Repiques da Saudade |
Memórias do Castelo (1)
O terceirense Manuel Luís Maldonado, sacerdote e historiador, nasceu na
cidade de Angra e foi baptizado na Sé Catedral aos 13 de Setembro de 1644. Após
o falecimento do pai, que era condestável da artilharia do Castelo de
Angra, Maldonado assumiu em 1670 o cargo de condestável, posição que abandonou
em
1674 “em virtude de estar ordenado sacerdote”. Recebeu então a nomeação de
Capelão do Castelo, exercendo ainda as funções de administrador do Hospital
de Boa Nova. Maldonado faleceu em Angra aos 14 de Outubro de 1711.
Do que acima se transcreve, é-nos fácil deduzir que Maldonado não só
residiu no Castelo, bem como conviveu com pessoas que teriam assistido ao
lançamento da primeira pedra p’rà construção do Castelo de S. Felipe, que
Maldonado
declarou ter ocorrido em 1601 (Fénix Angrense, Volume II, pg. 14, Ed. 1990).
Na página 13 do volume supracitado, Maldonado deixou dito: “Logo que o
Marquez de Santa Cruz sujeitou por armas a Ilha Terceira à obediência d’El Rey
Dom Felipe, notou o Sítio do Monte Brazil, considerando nele as
circunstâncias de que só bastava cingir-se com muralhas, para que assim ficasse
tendo a
nominação duma fortaleza inexpugnável, capaz de guarnição de mil e tantos
homens, e com a vantagem de que ficava dominando não só a entrada e saída do
Porto de Angra, mas ainda em toda a cidade ficando-lhe tão sujeita que em todo
a podiam varejar as artelharias e ainda as mosquetarias dela”.
Maldonado (página 14), prossegue com novas informações: “E no que tocava
aos montes eram estes do Donatário, sendo que alguns dizem que o primeiro
possuidor deles foi um homem que por haver passado ao Brazil nos primeiros anos
de seu descobrimento lhe chamaram o Brazil de que este monte tomou o nome.
Logo que El Rey houve por bem que se fizesse o Catelo, foi enviado à Ilha o
engenheiro-mór de Espanha que dizem os mais antigos se chamava João de
Vilhena, sendo por ele desenhado com o admirável artifício engenho a fortaleza
que
a todos consta”.
Com base na referência (página 16) que “é certo serem feitas as obras do
Presídio com pragas, suor e sangue”, Maldonado deixa transparecer subtilmente
que extrema crueldade fio empregada e muita gente foi submetida a trabalhos
forçados na construção do Castelo.
Outras referências fornecidas por Maldonado (páginas 33 e 34), confirmam
com incontestável evidência que as obras do Castelo tornaram-se de grande
importância a El Rey Dom Felipe, apelando e insistindo com os governadores,
impondo taxas e contribuições, enviando navios entulhados de ferramentas,
madeiras e materiais de guerra.
Tanto assim que, “para com mais fervor e menos gastos se findassem as obras
desta fortaleza, decretou a todos os tribunais que, nas sentenças dos
criminosos que merecessem pela qualidade de seus delitos ser lançados a galés,
lhes comutassem a pena remetidos às obras do Castelo de S. Felipe da Ilha
Terceira. Com esta ímpia crueldade purgavam os miseráveis dez e doze anos de
obras, e o pior era que quando livres do fadário na determinação do tempo, a
poucos andados tornavam a elas. E daqui se pode coligir a muita ânsia o
desvelo com que El Rey anelava o fim das obras desta fortaleza, porque ela
dominava não só a Ilha mas as Ilhas, com o seguro de todas as suas conquistas e
embarcações e frotas que nela se refugiariam”.
António Cordeiro (1641-1722), igualmente terceirense, sacerdote e
historiador, escreveu que, passado o ano de 1590, El Rey Felipe tratou de fundar
um
Castelo no Monte Brasil. “É muito de notar que houve logo ali quem exclamou e
disse que na fortaleza fundavam um grilhão p’ra toda aquela Ilha, como o
tempo depois mostrou quanto este dito parece ter sido uma profecia”. (História
Insulana, pg. 265, Ed. 1981).
Aparentemente, no que diz respeito ao início da construção do Castelo, há
quem favoreça o ano de 1591 (data do falecimento de Gaspar Frutuoso), e há
quem se incline pelo ano de 1601. Curiosamente, “já em tempo do Cardeal Rei D.
Henrique se inventou edificar o Castelo no Monte Brazil, o que se não
verificou por divergência de pareceres entre os da governação da cidade de
Angra”. (Ferreira Drumond, Anais da Ilha Terceira, Volume I, pg. 384).
Na próxima crónica apresentarei outras “memórias” de investigadores
terceirenses nossos contemporâneos. Até lá, deixo-vos com este par de quadras:
Quando cheguei ao Castelo,
Voltei logo p’rà direita;
Cortaram o meu cabelo,
Foi a primeira desfeita.
Quando cheguei à Terceira,
Fiquei c’má noite escura;
Ai, triste Castelo d’Angra,
És a minha sepultura.
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