DIA-CRÓNICAS



 
Onésimo Teotónio Almeida

 

Um Ramo de Amendoeira, de António Rego1

Na Angra dos anos sessenta tornaram-se rapidamente famosas as “Notas do
Dia” que o jornal A União diariamente publicava. Mesmo sem trazerem assinatura,
todos sabiam quem era por elas responsável. A rubrica fora iniciada pelo
padre Coelho de Sousa, senhor de fluentíssimo verbo, que deixou elevada a
barra quando largou o jornal. Pela mesma altura, no Rádio Clube de Angra, um
programa inovador passara a chegar semanalmente a todos os Açores – o “Hoje é
Domingo” – e o público apercebera-se rapidamente tanto da “aggiornada”
linguagem quanto da refrescada maneira de ver o mundo de um jovem padre que
conseguia traduzir para português e insular vernáculo o novo espírito do então
badaladíssimo concílio Vaticano II, fazendo-o num estilo cativantemente
simples e claro, gracioso e optimista além de profundamente humano.
O mundo deu voltas, Portugal sofreu transformações radicais impensáveis
naqueles utópicos anos sessenta, ruiram mitos e abalaram-se estruturas,
personalidades entraram e sairam da cena política e cívica, encetou-se um novo
milénio que em nada se revelou diferente do costume em termos de transformações
da natureza humana, porém tão pleno de mudanças e surpresas como o final do
anterior. Mas se não se concretizaram as desejadas alterações da história
que tão confiantemente se prometiam nesses nostálgicos anos sessenta, por
outro lado — e felizmente — algumas realidades não mudaram no meio de nós.
Entre elas, a palavra e a voz do padre António Rego que se foi fazendo ler e
escutar no meio de convulsões de toda a ordem nos canais dos média que lhe
foram sendo proporcionados, mas também a que ele foi procurando aceder para se
fazer ler e ouvir. Muitas das suas intervenções escritas (ele tem mais de mil
e quinhentos programas televisivos e são incontáveis os de rádio) foram
reunidas em livros. Os títulos dessas obras captam bem significativamente e
representam da melhor maneira o atrás dito. Senão, lembremo-los: Palavra entre
Palavras, Deus na Cidade e agora este Um Ramo de Amendoeira.
Melhor do que eu poderia dizer, eis como abre uma das crónicas deste mais
recente livro abordando precisamente o tema da mudança:
“Implacável o tempo. Envelhece pessoas e factos, filtra histórias,
reencontra notícias, arrefece paixões, altera ângulos, abre panorâmicas, projecta
luz, atravessa neblinas, cria e evapora mitos. Ingrato, por vezes, com heróis
elege, por uma espécie de capricho, quem lhe apetece, para ser lembrado com
emoção ou odiado por dever cívico. Perde tempo quem anda a juntar pedras
para o seu monumento.” (p. 137)
E a crónica prossegue glosando esse tema das inesperadas voltas e revoltas
da vida, dos furos nos nossos planos, das fintas que a história, individual
e colectiva, nos faz. Ao tema  dessa crónica voltaremos, mas neste momento
queria saltar a outra para não perder o fio da meada com que abri este
comentário. Na verdade, frisei acima o facto de, no meio de tantos safanões e
mudanças, a palavra e a voz do padre António Rego não terem mudado (e até
convenhamos que nem a sua cara mudou muito).  Eis como começa outra crónica:
“Acho que, tudo somado,  o tempo que vivemos é o menos mau dos tempos que
conhecemos da história. Não creio que seja possível apontar um século, uma
década, um ano preciso em que a humanidade tivesse optimizado o seu ponto de
equilíbrio, e os jogos da guerra e da paz, da riqueza e da pobreza atingissem
os graus desejáveis e perfeitos num mundo em continuo movimento.” (p. 167)
Esta postura é a continuação, obviamente numa linguagem dos nossos dias,
daquele mesmo espírito de que tão jovem se revelou portador e que felizmente
nunca o abandonou.  Creio ser essa a marca que atravessa todo este livro: uma
nota de optimismo, de luz, de esperança, de crença na vida e nas ilimitadas
possibilidades dos seres humanos. Tal atitude está longe de ser
desenraizada ou desincarnada, porque o autor tem plena consciência do lado escuro da
humanidade, capaz de Gulags e de Auschwitz, de injustiças e ingratidões que
todos nós mais ou menos já experimentámos e para que também uma vez ou outra
não deixámos de contribuir.  Uma crónica reveladoramente intitulada “Contra a
espiral da melancolia”, termina nestes termos aludindo a Vasco Pulido
Valente, o mais pessimista dos jornalistas portugueses que diariamente zurze o
país com azorragues recheados de desprezo:
“Pulido Valente  diz que Portugal tem muitas  desgraças e poucos  Eças para
as contar. Acho o contrário. Faltam narradores do maravilhoso que acontece
entre nós.” (p. 59)
Perpassa em todo este livro um espírito de compreensão do ser humano nas
suas fraquezas mas também de crença nas suas possibilidades. Há uma harmonia
interpretativa que lhe advém naturalmente da fé e dá sentido às coisas. É um
mundo coerente, inteligentemente articulado e belamente descrito porque
António Rego é senhor de um domínio do verbo, que ele maneja com a arte de um
autêntico escritor.
Não fora tornar este comentário demasiado longo, transcreveria aqui uma
crónica exemplar que capta magnificamente o espírito do autor e exemplificaria
tudo o que acima procurei dizer. Intitula-se “O sacramento do mundial de
futebol” (pág. 151). Mas deixo aqui apenas levantado o véu da curiosidade.
Este livro não é apenas um ramo de amendoeira. É toda uma amendoeira
frondosa, resplandecente de vida e côr, mas também cheia de apetitosas amêndoas de
se comer tanto na Páscoa como em qualquer dia do ano, mesmo pelos não
afectos ao paladar religioso.

 1 Texto lido na sessão de lançamento do livro do Cónego António Rego na
Casa dos Açores da Nova Inglaterra, em East Providence,  Rhode Island,
promovida em conjunto com o LusoCentro, do Bristol Community College. As pessoas 
interessadas em obter um exemplar do livro podem contactar a Casa dos Açores
(160 Orchard Street, East Providence, RI, 02914,  telefone 401-435-6949


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