Repiques da Saudade

 
Ferreira Moreno



Alfinetes & Agulhas

É p’rós alfinetes, trata-se duma expressão muito antiga e curiosa, que se
emprega quando se guarda ou se oferece dinheiro p’ra pequenas despesas pessoais.
Tal advém duma velha tradição, evocando a importância que as senhoras
costumavam reservar p’ràs suas despesas particulares. Esse dinheiro provinha, quer de
rendimentos próprios quer de determinados economias.
Antigamente era caríssima a venda dos alfinetes e era costume adquiri-los nos
primeiros dias do ano, conforme o testemunho de Carreiro da Costa. (Costumes,
Tradições & Turismo, Maio 1952). Aparentemente os dias das compras dos
alfinetes eram dias de festa p’ràs senhoras. Mais tarde, tudo isso caiu em desuso
quando os alfinetes passaram a ser vendidos muito baratos, dando azo ao aforismo
“Não vale a cabeça dum alfinete”, como indicativo de qualquer coisa sem
valor.
Evidentemente que a expressão “dinheiro p’rós alfinetes” ainda subsiste,
pois que há pouco, duma pessoa amiga que lê as minhas crónicas, recebi um cheque
p’rós alfinetes. Tão cativante deferência motivou-me a rabiscar estas linhas.
Reveste-se de interesse o artigo do Código Civil, mencionado por Carreiro da
Costa, estabelecendo que “a mulher não pode privar o marido, por convenção
anti-nupcial, da administração dos bens do casal, mas pode reservar para si o
direito de receber, a título de alfinetes, uma parte dos rendimentos dos seus
bens e dispor dela livremente”.
Voltando aos tempos antigos, recordo que achar um alfinete e apanhá-lo era
sinal de que alguém nos queria bem, ou pelo menos estava a pensar em nós. Além
disso, o alfinete era igualmente considerado, outrora, como objecto de apreço e
estima. Quando alguém oferecia um alfinete, o gesto era considerado como uma
espécie de galanteio, ou então um subterfúgio p’ra apanhar um beijinho.
O dr. Luís da Silva Ribeiro anotou a seguinte particularidade: “Prender um
alfinete no vestido da noiva, ou guardar alfinetes que tenham servido à noiva,
atrai casamento”. (Obras, Volume I, Edição 1982). O simbolismo amoroso dos
alfinetes, juntamente com as agulhas, ressalta nesta quadra popular: “Alfinetes
são ciúmes/Agulhas variedades/É o manjar dos amores/Quando vivem afastados”.
Ao contrário do que acontece com o alfinete, quando se acha uma agulha é
sinal que algum malefício nos aguarda. É crendice que sonhar com agulhas acarreta
agruras. Diz-se até que a agulha é portadora de males sempre que alguém, por
infelicidade, se espeta com ela. P’ra evitar ferida perigosa, deve espetar-se
uma cebola com essa agulha, e rezar: “Agulha, agulhão/Chagarás este fruto/Mas o
meu corpo não!”
O dr. Luís Bernardo Leite de Ataíde, no capítulo “influências da Feitiçaria
na Linguagem do Povo Micaelense”, (Etnografia, Arte & Vida Antiga dos Açores,
Volume III, Edição 1974), demonstrou que as agulhas e os alfinetes são usados
em artes mágicas e nas práticas de muitos feitiços. De salientar, por exemplo,
o processo em espetar alfinetes ou agulhas numa imagem de qualquer pessoa, com
a persuasão de que tal irá ocasionar dolorosas picadas a jeito de vingança,
deixando a pobre vítima a lamuriar-se: “Eu bem queria saber/Quem é que me anda
a picar/Com alfinete a valer/Para as mãos lhe ir cortar”.

No segundo volume de “Crenças Populares da Ilha Terceira”, J.H. Borges
Martins referiu que “não se deve emprestar uma agulha sem linha enfiada, porque
tira a sorte à casa e causa discussão entre as duas pessoas”. Igualmente advertiu
que “a agulha que coseu a roupa dum defunto serve p’ra um rapaz que vai às
sortes (inspecção), levá-la presa em si, a fim de que fique livre do Castelo
(serviço militar)”. Em contrapartida, quando se encontra um alfinete ou uma
agulha, junta-se e faz-se uma cruz (Padre, Filho, Espírito Santo) no local, p’ra
evitar qualquer mal ou falso testemunho.
Meter agulhas por alfinetes significa trabalhar duro p’ra ultrapassar
dificuldades. Andar com a alma alfinetada é o mesmo que dizer que andamos
preocupados. Passar alguém pelo fundo duma agulha indica intrujar ou enganar o próximo. A
uma pessoa muito enfeitada diz-se “estar de vinte e quatro alfinetes”.
Duma enciclopédia de provérbios mundiais, apresento os seguintes: Agulha em
palha, difícil é de achar. As más agulhas fazem as más costuras. Agulha com
linha nunca se perde. P’ra onde vai a agulha, lá vai também a linha. Agulha e
linha trabalham bem juntas. Inesquecível, sem dúvida, a sentença de Cristo: “É
mais fácil um camelo entrar pelo buraco duma agulha do que um rico entrar no
Reino de Deus”.
E já termino com uma adivinha em quadra: “Sem cabeça e sem assento/E sem
pernas põe-se a andar/Sempre de tripas arrastas/Aos encontrões a furar”.

 


Voltar à primeira página desta secção

Voltar à pimeira página desta edição


Copyright © 1997/2001 The Portuguese Times
Autorizada a reprodução de artigos publicados nesta página desde que mencionada a origem