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O Oscar de Hollywood e os portugueses
Segunda feira foi Dia Internacional da Mulher, mas as celebrações começaram
domingo à noite no Kodak Theatre, em Los Angeles, durante a 82ª atribuição
do Oscar, o prémio da Academy of Motion Picture Arts and Sciences ou
Academia de Artes e Ciências de Hollywood.
A americana Kathryn Bigelow, 58 anos, tornou-se a primeira mulher a ganhar
os Oscar de melhor filme e melhor realização com The Hurt Locker, um filme
que importou apenas em 15 milhões de dólares e faturou só 20 milhões por não
ter conseguido distribuidor, mas que acabou tornando-se o filme de menor
bilheteria a receber até hoje o Oscar.
A ideia da criação de uma academia de profissionais de cinema nasceu de
Louis B. Mayer, patrão do então maior estúdio de Hollywood, a Metro Goldwyn
Mayer (MGM), durante um jantar com o realizador Fred Niblo e o presidente da
Associação de Produtores, Fred Beeston. A ideia da academia foi apresentada a
mais de 30 personalidades da indústria num jantar em 11 de Janeiro de 1927,
então sob a designação de International Academy of Motion Pictures Arts and
Sciences e Louis B. Mayer foi eleito presidente da comissão instaladora.
A Academia foi registada a 4 de Maio de 1927 com a designação de Academy of
Motion Pictures Arts and/or Sciences e com o ator Douglas Fairbanks como
presidente. Nesse mesmo mês, e perante 300 convidados de um banquete que
serviu para admissão de mais membros, Fairbanks anunciou a criação de um prémio
que viria a ser o Oscar.
Quem vota no Oscar são os membros da Academia, actualmente 6.000. A votação
é secreta e o sistema de voto foi estabelecido em 1957: as nomeações são
designadas pelos membros de cada categoria, ou seja atores, realizadores,
argumentistas, diretores de fotografia, cenografistas, figurinistas e
sonoplastas votam na respectiva categoria, mas todos os membros votam na escolha
final.
Existem muitos outros prémios cinematográficos, nomeadamente as palmas de
ouro do Festival de Cannes (França) e os leões do Festival de Veneza
(Itália), mas o Oscar continua o mais prestigiado e nos Estados Unidos são
atribuídos no início do ano vários prémios que são sobretudo a previsão do que
vai
acontecer no Oscar.
Entre esses prémios está por exemplo o do Directors Guild of America (DGA),
o sindicato dos realizadores, com 11.500 membros e que também distinguiu
Kathryn Bigelow e o seu filme The Hurt Locker, traduzido em Portugal para
Estado de Guerra.
O filme, que conta a história de uma brigada anti-minas do Exército
americano no Iraque, confirmou uma vez mais que os membros do DAG quase sempre
acertam no vencedor do Oscar e foi também considerado o melhor do ano nos
Independent Spirit Awards (é o prémio do cinema independente e, para concorrer,
o
filme não pode custar mais de 20 milhões de dólares) e nos Producer’s Guild
Awards, o prémio do sindicato dos produtores.
Por sua vez, o Screen Actors Guild (SAG), que é o sindicato dos cerca de
4.200 atores de cinema, também previu o que aconteceria no Oscar ao distinguir
Jeff Bridges, 60 anos, protagonista de Crazy Heart (Coração Louco) na pele
de Bad Blake, um cantor country alcoólatra e fracassado e Sandra Bullock, 45
anos, protagonista de The Blind Side (Um Sonho Possível), papel baseado na
história real de Leigh Anne Tuohy, que adota um jovem negro que se torna
jogador de futebol americano.
Na véspera, confirmando que os extremos tocam-se, Sandra Bullock recebeu
também o satírico Razzie, a Framboesa de Ouro, um prémio cinematográfico
surgido em 1989 parodiando o Oscar e que distingue os piores filmes surgidos ao
longo do ano. Sylvester Stallone é o campeão, já foi nomeado 18 vezes e
premiado 10.
O SAG acertou também nos atores secundários que receberam o Oscar: o
austríaco Christoph Waltz pelo seu papel como um diabólico coronel da SS nazista
em Inglorious Bastards (Bastardos Inglórios) de Quentin Tarantino e a
afro-americana Mo’Nique, 42 anos, como mãe abusiva no drama Precious (Preciosa),
de
Lee Daniels. Além de Mo’Nique, até hoje apenas ganharam o Oscar outras
quatro negras: Hattie McDaniel (E Tudo o Vento Levou), Whoopi Goldberg (Ghost),
Halle Berry, (Monster’s Ball) e Jennifer Hudson, (Dreamgirls).
O mais importante destes prémios que antecedem o Oscar são os Globos de
Ouro, instituídos em 1944 pela Hollywood Foreign Press Association, associação
de correspondentes de jornais estrangeiros em Hollywood, atualmente com 94
membros, dos quais três lusófonos: as brasileiras Ana Maria Bahiana e Pauola
Abon Jacoude e o português Rui Henriques Leiria, correspondente do semanário
Expresso.
Os Globos, realizados em janeiro, atribuiram o prémio de melhor filme a
Avatar, a aventura 3D de James Cameron, que recebeu também o troféu de melhor
realização, mas desta vez a opinião da Academia foi outra.
Nomeado para nove categorias, The Hurt Locker recebeu seis estatuetas
(melhor filme, diretor, edição, argumento original, mixagem de som e edição de
som), derrubando o colosso tecnológico e financeiro (500 milhões de dólares)
de Avatar, de James Cameron.
Por sinal, Cameron e Bigelow foram casados dois anos (1989-1991) e por isso
a atribuição dos Oscar teve este ano o seu quê de disputa conjugal. Avatar
era favorito, competia em nove categorias, mas levou apenas três prémios:
direção de arte, cinematografia e efeitos visuais. Desta vez, Cameron não foi
muito premiado, os membros da Academia talvez tenham achado que Avatar era
animação em demasia, pois tiveram também que ver Up, outra aclamada animação
em 3Dm. De qualquer forma, Cameron não se pode queixar, Avatar já rendeu 2,5
biliões de dólares.
A escolha de Bigelow como melhor realizadora acabou por não surpeender,
recebeu também os prémios da Academia de Cinema e Televisão Britânica (Bafta),
dos Critic’s Choice, a maior associação americana de críticos e das
associações de críticos de Austin, Boston, Chicago, New York, Kansas City, Las
Vegas, Los Angeles, San Francisco e Santa Barbara.
Contudo, a vitória de The Hurt Locker não deixa de ser uma ironia, a
Academia representa os grandes estúdios e estes não querem nada com o chamado
cinema independente, com menos dinheiro e menos recursos, mas com mais
inteligência.
O prémio de melhor filme estrangeiro foi atribuído a O Segredo dos seus
Olhos, de Juan José Campanella, uma mistura de drama com thriller político que
rendeu o segundo Oscar à Argentina, único país sul-americano até hoje
premiado nessa categoria.
Portugal foi um dos 65 países concorrentes com Doomed Love (Amor de
Perdição), de Mário Barroso, versão actualizada do célebre romance de Camilo
Castelo Branco, mas ainda não foi desta vez que conseguiu ser um dos cinco
finalistas. A França é a recordista das nomeações para melhor filme estrangeiro,
com 39, mas a Itália, em segundo lugar com 27 nomeações, obteve mais vitórias,
com dez Oscars, face a nove da França. Nas posições seguintes, ainda por
nomeação, surgem a Espanha, com 19 (e quatro Oscars), a Suécia, com 14 (três
Oscars) e o Japão, com 11 nomeações, mas nenhum Oscar.
Até hoje só um português ganhou o Oscar.
Já agora lembre-se que a primeira vez que os portugueses estiveram perto do
Oscar foi há 73 anos, em 1937 e por interposta pessoa: o actor Spencer
Tracy foi premiado com o Oscar de melhor ator pelo seu trabalho na personagem do
Manuel, honesto e heróico pescador madeirense do filme Captains Courageous.
Em 1988, Jodie Foster também recebeu o prémio de melhor atriz pelo filme
The Accused, inspirado no Caso Big Dan, de má memória para os portugueses de
New Bedford.
Pelo menos cinco luso-descendentes e um português já ganharam a famosa
estatueta dourada. A lindíssima Mary Astor, que se chamava na realidade Lucile
Vasconcellos Langhank e era filha de uma madeirense, obteve o Oscar de melhor
atriz secundária em 1941, pelo seu trabalho em The Great Lie. Nasceu em
Quincy, Illinois, em 1906. A mãe, Helen Marie de Vasconcellos, sonhou ser atriz
e, não conseguindo, investiu na carreira da filha, que se estreou no cinema
em 1920, com 14 anos e aos 19 já ganhava $2.500 por semana. Mary Astor teve
uma carreira fabulosa de 109 filmes. Em 1964, tornou-se escritora e
publicou sete romances e uma autobiografia. Faleceu em 1987, com 81 anos, na
Motion Picture Country House, lar de velhos atores em Woodland Hills, arredores
de Los Angeles.
Tom Hanks, que apresentou domingo a atribuição do Oscar de melhor filme e
conquistou ele próprio a estatueta de melhor ator por Filadélfia (1993) e
Forrest Gump (1994), é descendente de açorianos pelo lado materno. O ator, que
nasceu em 1956, em Concord, Califórnia, é filho de Amos Hanks e Janet
Marylyn Frager, nascida em 1932, em Livermore. Janet é filha de Elenia Rose e
Clarence Frager. Elenia é filha de Manuel Rosa, nascido em 1870 em Portugal e
Nora Rosa, nascida na Califórnia em 1882. Clarence Frager era filho de Manuel
Frager, nascido em 1872 e de Mary Enos, nascida em 1880. Manuel Frager era
filho de Francisco Gonçalves Fraga, nascido em 1847 nos Açores, possivelmente
na ilha das Flores.
Um dos filmes de Hanks, Caminho de Perdição (2007), foi realizado por Sam
Mendes, também lusodescendente e vencedor do Oscar de melhor filme e melhor
realizador com American Beauty, em 1999. O seu nome completo é Samuel
Alexander Mendes, nasceu em 1965, em Inglaterra e do lado paterno descende de
madeirenses presbiterianos expulsos da sua ilha e que se fixaram em Trinidad e
Tobago. É filho de Valerie Helene Barnett, autora de livros para crianças e de
Jameson Peter Mendes, professor universitário, e neto de Alfred Mendes, um
dos maiores autores de Trinidad.
Por sinal, a mulher de Sam Mendes, Kate Winslet, Oscar de melhor atriz em
2009, entregou este ano a estatueta a Jeff Bridges.
Também não podemos esquecer os irmãos Hall Pereira (1905-1983) e William
Pereira (1909-1985), naturais de Chicago. Hall era cenógrafo dos teatros da
Paramount (naquele tempo os estúdios de Hollywood possuiam salas de cinema) e
William era arquiteto.
Em 1942, a Paramount chamou Hall para Hollywood a fim de supervisionar os
cinemas da empresa e, em 1950, foi nomeado chefe do departamento de arte,
passando a orientar todo o trabalho de cenografia. William juntou-se ao irmão
em Los Angeles e um dos seus primeiros trabalhos foi a Motion Picture Country
House em 1942 (onde Mary Astor faleceu). Nesse período, enquanto não se
afirmava como arquiteto, William trabalhou também como diretor de arte na
Paramount, onde produziu meia dúzia de filmes e ganhou o Oscar de efeitos
especiais com Reap the Wild Wind (1942). Foi sobretudo como arquiteto que
William
Pereira se consagrou, assinou mais de 400 importantes projectos como o
aeroporto de Los Angeles, os estúdios da CBS em Los Angeles e a famosa
Transamerica Piramide em San Francisco.
Hall Pereira chefiou 18 anos a direção de arte da Paramount trabalhando em
250 filmes. Foi nomeado 23 vezes para o Oscar, mas recebeu apenas uma
estatueta por The Rose Tattoo, filme baseado na peça homónima de Tennessee
Williams e que valeu também o Oscar de melhor atriz à italiana Anna Magnani, em
1955.
O português mais familiarizado com o Oscar talvez seja Eduardo Serra,
diretor de fotografia. É natural de Lisboa, que trocou por Paris em 1963. Já vai
no 81º filme, a maioria em França, onde pertence à AFC, o sindicato francês
de operadores de cinema, de que foi presidente (1996-1998) e em 2002
tornou-se também membro do ASC, sindicato equivalente americano, devido às
solicitações de Hollywood. Serra foi nomeado para o Oscar de melhor fotografia
em
1977 (The Wings of the Dove), 2003 (Girl with a Pearl Earring) e 2006 (Blood
Diamond) e, embora não tenha ganho, ficou com o prestígio da nomeação que
contribuiu para aumentar uns zeros no cachet. Está nesta altura a trabalhar em
Inglaterra, é o diretor de fotografia dos dois últimos filmes da série Harry
Potter and the Deadly Hallows (Harry Potter e as Insígnias Mortais), cuja
primeira parte estreará em 19 de Novembro de 2010 e a segunda em 15 de Julho
de 2011. Pode ser que Harry Potter tenha magia para dar um Oscar a Eduardo
Serra e, enquanto isso não acontece, o único português premiado com a famosa
estatueta continua sendo Carlos Mattos, por contributo técnico: em 1989,
pela Tulip Crane, uma grua usada, entre outros filmes, no ET de Steven Spielberg
e em 1991 por uma câmara controlada por comando remoto usada pela primeira
vez no filme Cotton Club, de Francis Ford Coppola. Natural de Luanda,
Carlos Mattos veio aos 18 anos para Los Angeles e com três amigos começou a
construir difusores de luz numa garagem, para a Universal Studios e assim nasceu
a Matthews Studio Equipment, da qual já se desligou, mas entretanto criou a
CDM Interactive, empresa de investimentos, a Gener8Xion, empresa fornecedora
de equipamentos para filmagens (um dos seus clientes habituais é James
Cameron) e Venley Star Pictures Team, produtora que já conta alguns filmes,
entre os quais One Night with the King, com Peter O’Toole e Omar Sharif. Carlos
Mattos, 57 anos, é um dos 6.000 eleitores da Academia e, até ver, o único
português detentor do Oscar.
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