CRÓNICA



Diniz Borges

 

 

O Leão do Senado — A Alma do Partido Democrático*

Para todos aqueles cujas vidas nós nos temos preocupado,
Digo-vos que o trabalho continua, as causas persistem,
a esperança ainda vive e o sonho nunca morrerá.

Senador Edward Kenndy em 1980

Quando cheguei aos Estados Unidos, com 10 anos de idade, no agora longínquo
ano de 1968, meus pais foram visitar um primo e antigo sócio de meu avô
quando ele tinha vivido na Califórnia nas décadas de 1910 e 1920.  Jamais me
esquecerei que ao entrar na sala de visitas da casa do primo João Ranchão
(verdadeiro nome João Homem, a alcunha foi-lhe dada porque havia tido várias
propriedades), dei de caras com três fotografias: no centro lá estava uma bela
foto da família, à direita uma foto do Papa Paulo VI, e à esquerda uma foto
do Presidente John F. Kennedy. Foi a minha apresentação à extraordinária
família Kennedy, cujo rebento mais novo, o homem com 47 anos de serviço público
no Senado dos EUA, Edward M. Kennedy, acaba de falecer. 
A história dos Kennedy é sobejamente conhecida.  Uma família com raízes na
Irlanda e de grande prestigio na sociedade americana, que perdeu três filhos
ao serviço do país: Joseph na Segunda Grande Guerra, John como Presidente
dos EUA e Robert como candidato à Presidência em 1968. Daí que cedo, muito
cedo, o príncipe dos Kennedy, como era cognominado, tornou-se o Patriarca de
uma das famílias mais conhecidas e respeitadas no continente norte-americano
e em várias partes do mundo. Daí que o eterno príncipe, embora seguindo os
passos dos seus irmãos, tivesse, simultaneamente, a tarefa árdua de construir
uma identidade original — uma identidade que o permitisse viver uma vida
com significado, uma vida de serviço público.  E fê-lo, tornando-se num dos
melhores e mais influentes senadores na história americana e no grande
pensador e porta-voz do liberalismo americano.
Através de quase cinco décadas no Senado, para o qual foi eleito com apenas
30 anos de idade, pelo estado de Massachusetts, Ted Kennedy, como era
conhecido na família, entre os amigos e até mesmo entre a população do seu estado
e do país, foi responsável por algumas das leis mais importantes que
marcaram a sociedade americana nos últimos 50 anos.  Foi um dos arquitectos
principais da Civil Rights Act, a legislação que permitiu a igualdade aos
afro-americanos; da Hospital Insurance Program Under Social Security for the Aged,
ou seja o Medicare, o seguro de saúde para a terceira idade; do American with
Disabilities Act, legislação que aboliu qualquer descriminação contra
pessoas com qualquer incapacidade física ou mental, do Immigration and
Naturalization Act of 1965, que aboliu quotas especiais para países da Europa
ocidental e abriu as portas a emigrantes de outras latitudes e de outras
etnicidades. Estas, e tantas outras peças legislativas, mudaram o rosto da América. É
que Edward Kennedy, para além de ser um homem do seu tempo, era,
indubitavelmente, um homem com uma visão que ia além do seu tempo.  As centenas de leis
que escreveu, ou que as promoveu no Senado, terão um impacto nos Estados
Unidos para muitas gerações.  É que embora fosse proveniente de uma família de
riqueza e notoriedade, Edward Kennedy passou a sua vida pública a defender o
cidadão comum. 
No começo de 1980, tinha eu 21 anos e produzia um programa de rádio de
língua portuguesa aqui nos EUA, quando Edward Kennedy concorreu à nomeação do
Partido Democrático, o partido que ele adorava.  Foi a minha entrada no mundo
da política estadunidense. Foi a primeira vez que fiz algum trabalho para
uma campanha política. Achava que Kennedy era a resposta para a inércia e o
apagamento de Jimmy Carter, que apesar de ser um homem íntegro, tem sido, como
se sabe, melhor ex-presidente do que presidente. A luta de Kennedy pelo
seguro nacional de saúde para todos os americanos, um dos pontos basilares da
sua campanha, apaixonou-me. E desde então, apesar de não ter conseguido a
nomeação, e de nunca mais a ter cobiçado, Edward Kennedy tornou o combate pelo
seguro nacional de saúde para todos os americanos, a luta da sua vida. 
E a vida de Edward M. Kennedy não foi uma actividade perfeita. Nem que
houvessem vidas perfeitas!  Ele foi, como disse o filho mais velho na cerimónia
fúnebre, um “homem com grandes imperfeições”. Mas foi um homem que
acreditava, intensamente, no poder da remissão.  Um homem com raízes fortes na
Igreja Católica e nos ensinamentos de justiça social vindos das mensagens dos
Evangelhos, mas que apesar das pressões, e actos injustos das hierarquias da
mesma igreja, nunca mudou a sua opinião de favorecer, veementemente, o direito
das mulheres escolherem o destino dos seus corpos. É que Edward Kennedy era
um homem que acreditava no poder da liberdade e nas regras da democracia. 
Teve inúmeras amarguras pessoais, mas nenhum desses sofrimentos o tornou num
homem ignóbil, e cínico, pelo contrário, as tragédias pessoais deram-lhe
vigor e empatia para com o sofrimento dos outros. Daí que tivesse sido o
campeão em peças legislativas que beneficiariam os mais marginalizados da
sociedade americana. Tal como ele próprio escreveu algures: “as nossas
transgressões e fragilidades não devem ser desculpas para nos deixarmos cair, nem tão
pouco a imunidade para que cessemos de trabalhar, de dar de nós próprios para
o bem comum.”
Há ainda que salientar que Edward Kennedy será também relembrado como um
legislador de compromissos, que sabia trabalhar com os seus opositores
republicanos, sem abdicar dos seus princípios. Foram centenas as leis em que
estendeu uma mão aos conservadores, muitos dos quais se tornaram amigos dele, mas
sempre o utilizavam como o cartaz preferido para luciferarem as causas
progressistas do Partido Democrático. Em 1995, após o seu partido ter sido
derrotado nas eleições legislativas de Novembro de 1994, quando muitos dos seus
colegas proponham uma viragem ainda maior à direita, Kennedy foi peremptório:
“há que sermos quem somos e não pretendermos ser quem não somos.”  Tal como
disse o presidente Barack Obama no brilhante discurso proferido nos serviços
fúnebres, Kennedy respeitava os seus adversários porque vinha duma era em
que “o júbilo e a nobreza da política impediam as diferenças partidárias e
filosóficas de se tornarem barreiras de cooperação e respeito mútuo — um tempo
em que os adversários ainda se viam uns aos outros como patriotas.” É que
apesar de durante mais de quatro décadas ser o alvo favorito dos
conservadores, Kennedy orgulhava-se do dístico de liberal e progressista, porque tal
como disse em Boston no ano de 2004, esse rótulo é algo que “uso com honra,
porque significa que estive na vanguarda de assuntos pertinentes que fizeram a
diferença à vasta maioria das famílias americanas.”
Despedimo-nos (eu e muitos americanos) de Edward Kennedy agradecendo a sua
força e a sua visão. Mais do que um liberal, foi um baluarte na protecção de
qualquer americano que não tinha as oportunidades que ele e a sua família
tiveram. Foi um amigo dos portugueses e da comunidade luso-americana no
estado de  Massachusetts e dos  que estão espalhados pelos Estados Unidos. 
Dizemos-lhe adeus, sabendo de antemão que o seu sonho jamais morrerá. O seu sonho
viverá sempre, porque ele o trouxe a várias gerações.  Estou convicto que o
seu sonho de uma América cada vez mais equitativa e mais livre, e de um
mundo em paz, viverá não só nesta, mas sobretudo, nas futuras gerações.

Califórnia, Agosto de 2009
* da alocução feita pelo Presidente Obama nas cerimónias fúnebres do
Senador Edward Kennedy



Voltar à primeira página desta secção

Voltar à primeira página desta edição


Copyright © 1997/2001 The Portuguese Times
Autorizada a reprodução de artigos publicados nesta página desde que mencionada a origem