PEDRA DE TOQUE
Florianópolis, Ilha de Santa Catarina, Brasil |
Na Praia do Nemésio
A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.
Vitorino Nemésio, “A Concha”
in: O Bicho Harmonioso.[1938]
Hoje escrevo não “da minha praia”, na Ilha de Santa Catarina e sim “na
Praia do Nemésio” estimulada pelo fôlego nemesiano que envolve o lugar neste
Curso de Férias sobre Vitorino Nemésio promovido pela Câmara da Praia da
Vitória.
Respiro Nemésio na Casa das Tias, onde o escritor passou parte da infância
e juventude, e pela bonita Praia da Vitória na Ilha Terceira de Jesus.
Vejo-me de cara com o poeta na ponte pendular entre o tempo e a eternidade,
navego na singularidade do narrador de Mau Tempo no Canal a mexer na composição
do Eu representado, como articulador de coisas que é. Para, afinal, mergulhar
no kronus, expressar o domínio sobre a passagem do tempo, não a
temporalidade linear cronologicamente fechada, mas aquela que nos remete a uma
temporalidade aberta, infinita, por trilhas de suas crônicas de viagens e
saberes.
Meio milênio de existência sobre tufos vulcânicos, por baixo de nuvens que
são asas e de bicharocos que são nuvens, é já uma carga respeitável de tempo,
– e o tempo é espírito em ‘fieri’ (In Insula 1932)
Um desfile de crônicas, como marchas de carnaval, se apresenta cada qual
com a sua fantasia, brilho e cor desde a “Número 1” (Jornal Observador:
1971), o “Encontro de Angra” (de 7/11/1946), autobiografia, disfarces verbais na
crônica do filho pródigo; “Rancho de Reis” — a prosa evocativa de Natal ou
de Reis Magos escrita por Mateus Queimado com a “permissão” de Nemésio,
(Jornal de Vitorino Nemésio:1973), a “Grilhetas”(Diário de Lisboa,1931) que
traz como mote o ofício do escritor à varejo – aquele que tece diariamente
sua prosa e os condicionamentos da produção do escriba, num jogo de
sobrevivência casando prazer com dever ou fazendo da prosa moeda de troca para
pagar o
pão que o alimenta. Deixa-nos a lição de que “O jornalismo é uma arte de
surpresa e instantaneidade como a cirurgia de urgência. Acometem-se as coisas,
– não se tratam as coisas. E por isso a pena periódica trabalha por incisão
e não goza do calmo deslise, tão agradável, das outras penas.” Se nessas
incisões diárias o cronista deixa-se ficar em “carne viva”, o cronista-poeta
rasga o coração deixando fluir a alma por seus dedos que bailam sobre a
máquina de escrever, ora em ritmo de tango, ora em suave valsa de lembranças e
saudades seguindo o “fio bambo de uma meditação ocasional”.
Meditação Ocasional, escrito em pleno gozo de suas férias de verão de 1947,
sem muita vontade de escrever sobre o tema do artigo e enveredar no debate
sobre a existência ou não de uma ciência da Literatura e seu arcabouço
teórico ou sem apetecer discutir a cientificidade da Literatura, inicia com um
passeio delirante sobre a paisagem. “Da minha janela de verão vê-se o céu azul
da praia, e uma linha de acácias e loureiros acusa os ventos do mar. Esta
luz de oiro que precede o pôr do sol e se faz quase lilás na linha de água é
o bastante,...” (In: Viagens ao Pé da Porta, Obras Completas 2ª ed.) A mesma
linha d’água que espio ao longe, o mesmo céu azul que descortino da varanda
de ferro forjado, desta bela casa do século XVIII, com traça da arquitetura
do “Ramo Grande”, em que viveram as tias de Vitorino Nemésio. Os sinos da
Igreja do Senhor Santo Cristo das Misericórdias num badalar fúnebre chamam
atenção para o duplo cortejo que se forma em seu átrio a caminho do
cemitério, uma cena surreal do ritual da morte dando vida ao silencioso espaço
em
dias de verão, digna do mestre Federico Fellini.
No recinto da Casa das Tias, o Curso de Férias sobre Vitorino Nemésio segue
em ritmo animado com leitura de textos, discussões envolvendo professores e
alunos vindos das Ilhas, do Continente, da Diáspora, diferentes vozes e de
distantes geografias que ali se reúnem em torno de Nemésio e sua prolífera
produção literária. Vagueio o olhar inquieto por toda sala. Um álbum de
fotografias que passa de mão em mão traz do passado recente outras vozes que
comemoraram os 50 anos da publicação do Mau Tempo no Canal durante o IV Encontro
de Escritores Açorianos em 1994. “Como tudo isso respira o ar de quem não
vejo!
Em corsos de memória encontro com o Brasil da Caatinga e Terra Caída – A
Jornada do Agreste (1958) a transição entre a Mata Atlântica e o Sertão do
“carcará” e me surpreendo com a intensa beleza descritiva da paisagem
verdejante e a mobilidade da vida seca que escorre lá adiante como o fio d’água
“engolido” pela terra rachada ante o olhar tácido do sertanejo. Crônica escrita
com uma paixão imensa por este Brasil do cangaço que ainda me é tão
desconhecido. Finalmente, me perco por entre as delícias do “O Espírito Santo do
Encantado” em O Segredo de Ouro Preto e Outros Caminhos (1954) onde
transparece a sensibilidade e a sedução da exuberante paisagem tropical, os
conhecimentos históricos e culturais e uma sentida e vivida luso-brasilidade,
numa
atitude que vai além da análise etnográfica do viajante embevecido com o país
ou da voz a falar de “uma realidade histórica solidária”. Tanto é que seu
fascínio chegou ao ponto de mimetizar a linguagem brasileira em Poemas
Brasileiros numa notável homocromia. Vitorino Nemésio se deixou cativar
irremediavelmente pelo sabor, cores e sons da terrae brasilis. Basta avaliar o
relevante lugar que o Brasil ocupa em toda sua obra, visível na poesia, na
crônica,
na ficção, no ensaio, na conferência, na crítica literária. Descobriu as
raízes da brasilidade assentadas na cadência vibrante da literatura de cordel,
do som chorado da viola, da farsa dramática do mamulengo, da dança mística
do Boi-Bumbá, da religiosidade do reisado à folia do Divino do Encantado em
Inhaúma, do ritmo quente do batuque nos terreiros de candomblé e do ondular
sensual da cabrocha no balanço envolvente do samba. Um Brasil tão brasileiro
que despertou a imaginação do poeta, que conquistou o humanista e o cativou
para sempre. Escreveu que Amar é contar. Nemésio contou e amou muito:
terras, mar, ilhas e gente.
Na Praia do Nemésio percebi a dimensão notável do poeta, do cronista, do
hábil narrador e articulador de sentimentos, de palavras, de personagens na
construção do romance Mau Tempo no Canal com seus conflitos sociais e
passionais,com sua visão antropológica e telúrica. Acenos de ternura do homem
por
sua Ilha mesmo longe, no desterro,o desenraizamento sentido e a subjacente
açorianidade – “Como as sereias temos uma dupla natureza:somos de carne e
pedra.Os nossos ossos mergulham no mar.”
Voltei à rotina dos meus dias na Ilha de cá. Na bagagem, o encantamento, a
chama acesa do espírito nemesiano tatuado aqui dentro como a paixão pelas
Ilhas uma sinfonia de cores, de sons, de cheiros, o mar azul profundo, as
gaivotas, a negra areia e a rocha vulcânica.
Relíquias de mim mesma!
Casa da Tias, Praia da Vitória, Ilha Terceira
23 de Julho de 2009

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