Notas de Viagem
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Nem sempre Bruxelas
Era minha intenção permanecer todos estes dias extra programa, na cidade de
Bruxelas. Não pensaram assim os meus acompanhantes e, cedendo eu,
deslocamo-nos a uma cidadela próxima de Bruxelas, que dá pelo nome de Dinant.
Dinanderia era a arte de fundir o metal, e repuxar, sobretudo o latão. Se o
lugar deve o nome a essa arte, tem fama por ser um dos lugares mais
defensivos de outrora.
O seu castelo e todo o que o rodeia, daí o nome de cidadela, datam dos
meados do século XI.
Como quase todos os povoados deste centro de Europa, pertenceu a vários
senhores e conheceu muitos donos. Esta região está muito relacionada com
Portugal pois durante muito tempo pertenceu aos Duques de Borgonha dos quais o
Duque Filipe, o Bom, casou com D. Isabel, filha de D. João I e D. Filipa de
Lencastre. A acção enérgica e apaziguadora de D. Isabel exerceu grande
influência na Borgonha, em tempo de grande esplendor do comércio entre Portugal
e a
Flandres.
É tempo de se fazer a verdadeira história dessa influência.
Dinant
Mas não era essa influência que ali nos levava, simples turistas,
procurando beleza e História.
Aquela estava inserta em paisagens do rio Mosa que faz da região um dos
aprazíveis lugares que rodeiam a capital belga e de grande parte da Europa.
A viagem por auto-estrada nada apresentou de especial a não ser a
possibilidade de em poucos minutos superarmos os quase cinquenta quilómetros de
distância entre as duas localidades.
Fácil trajecto, mais ainda o estacionamento. Estávamos bem longe de
Portugal…
A História encontrá-la-íamos em muitas e diversas pedras e ruelas.
A visita à cidadela começou pela igreja do século X, restaurada no XII e
seguintes. Hoje é uma quase ruína, restando-lhe a dignidade das antigas
senhoras ricas e belas, mas sem os atractivos que as fizeram famosas.
Refastelados num restaurante beira-rio, dedicamos a tarde à visita do
castelo.
Existia este para defesa de uma ponte que fazia a travessia das margens do
Mosa, e que possibilitava o trânsito entre muitas das povoações do que é
hoje a Alemanha e a Europa da beira-mar.
O guia que nos calhou em sorte fez várias referências a tempos antigos, não
se esquecendo de focar os trabalhos de Filipe o Bom e seu filho Carlos o
Temerário, sem nunca mencionar D. Isabel. Interpelado, mostrou saber a lição.
O Castelo
O Castelo é uma sucessão de repartições, réplica do que seriam durante a
primeira grande guerra, desenrolada por todos os arredores destas e outras
cidadelas.
Aqui me subiram os rubores à face. Ali encontrei o fabrico da pólvora, do
pão, o tempero das armas, tudo organizado, tudo histórico.
E pensei. O que temos nós nos Açores, onde cada povoação teve uma ou muitas
fortalezas, (em Vila Franca contam-se seis), mas que jazem ao abandono, ou
mesmo completamente arruinadas, conhecendo-se apenas o lugar onde existiram?
Parece que algo começa a mexer. Encontrei há dias num jornal de Ponta
Delgada, um artigo sobre os Canhões da Castanheira, e sei que algumas pessoas,
ligadas à classe militar, andam investigando.
Mas se todas as ilhas foram alvo de piratas, se em todas as ilhas houve
lugares de defesa, porquê não fazer um inventário, mobilizar o que há, tirar
dele rendimento?
Nota à margem: em Dinant, cada visitante paga cinco euros para visitar essa
cidadela. O grupo em que me integrei tinha cinquenta pessoas que fizeram a
visita em cerca de trinta minutos.
É fácil fazer contas…
O regresso fez-se pelas margens do Mosa, belas como muitas de rios de
Portugal, mas muito mais exploradas, turisticamente.

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