FÓRUM MADEIRENSE


Duarte Miguel Barcelos Mendonça

 

New York, New York
Impressões de uma visita à capital do mundo (3)

No artigo de hoje daremos por concluído este simples registo de memórias
sobre as peripécias vividas na recente visita a esta grande metrópole, ao
relatarmos o que se passou no pretérito 29 de Julho, o nosso último dia em New
York. Tal como no dia anterior, a nossa jornada começou em New Rochelle, mas
com uma significativa diferença: nesse dia despedimo-nos, emocionados, do
nosso amigo António Oliveira, que nos acolhera gentilmente por duas noites. E
com as mochilas às costas e arrastando outra de rodinhas, chegámos novamente
à Grand Central Station, aí por volta das 10:25.
O nosso primeiro objectivo desse dia era o de fazermos o Circle Line Tour,
que estava incluído no programa das excursões de autocarro, e cuja primeira
viagem saía às 11h, de modo a circum-navegarmos a ilha de Manhattan. Saímos
da estação e, já na 42nd Street, pensámos cá para nós que daria para irmos a
pé até ao cais, situado no extremo oeste da rua, e que meia hora daria para
isso… Primeiro começámos a andar normalmente, depois ao vermos os minutos a
andar e ainda estávamos no Midtown, começámos a acelerar o passo… depois
começámos a correr, primeiro devagar, depois mais depressa e finalmente em
modo de full steam ahead. Depois de termos corrido meia maratona, e
completamente banhados em suor, porque a distância era muito maior do que o mapa
deixara prever, chegámos à bilheteira às 10:55h… para sermos informados que a
viagem das 11h já estava completa e que teríamos que optar quer pela viagem das
13h, quer pela das 15h…
Perante uma certa frustração, optámos pela segunda hipótese e decidimos
regressar ao Midtown, de modo a fazermos o circuito do Uptown Tour & Harlem
Treasures. Mas as pernas já não nos ajudavam e optámos por ir de autocarro,
cujo fare, de $2.25 tinha que ser pago apenas em moedas. Por sorte tínhamos
connosco as quantias exactas, e menos de dez minutos depois estávamos na fila
para esta excursão, em double decker bus, à parte norte de Manhattan. E
quando nos sentámos na parte de trás do autocarro e este começou a andar, quase
nem queríamos acreditar na aventura da parte da manhã.
O guia que nos acompanhou nesta excursão foi-nos facultando informações
sobre uma sucessão de buildings que íamos vendo. Passámos pelo Trump
International Hotel and Tower, junto ao edifício da CNN, e numa rotunda onde sob um
alto pedestal, se erguia, altaneira, a estátua de Cristóvão Colombo. E ali
mesmo ao lado começava o mítico Central Park, que já conhecíamos do cenário de
vários filmes. Junto a este vimos, quer alinhadas à espera de clientes, quer
a circular pelas suas ruas, inúmeras caleches, puxadas por cavalos, e ainda
muitas bicicletas de três lugares – que nos deram a ilusão de estarmos em
Singapura, onde são muito populares – destinadas a circuitos turísticos por
entre o verdejante parque. À medida que subíamos uma avenida, tínhamos de um
lado este magnífico espaço verde – o verdadeiro pulmão de Manhattan, segundo
dizem – e do outro, uma fila interminável de prédios, alguns antigos e de
características algo barrocas, que fomos informados tratarem-se das antigas
mansões da aristocracia de outras eras.
Alguns minutos depois passámos junto de uma catedral, que nos informaram
que era o maior templo gótico do mundo, cujas portas de bronze tinham sido
fundidas em França, no mesmo local onde fora feita a Estátua da Liberdade…
Demos mais umas voltas e contra-voltas pelo emaranhado de ruas e avenidas e de
repente estávamos perante o rio Hudson, que se espraiava dolentemente à nossa
esquerda. Momentos volvidos passávamos junto ao mítico Apollo, um dos
treasures do Harlem, onde muitos cantores de renome do actual panorama musical
tinham feito a sua primeira actuação. Outras voltas e contra-voltas se
seguiram e estávamos de novo junto ao Central Park onde vimos a estátua de Duke
Ellington e do seu inseparável piano. Por ser um ladies man, segundo nos
disseram, estes estavam suspensos por várias estátuas de mulheres cheias de calor,
ou seja, despidas… Poucos minutos depois passávamos junto a uma série de
famosos museus, de entre os quais reconheci, pela sua arquitectura peculiar, o
Guggenheim Museum. O Jardim Zoológico do Central Park chamou a nossa
atenção, ao conseguirmos ver alguns animais de grande porte.
Ao chegarmos ao fim do nosso tour, o autocarro atravessou a famosa Times
Square que, por volta das 13:30h regurgitava de gente, ao contrário da véspera
que, por estar a chover, estava quase deserta. E então todos os turistas
que seguiam no nosso autocarro apontavam as suas máquinas fotográficas ou de
filmar, quer para a frente, quer para a direita ou esquerda, num frémito tal,
revelando a natural ansiedade por registar toda aquela grandiosidade de
cartazes e écrans gigantes que nos captavam a atenção.
Terminado esta agradável excursão, havia que almoçar e depois seguir
calmamente – porque tínhamos tempo e já sabíamos a distância a que ficava – até
ao porto e embarque do Circle Line, que ficava junto ao Intrepid Museum – um
museu da aviação que tinha a particularidade de situar-se num porta-aviões –
para fazermos a viagem das 3 horas. Ao chegarmos lá havia começado a chover
ligeiramente, mas ignorámos esse facto e embarcámos, tendo optado por nos
sentarmos na parte interior do pequeno navio. A maioria das pessoas foi para
a parte de trás, para irem mais ao fresco, debaixo de um toldo. Minutos
depois, o barco engatou a marcha à ré para sair da doca e enquanto assim
balouçava ligeiramente, começou a chover torrencialmente. Nisto ouve-se um enorme
grito colectivo…e ficamos sem saber o que acontecera lá atrás… O vento tinha
pregado uma partida e soprara toda aquela água para dentro do barco,
molhando todas as pessoas que se encontravam na parte traseira que, aos magotes e
num pingo, começaram a vir para a frente à procura de abrigo. Apesar do mau
tempo, esta foi uma viagem agradabilíssima, pois tivemos a oportunidade de
vermos Manhattan por um prisma diferente. Da selva de prédios que a
caracteriza, divisámos, uma vez mais o Empire State Building. O guia elucidou-nos
acerca do que víamos, quer à esquerda, quer à direita, indicando ainda o local
onde, meses antes, um intrépido piloto americano havia amarizado um avião de
grande porte, conseguindo salvar toda a gente. Vimos ainda a Brooklyn
Bridge, o skyline de New Jersey, cujos prédios tentam rivalizar em altura com os
de New York, e passámos ainda em frente à Estátua da Liberdade. Quando isto
aconteceu, reparei que toda a gente se deslocou para bombordo, na ânsia de
tirarem uma foto com este monumento em pano de fundo, e reparámos que, de
repente, o barco andava meio de lado… e lembrei-me de ter lido algures que
antigamente, quando os barcos de emigrantes chegavam a New York e esta estátua
surgia à vista de todos, toda a gente corria para a amurada, para vê-la melh
or, fazendo com que o barco se inclinasse para um lado. (Na véspera, quando
fomos à Ellis Island de ferry, este fenómeno não aconteceu.)
Depois destas emoções fortes regressámos a terra firme, e fomos passar o
resto do dia na Midtown. Caía um verdadeiro pé d’água, acompanhado por
relâmpagos e assustadores trovões que, devido ao eco produzido pela altura dos
buildings, parecia que todos os seus vidros se estilhaçavam… E de repente os
cantos das ruas e avenidas tornaram-se em ribeiros, onde a água escorria em
grande quantidade. Tendo deixado a Sandra abrigada na entrada de uma conhecida
loja de electrónica, foi debaixo deste temporal que atravessei cerca de
vinte ruas de modo a ir à loja da NBA comprar um equipamento do LeBron James
para o filho de um amigo meu… Depois andámos a vaguear pela Times Square, a
(re)vermos as lojas de souvenirs, e aproveitámos para pedirmos a uns artistas
chineses que desenhassem a nossa caricatura… e foi assim que decorreu o nosso
último dia na big city.
Se é verdade que New York é a cidade que nunca dorme, não é menos verídico
que os visitantes que ali chegam pela primeira vez tentam dormir o menos
possível, na ânsia desenfreada de tentar ver tudo o que esta magnífica cidade
tem para oferecer, como aconteceu connosco. Já se passou mais de um mês desde
que a visitámos e as saudades são muitas e renovam-se a cada dia que passa…
Mitigamo-las ao vermos as centenas de fotos ali tiradas e, com uma grande
dose de wishful thinking, suspiramos pela próxima visita.



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