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NAS DUAS MARGENS
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Três Poemas de Frank X. Gaspar: Um Outro Lado do Nosso Espelho
Tenho-me dedicado à obra de Frank X. Gaspar (ficção e poesia) desde há
alguns anos a esta parte, tanto em ensaios críticos publicados em revistas
académicas da especialidade, como em traduções, também destinadas a várias
publicações de língua portuguesa. Nos Açores, publiquei algumas dessas
traduções da sua poesia no Correio dos Açores, no extinto Suplemento
Açoriano de Artes e Letras da Saber (Ponta Delgada), no Vento Norte (Diário
Insular, Angra do Heroísmo), coordenado por Álamo Oliveira, assim como na
revista literária Magma (Câmara Municipal do das Lajes do Pico) cujo número
3 (Dezembro de 2006) foi coordenado por Urbano Bettencourt, tendo dedicado
um suplemento completo, intitulado "A Noite dos Mil
Rebentos", a traduções
da poesia mais recente; nos Estados Unidos, na página literária Maré Cheia
coordenada por Diniz Borges no The Portugueses Tribune e na revista
Gávea-Brown (dirigida por Onésimo T. Almeida e George Monteiro), que desde a
sua fundação em 1980 até hoje permanece a única fonte regular de divulgação
de estudos luso-americanos nas mais variadas formas: ensaio, crítica,
ficção, teatro e poesia.
Sobre a biografia e obra do poeta luso-americano de descendência picoense
(terceira geração), lamento mas o espaço aqui não me permite dizer muito,
quero dar lugar à poesia, confiando que o leitor mais interessado poderá
descobrir muito através de outras fontes, na net e em papel. Falei dele pela
primeira vez num encontro comemorativo da literatura luso-americana da Yale
University há uns bons anos ("Leaving Pico de Frank X.
Gaspar: A Reinvenção
da História Num Romance Luso-Americano"), viajámos
juntos inter-ilhas na sua
primeira e comovida descoberta dos Açores, onde o vi e ouvi falar com velhos
baleeiros da sua ilha ancestral, bebi cerveja com ele aqui no divino Pópulo
e recitei na minha casa para amigos comuns, ante o seu sorriso de
"açoriano"
regressado, alguns dos melhores versos da nossa "memória
americana".
Frank X. Gaspar é natural de Provincentown, mas vive na Califórnia há muitos
anos, onde lecciona escrita criativa na Long Beach City College. Trabalha
neste momento num segundo romance a ser publicado brevemente, e que será o
segundo volume de uma trilogia iniciada com o já mencionado Leaving Pico,
romance que viria a ser traduzido em Portugal com o título Deixando a Ilha
do Pico (Salamandra, 2002). O seu livro de poesia mais recente intitula-se
Night of a Thousand Blossoms (Alice James Books, 2004). Entretanto, Frank X.
Gaspar (cujos livros foram quase todos premiados ao longo dos anos) continua
também a publicar poesia com regularidade nalgumas das mais prestigiadas
revistas literárias dos Estados Unidos.
***
I Am Lamenting the White Kerchief
- after a line by Adelaide Freitas
I am lamenting the white kerchief of our good-byes,
I am lamenting the fluttering the wind makes among
so many bare limbs in those trees that line the winter ditches
of
This is to say that our parting was a surrender. This is
to say that certain trees, having nothing to do with us,
were suddenly standing at attention, paying every small notice.
I am lost. There is no hope for me. I am mired in the language
of the heart, for which there is no translation. Our farewells
ridicule us. What does your heart say now? What are your
sleeping eyes fastened upon? You should have let the wind
mother you. I should have let the trees guide me like a father.
And the heart: that hero, that monster of all our surrenders.
Estou a Chorar o Lenço Branco do Adeus
- Depois de ler um verso de Adelaide Freitas
Choro o lenço branco das nossas despedidas,
Choro a agitação do vento a soprar entre
tantos ramos nus das árvores que orlam os sulcos de inverno
de - onde? Onde passeávamos e passeávamos nos
pequenos montes, aí onde as árvores se alinhavam, tão determinadas? Tão
firmes?
Tudo isto para dizer que a nossa despedida foi uma rendição. Tudo isto para
dizer que certas árvores, nada tendo a ver connosco,
se quedavam subitamente atentas, lançando sobre nós um breve olhar.
Estou perdido. Não há esperança para mim. Estou afundado na linguagem
dos afectos, para a qual não há tradução. As nossas despedidas
ridicularizam-nos. Que te diz agora o teu coração? Em que se fixam
os teus olhos ensonados? Devias ter permitido que o vento
te acarinhasse. Eu devia ter permitido que as árvores como pai me
encaminhassem.
E o coração: esse herói, esse monstro de todas as nossas rendições.
The Old Country
My mother would never sweep at night,
would never let us sweep. The broom
rustling, she said, would bring the dead up.
There was a dance to make you shiver
on the kitchen's rotten linoleum.
I saw her cry out once in rage and grief,
pour lighter fluid from the can,
a stream like piss, emptying
her life on the floor. I'll burn
this God-damned house down. We never came
from the old country to live like this.
We meant not ourselves but the os velhos,
that lean boat from Pico.
My stepfather could not calm her
and found his own rage, knowing somehow
that he had been beaten. He kicked her shins
and refused to weep as we did.
This was a house making its own ghosts.
You learn someday to lie
with your head pressed down,
to roll their names in your hands,
the cool floor's grit on your cheek,
to call up their old country we only knew
in stories. The voices of the dead
are never what you expect, distant thunder
in the low hills, the dog's howl
at the far end of town, silence.
And this old country is any place
we have to leave. The voices
calling us back are dust.
I have traveled to the far edge
of a country now, fearing the dead.
They still want to speak with my mouth.
Torrão Natal
Minha mãe nunca varria à noite,
nunca nos deixava varrer. O ruge-ruge da vassoura,
dizia ela, acordaria os mortos.
Aqui está uma dança para te fazer tremer
no chão gasto da cozinha.
Uma vez vi-a chorar de raiva e dor,
A derramar gasolina de isqueiro,
como uma ribeira de mijo, vazando
a vida no chão. Vou queimar
esta maldita casa. Não viemos
da nossa terra para agora vivermos assim.
Falávamos não de nós, mas dos velhos,
Daquele pobre barco do Pico.
O meu padastro sem conseguir acalmá-la
caía na sua própria raiva, dando-se conta de
que também tinha sido vencido. Pregou-lhe uma canelada
e recusou-se chorar como chorávamos.
Era uma casa clamando pelos seus próprios fantasmas.
Um dia aprendemos a deitarmo-nos
com a cabeça presa entre mãos,
recordando os seus velhos nomes,
o pó frio do chão na cara,
para lembrar esse torrão-natal que apenas conhecíamos
das histórias. As vozes dos mortos
nunca são aquilo que esperamos, trovão distante
nos montes baixos, o uivar do cão
ao longe, silêncio.
E este torrão-natal é um lugar qualquer que
tenhamos de abandonar. As vozes
implorando o nosso regresso são ilusórias.
Agora já viajei até ao fim do mundo, temendo os mortos.
Insistem ainda em falar através de mim.
in The Holyoke, Northeastern University Press, 1988.
I Am Not a Keeper of Sheep*
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse
How little I know about the world when I let him in,
even though I now can¹t remember the day or time,
I can¹t remember what random thought guided my
hand in such an innocent act. I say this because it is
of no importance whatsoever on a hot August night,
a drink by my elbow, the cat speaking his mad language
against the window screens, and the blossoms of
so many papers and books in a desultory mess in the little
room. I have been reading without decorum or discipline
the shelves are manic, nothing takes its civil place
according to alphabet or color or size. The center
cannot hold because it was never there in the first place.
One must not let Pessoa across the threshold. I can say
this with a sober mind for just a while longer. He sits
so unassumingly at the table and you just give him a small
drink, a he begins to speak to you, and then you realize
your day is ruined, your plans will come to nothing, you
will end by trying every subterfuge you know to get him
to leave, but he will wait and wait. And he is so charming!
He will tell you stories, and you will recognize yourself in every
sentence you will understand quite quickly that he is mocking
you, but then you will begin to doubt that, for he is so sincere,
so simple in his utterance, so passionate in his beliefs. How
can you not offer him another cafezinho, which I do, which
he sips noisily but with a certain finesse. Then I begin feeling
sorry for myself that old sorrow and I wish that someone
a long time ago cared for me enough to warn me, to tell me never
to let Pessoa into my kitchen, never to let him go on and on
about his sadness, that sadness that never leaves him no matter
how happy or content he feels, for then there is no hope for him
and none for me, and he at least has his genius to sit with, his
personalities, his Lisbon, his Tagus, and I, like you,
will have to settle for his company, wry, effacing, enigmatic
too delicate for hearty jesting, too prickly and gloomy to be
of any real use around the house. Then the hours do not grow
late in the same manner. The rooms do not simmer and cool
in quite the way that I have become used to. The doors are
no longer silent in the hinges. The planks in the floor begin
their own conversations. So many things become impossible.
He drags a match across the abrasive strip of the matchbox.
The phosphorous makes its shushing sound. He lights another
cigarette. His fingers are so white, so slender, his wrist is like
a girl's wrist. I am not a keeper of sheet, he says.
The night
will be long and soft with stars and the heat and the ticking
of one heart or another. He leans in the chair with that
uncertain charisma, that narrow head. I can tell he is here to stay.
Eu Não Sou Um Guardador de Rebanhos
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse
Quão pouco eu sabia do mundo quando o deixei cá entrar, e
mesmo que agora já não me lembre do dia ou da hora,
não me recordo do pensamento desconexo que me conduziu a
mão para tal acto inocente. Digo isto porque agora já
não tem importância alguma numa noite cálida de Agosto,
uma bebida à mão, o gato a falar a sua linguagem louca
contra as persianas da janela, o florescimento de
tantos papéis e livros num desarranjo confuso daquele
quarto tacanho. Tenho estado a ler sem decoro nem disciplina
as estantes estão desarrumadas, nada ocupa o seu devido lugar
segundo uma ordem alfabética ou por cores ou tamanho. O
meu equilíbrio interior desfaz-se porque nunca existiu em primeiro lugar.
Nunca devemos deixar Pessoa entrar nos nossos domínios. Poderei afirmar
isto com toda a seriedade só por mais um pouco. Ele senta-se
à mesa tão descontraidamente, dás-lhe uma
bebidazinha, ele começa a falar-te, e em seguida dás-te conta de que
o dia está arruinado, todos os teus planos não chegaram a nada, acabarás
por tentar todos os subterfúgios que conheces
para o fazer sair, mas ele espera e fica. E ele é tão agradável!
Contar-te-á histórias, nas quais te reconhecerás em cada uma
das suas frases perceberás muito rapidamente que está a gozar
contigo, mas terás as tuas dúvidas sobre isso, pois ele é tão sincero,
tão simples nos seus dizeres, tão apaixonado nas suas crenças. Como
poderás não oferecer-lhe outro cafezinho, o que faço,
ele sorvendo-o barulhentamente mas com certa elegância. A partir daí começo
a sentir pena de mim próprio esse meu sentimento
antigo e gostaria que alguém
se tivesse interessado suficientemente por mim para me ter avisado, para me
ter dito que nunca deixasse Pessoa entrar na minha cozinha, que nunca o
deixasse falar incessantemente sobre a sua tristeza, essa tristeza que não
o deixa nunca apesar da felicidade e contentamento que
ele também poderá sentir,
pois a partir daí não haverá mais esperança para ele,
e nenhuma para mim, mas ele pelo menos tem a genialidade como sustento, os
seus heterónimos, a sua Lisboa, o seu Tejo, e eu, como
tu,
temos de contentar-nos com a sua presença, resistente, eclipsada,
enigmática, delicada de mais para gracejos de alma,
atormentado e sombrio de mais
para que seja minimamente útil em tarefas caseiras. E depois as horas não
passam do mesmo modo. Os quartos não aquecem e
arrefecem
exactamente como eu já me tinha habituado. As portas já
não se quedam silenciosas nas suas dobradiças. A madeira dos sobrados
enceta as suas próprias conversas. Tanta coisa se
torna agora impossível.
Risca vagarosamente um fósforo na faixa abrasiva da sua caixa.
O fósforo faz o seu barulho habitual. Acende outro
cigarro. Os seus dedos são tão brancos, tão finos, o seu punho parece o de
uma rapariga. Eu não sou um guardador de rebanhos, diz ele. A noite
vai ser longa, amena, com estrelas e calor e o bater
de um coração ou outro. Com aquele carisma indefinido e cabeça pequena,
ele reclina-se na cadeira. Dou-me conta de que chegou para ficar.
De Night of a Thousand Blossoms, Alice James Books, Farmington, 2004.

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