Nas Duas Margens
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The Undiscovered Island, de Darrell Kastin:
A Ilha Em Frente
... A solitude as large as the ocean itself.
Darrell Kastin, The Undiscovered Island
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Creio que a primeira pergunta a fazer sobre The Undiscovered Island de
Darrell Kastin torna-se inescapável: Quem é este narrador que a início do
século XXI ainda se interessa pela sorte do clã Canto e Castro e da caída
aristocracia lusitana (falo dos aqui reinventados, não dos da História) que
traça ou confunde as suas origens e sobretudo as suas tragédias com as da
Nação? A resposta, especialmente vinda da plebe letrada, terá de ser sempre
ambígua: um luso-descendente em busca das raízes, ou do seu lugar entre os
seus dois mundos, e obcecado pela grandeza e glória dos seus protagonistas.
The Undiscovered Island reconstitui a seu modo tudo e todos que levaram ao
estado actual da Pátria mais ou menos dormente, os descendentes de velhos
navegadores agora estirados meio bêbados nos cafés locais. Eis aqui neste
romance outro acto de resistência dos que não aceitam e parece que nunca
aceitarão a condição da "vil tristeza", do esquecimento, do branqueamento de
toda uma história trágica que acabou, bom, como sabemos, e apenas nos
ofertou a todos, aristocratas e desgraçados, a possibilidade de fugir em
porões ou em terceira classe rumo à luta pelo pão de cada dia.
The Undiscovered Island poderá ser também lido como uma história da loucura
redentora - enquanto procurarmos a proverbial "ilha em frente", essa outra
que permanece encoberta em nós todos, manifestando-se de quando em quando em
todo o seu esplendor mítico para logo se afundar novamente, saberemos quem
somos, teremos razão de vida, morreremos glorificando os antepassados e
assim garantindo a dignidade dos vindouros. Este longo e denso romance de
Darrell Kastin, autor de raízes maternais açorianas, nascido e residente em
Los Angeles (esse deserto tornado metrópole de outros sonhos e outras
fantasias), é, como toda a boa ou grande ficção, um mergulho real e
metafórico na mítica nacional e das ilhas, no sonhado poiso dos amantes
camonianos, na mística do sebastianismo, no nosso ainda supremo Fado. The
Undiscovered Island está recheado das nossas mais íntimas e canónicas
referências poéticas e literárias, enquadrado em toda a nossa história,
sempre (felizmente) mais imaginada do que confirmada.
The Undiscovered Island, que o insuspeito Gregory Rabassa classifica de
³história detectiva, épica, e em busca da família², é um romance
profundamente marcado pela ternura e pela ironia de como um narrador vê a
sorte dos seus protagonistas, simultaneamente uma negação do hiper-realismo
na arte e na vida dos nossos dias, recorrendo à imaginação febril e
alucinante dos seus personagens, uma visão trágico-cómica de corações em
perpétuo conflito e choro. Esta é já uma distinta técnica narrativa de
outros escritores luso-americanos, como Frank X. Gaspar e Katherine Vaz, nas
suas convocações da nossa mítica ibérica, atlântica e religiosa.
Um Sebastião do Canto e Castro, imigrante falhado e alienado na Califórnia,
escritor mais ou menos obscuro, naturalmente, decide regressar aos Açores,
onde passa a viver os seus dias numa modesta residencial da Horta, rodeado
de livros e papéis, obcecado pelo ressurgimento da Décima Ilha que virá um
dia do Banco - teria de ser! - Dom João de Castro, entre São Miguel e a
Terceira. Estamos nos anos 80, e nas ilhas já nem tanto adormecidas surgem
os mais desvairados rumores ante uma desusada comoção da Natureza: abalos de
terra, medonhas tempestades marítimas, caravelas fantasmas aparecendo e
desapare- cendo no horizonte, histórias de sereias à vista levando consigo
alguns tristes com fome de amor e prazer, a chegada do Apocalipse ou do
Paraíso, os Açores com o "Novembro no coração" de Ismael. Atira-te ao mar em
demanda do Nada ou da Miragem. À procura de seu pai perdido, chega Júlia da
Califórnia, e depois seu irmão, António, ambos concebidos nas ilhas, mas um
deles já nascido na América, cada um sem saber bem quem é, sem a noção clara
de onde e de quem vêm. Estão perdidos, como todos os americanos sem memória.
Nada aqui faz qualquer sentido, como nos sonhos ou delírios desconexos e
doentes, a não ser o reencontro destes dois jovens com o seu passado, com as
suas origens, com o seu legado histórico e cultural. Vindos de uma família
culta pelo lado do pai perdido, Camões, Pessoa e Antero passam a ser-lhes
vozes do seu próprio ser. The Undiscovered Island é de uma fluência e
erudição extraordinárias, uma convocação de todas as nossas mentiras e
desejos, nas ilhas, no país, na Diáspora.
O verdadeiro valor dos Canto e Castro (os desta ficção) e de todos os seus
pares no nosso país foi o seu falhanço e delírios, uma vez mais, de
grandeza, palácios construídos que gerações depois cairiam em ruínas, ou
seriam eventualmente restaurados pelo dinheiro dos plebeus. Ironia pura e
justa. Tivemos todos que navegar novamente, reencontrar a nossa dignidade
nas mais improváveis geografias. Se Deus alguma vez pensa nos portugueses,
que abençoe para sempre Dom Sebastião, eternamente (esperemos) Encoberto, e
que esse mesmo Deus abençoe o ano 1910, quando o povo português se tornou
digno de si e se vingou de todo o seu secular sofrimento.
No fecho de The Undiscovered Island há um acontecimento menor, mas de todo
significante. Um velho Mateus do Canto e Castro morre quase esquecido e
isolado no Rio de Janeiro, no desgosto de nunca ter sido ou vivido o seu
suposto "destino", cheio de medo pelos seus apanhados no meio dos "avisos"
primordiais da terra açoriana e do seu mar de chumbo. A história repete-se
aqui, apesar de Marx: como os infelizes da frota de Pedro Álvares Cabral que
lá foram deixados brutalmente para comerem ou serem comidos, Mateus saboreia
desse modo, num simbolismo aqui um tanto forçado da minha parte, as agonias
do nosso povo no exílio. Júlia e António, numa terna e inesperada viragem do
romance após umas centenas de páginas de dúvida e sustentada alucinação,
acabam bem mais felizes nos Açores - ele reconciliando-se com as suas
origens atlânticas, ela compondo e tocando música com Nicolau, seu amante e
seu comparsa moderno e sem sangue condenado nas veias.
Darrell Kastin, The Undiscovered Island, University of
Massachusetts
Dartmouth, Center for Portuguese Studies and Culture, North Dartmouth,
Massachusetts, 2009.

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