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O Leão do Senado
A sua voz era inconfundível. E durante quatro décadas atroou nas arcarias
do Senado americano. E com o decorrer dos anos, cada vez mais sonora e
atroadora. Por isso lhe chamavam o “leão do Senado”.
Nem todos escutavam com respeito o seu vozeirão. Porque nem todos
comungavam dos seus princípios liberais e humanitários, progressistas em defesa
de
causas que considerava boas, humanas e cristãs. Ele era, como toda a
família, um cristão devoto e sincero. E essa a razão porque defendia, com
entusiasmo quase evangélico, as causas dos pobres, do progresso, da ciência, da
ecologia, da instrução, da saúde para todos, dos direitos humanos, dos
refugiados
e das mulheres.
Os trabalhadores, os pobres, os imigrantes, os doentes e as crianças
perderam um amigo raro e sincero. Raro, porque Edward Kennedy nasceu com colher
de ouro na boca. Rico por herança paterna, o seu lugar lógico seria na
Banca, procurando enriquecer ainda mais. Mas, tanto ele como os irmãos, preferiu
o serviço publico, não o serviço dos milionários, dos lóbis, dos interesses
especiais. Os seus amigos naturais deviam ser os banqueiros e os homens da
finança, e não os pobres, os doentes, os fracos, os imigrantes ou as
crianças.
Nem sempre foi exemplar a vida de Edward Kennedy. Como humano, cometeu
erros inerentes a todos os humanos. Foi comparsa em alguns escândalos que
ameaçaram a sua carreira, mas o povo de Massachusetts nunca duvidou das suas
qualidades inatas, conservando-o no poder ao longo de 46 anos.
Com a colaboração de elementos do partido da oposição que ele consegiu
conquistar, fez com que prevalecessem muitas das leis que introduziu e os
programas que apoiou. Menos um. Um seguro de saúde para todos os americanos, e
não
apenas para alguns.
Infelizmente, a morte chegou e apagou o som da sua voz, precisamente no
momento em que tal assunto está em discussão acesa no Senado e no país.
Precisamente aquilo que ele considerava a coisa mais importante da sua vida, o
seguro de saúde para todos: “the cause of my life”.
Essa batalha humanitária em favor dos pobres e das crianças ficou nas mãos
de Barack Obama, o Presidente que ele ajudou a eleger e apoiou desde a
primeira hora, quando os líderes do Partido Democrata estavam ainda em dúvida.
Kennedy foi um dos senadores democratas que votaram contra a guerra do
Iraque, e se opôs, igualmente, à guerra do Vietname. Para além das tragédias
que desabaram sobre a sua família, com o assassínio de dois irmãos, e ele
próprio vítima de um desastre de avião, que reteve no leito por seis meses, ele
nunca deixou de crer no destino da América e das causas que sempre apoiou,
como em auxiliar todos os que labutam na “mó de baixo”.
E, como escreveu o “New York Times” em editorial,o seu lema era simples e
nobre: “O trabalho continua, a causa persiste, a esperança vive, e o sonho
nunca morre”,
Assim era Kennedy. Um homem bom, que acaba de falecer, e que a maioria dos
portugueses da Nova Inglaterra nunca deixou de apoiar. Era um amigo nosso e
de todos os imigrantes, e os próprios animais que escolheu para seus
companheiros até ao fim da vida, foram precisamente dois cães de água de raça
portuguesa.

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