Do Tempo e dos Homens

 
Manuel Calado


 

O Jogo do Dinheiro

A vida é um jogo. Andamos todos caminhando de olhos fechados à espera que nos
saia a sorte grande. Não conhecemos o amanhã. Fazemos cálculos, conjecturas e
esforços de adivinhação, mas, na verdade, pouco sabemos. E é por isso que as
bruxas fazem bom negócio. Dizem que adivinham. Só não adivinham os números da
sorte, porque se adivinhassem estavam milionárias e não precisavam de fazer
adivinhações a preços de saldo. Mas isso é outra ordem de ideias.
O jogo que hoje temos em mente é o jogo do dinheiro. Que as bolsas de
valores, a Wall Street de Nova York, por exemplo, é uma espécie de lotaria em grande
escala. Ali não se jogam dólares ou milhões, mas biliões! Os manipuadores de
dinheiro são gente esperta, cuja filosofia fundamental é a acumulação de valor.
Nas suas conversas, nos seus sonhos, nos seus cálculos vêem apenas uma coisa:
cifrões, cifrões, cifrões. Assim como as bruxas servem o “pé descalço” nos
seus problemas de amor, ódio ou mau olhado, os oráculos da bolsa são peritos na
gerência do dinheiro. Mas quando o mal da ambição desregrada os ataca, os
seus cálculos saem furados e são causadores de desastres que afectam milhões de
pessoas de boa fé.
Como, por exemplo, o desastre engrendrado na mente dos capitalistas que
inventaram os empréstimos “sub prime” a juros iniciais baixíssimos para atrair os
incautos, os ingénuos e, sobretudo, os sonhadores do “sonho americano”. O
sonho americano que transformou em pesadelo para milhões de famílias, que
perderam a casa, a camisa e o sonho dos seus sonhos. Os emprestadores de dinheiro
representaram o papel da nossa mãe Eva tentando Adão com a bíblica maçã da
perdição. E os bancos, os emprestadores, os corretores e os vendedores participaram
todos nessa cabala de iludir os incautos, os ingénuos e os sonhadores,
elevando o preço da habitação a níveis fantásticos.
E a responsabilidade de todos esses comparsas na farsa do “sub prime” foi
não explicarem aos simplórios compradores que os tubarões da Wall Street
esperavam apenas que eles caíssem na rede, e eles depois os comeriam vivos. Mas o
desastre económico e financeiro que causaram não atingiu apenas os ingénuos, mas
os próprios bancos e emprestadores, muitos dos quais estão também à beira da
bancarrota. A importante firma financeira Merril Lynch acaba de revelar perdas
de 8 biliões de dólares. No entanto, os que geriram as vendas dessas
propriedades têm o dinheiro das suas chorudas comissões bem guardado. No final, esses
foram os únicos que ganharam com esta orgia financeira, que alguns receiam
poderá lançar o país numa depressão. São mais de dois milhões as propriedades em
bancarrota, para serem vendidas em hasta oública. E os mesmos tubarões que
ontem venderam as casas a preços milionários esperam comprá-las agora a preços de
miséria. Estes são os espertos, os que ganham tanto na subida como na descida.
Outra entidade bancária envolvida na negociata é o Bank of America, por acaso
o meu banco, que já anunciou a intenção de mandar para o desemprego três mil
dos seus trabalhadores. Segundo o New York Times, alguns economistas receiam
que este desastre no negócio das hipotecas venha a custar às firmas financeiras
400 biliões de dólares. E cada bilião, como se sabe, tem mil milhões. Mas o
desastre humano que causou aos compradores de casas, que estão sendo despejados
da casa com que sonharam, é mil vezes pior. Não é difícil ajuizar o que este
desastre causa nas famílias, especialmente nos jovens que, depois de gozarem
uma casa nova com todos os confortos, são obrigados a voltar ao passado de uma
casa desconfortável, a outra escola ou a uma vizinhança indesejável. Para
esses jovens o desastre deve ser traumatizante.
A prosperidade fictícia gerada pela onda do “sub prime” era citada pela
actual governação como uma prova de que o corte dos juros aos capitalistas ricos
do país era gerador de riqueza e prosperidade. Mas a prova dos nove está aí.
Com a manipulação do dinheiro, gerou-se “riqueza” que não existia na realidade.
Diziam os órgãos de Washington que a inflação estava controlada. Mas que
maior inflação pode haver do que uma casa que hoje vale 250 e no mês seguinte
“vale” 300.000 dólares. Não será isto inflação, e da pior espécie? E no meio deste
descalabro e de uma guerra sem fim à vista, o valor do dólar é cada vez menor
e compra cada vez menos. E foi isto que os políticos e os homens do dinheiro
arranjaram para nós todos.

• • •

Pai Sol

No cimo do firmamento
Anda o Sol em dobadoira
Grande fornalha de lava.

E já pensaste algum dia
Que sem o Sol nada havia
E o mundo seria nada?

Aqui para nós, mesmo a sério
- Porque é grande este mistério
Já pensaste algum dia
Que sem o Sol nada havia?

Sol!
Pai, irmão e criador
Deste o perfume à flor
Aos animais o desejo
Aos homens deste o amor
Visão de mundos irreais
E esta luz com que vejo.



Voltar à primeira página desta secção

Voltar à primeira página desta edição


Copyright © 1997/2001 The Portuguese Times
Autorizada a reprodução de artigos publicados nesta página desde que mencionada a origem