos com
imagens no olho da mente, recordações carregadas de afectos, até mesmo
quase-alucinações queridas como a face da minha mãe, quando a via triste, cantarolando para
decepcionar o próprio coração: “ O soldado na mortalha”... ou “Olha a menina
João Solidão....”
Eram canções antigas já no seu tempo, projectando nas palavras seleccionadas
em versos populares a depressão de gerações infindas. A sua avó, que a criou,
cantava do mesmo modo quando os homens da família ainda não tinham arribado ao
porto da Madalena, no Pico, e o vento fremia intimidante nos salgueiros
desgrenhados da Banqueta. “Rema que rema, qu´as velas estão rotas...” O fado da
mãe e esposa, mulher, cidadã sem voto, longe da consciência nacional de um país
com duzentos donos e um cardeal. E uma multidão despida de liberdade e pão.
Os Açores apareciam como dois pontos ínfimos, olvidados e sem nome, no mapa
do deserto cognitivo e político de Portugal. “Olha a menina João Solidão...”
Um lamento da minha mãe, sobre a sopa de couve com um naco de toucinho e um
pedaço de linguiça fumegando no prato que me estendia com as suas mãos que ainda
vejo. (Como gostaria de beijá-las de novo, ouvir a sua voz, mesmo as frases
choradas nas canções que ela mal conhecia. Talvez por isso eu agora adoro o
fado).
Ao ouvi-lo, nem nos apercebemos de que, como na Morna, da cabo-verdiana e
lusófona universal Cesária Verde, (“Sodade...sodade..”) recorda o pranto de
princesas de pele de veludo negro e pés descalços, escravos trocados por prata
espanhola, o estalejar de látegos ensanguinhados insensíveis à dor humana.
Expressa no sofrimento de um amor perdido, de uma mulher apaixonada, de uma amante
rejeitada um relacionamento sádico. A  ausência terminal de um ente querido.
Era por vezes metáfora da condenação de um povo branco às galés culturais,
ideológicas e económicas, como os africanos de canga ao pescoço que lhes fora
imposta pelos Serpa Pintos. Porque o fado, sempre dolorido, perpetuamente
lastimoso, também dissimulava a injustiça, a opressão governamental, a desigualdade
regional, as castas implícitas na geografia da nacionalidade determinante do
colonialismo flagrante e a opressão semântica e “adjacente.”
Todos os países têm infelizes, mas uns fizeram mais do que outros. E não é só
no mar como sonetozou Fernando Pessoa, mas também nos actos sociais dos res
ponsáveis, na política mantida pelos partidos, na arrogância dos sabichões
inscientes, na violência dos militares, no fio gélido, indigno e até criminoso da
lâmina patológica das más-línguas que se encontra a origem de muito do sal das
lágrimas de Portugal.
Em “velocidade e força”, antes da “autonomia castrada”, se construíram os
últimos fados nacionais da minha mocidade disfarçada, dolente, com o alarido
metálico de máquinas ao fundo da diáspora empurrando-me com mãos calejadas para
o futuro. Por isso entrei na universidade vestido de nicks azuis, botas de
sola de borracha dielétrica e o dístico de uma empresa na manga direita da
camisa. (Entre outros papéis laborais, fui electricista antes de psicólogo).
Nessa época, todavia, já nesta terra ainda então alheia, não havia
necessidade de amarrar as solas dos sapatos com arame de pesca, nem de submergir a dor
inexplicável e sem nome, oculta e encalistrada. Também eu, confirmando a
universalidade do fenómeno a que Bocage chamou o seu “fado”, manuscrevia o meu em
silêncio. E escrevia, escrevia a minha terapia sem consciência de que o
paliativo simbólico e intelectualizado quiçá me salvava a vida.
O fado. Cada um tem o seu. Mas a história deve ser pretérito porque o sucesso
se conjuga no futuro com a esperança – e o trabalho – do presente. Por isso
não é destino como dizia a Amália, nem o castigo que nos legaram os gregos
antigos na visão trágica da condição humana. Destino será outra coisa que eu
defini por aí, neste jornal, mas nem lembro quando, adquirido por processos vários
de aprendizagem.
Já hoje ouvi a Cristina. E o fado do Emigrante de Dona Rosa agora sai pelos
altifalantes como gemido melódico, plangente: “Saudade... saudade da pequena
aldeia...” E sinto uma soledade ingente dos meus Açores.

 


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