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O Muro de Guernica

Há cientistas que estudam os movimentos de manadas, cardumes de peixe e
bandos de aves em relação aos seus predadores. Da mesma forma estudam a
forma como os seres humanos se comportam em agregado, como se movimentam
quando em risco.
Sabe-se que muitas das causas que provocam as vítimas em incêndios e ou
agrupamentos fora de controlo é exactamente suspender-se a razão e seguir-se
a malta, julgando-se que entre tanta gente é a melhor forma de sair do
perigo, que o grupo os salvará; erro esse que leva muitos a becos sem saída,
a atribulações escusadas e ao desespero.
Na presente crise, o mundo carece em direcção. Ainda que os agrupamentos, as
associações, congressos e colectividades esclarecedoras não faltem, o que é
certo  é que não sabemos aonde vamos, o que nos espera ainda nesta crise.
Poder-se-ia dizer que a crise, como uma aluimento de terras, um grande
tsunami, leva tudo e todos em sua frente. Trata-se de uma situação
desesperante. A aflição das pessoas é grande. Por isso  a  incidência do
suicídio, a depressão, a perturbação e o desespero social crescem. Quem está
no vale experimenta a montanha. Quem no montanha está, experimenta o vale;
emigra-se, trocam-se profissões,  e de nada vale.
Temos um mundo doente, sim senhor, e quem ainda o dúvida?  A doença é, foi o
consumismo insensível, galopante; foi, continua a sê-lo, o materialismo,
anti-espiritualismo humano, o termos deixado falir a fé, a moral e os
valores que são, deveriam ser a base de qualquer sociedade. Por fraqueza
humana, licenciosidade, permissividade e facilitismo; puro laissez-faire
democrático, permitimos empobrecermo-nos em integridade, virtude  e
carácter. Sem contenção, moderação e disciplina moral, construímos esta
crise, tornamo-nos dela donos.
Ocos como Humpty Dumpty, um senhor Ovo que se sentava num muro, mas um dia
caiu desse muro e partiu-se em mil bocados que ninguém consegue juntar ou
consertar de novo, reduzidos em mil pedaços da casca do que na realidade
éramos,  acabamos todos  em qualquer lengalenga de crianças como "Humpty
Dumpty had a great fall. All the king's horses and all the king's men
couldn't put Humpty together again."
Como uma manada segue o movimento dos felinos e chacais, num curso de
auto-defesa e de cálculo, involuntariamente todos nós seguimo-la, mantemos o
olho nela. Num mundo materialista, leviano, tornamo-nos os "capinhas" da
ocasião e os melhores são os Zés-espertinhos, os aldrabões, os trafulhas, os
espertalhões e o Zé Povinho só o que pode fazer é tentar, no seu melhor,
fugir á besta da crise, fingir que não existe, esperar e ver quando chega a
sua vez, julgar-se seguro até ela investir assim à socapa.
Esta realidade para sermos precisos já aí estava há sensitivamente duas
décadas. Tínhamos uma humanidade eufórica, excessivamente, assoberbada,
exacerbadamente desmiolada, presa pela "liberdade" numa libertinagem oca.
Brincava-se ao poder ter-se dinheiro a torto e a direito a qualquer altura.
Brincava-se ao sermos donos desta realidade e ela nos pertencer, mas como
não podemos ter um bolo e comê-lo também, torpe, a humanidade, fingia que
não via, que tudo estava "fixe" - escondia-se por detrás de óculos do Sol, de
panoramas cor-de-rosa, de espalhafato ostensivo, de desregulamento obsessivo
maníaco, nas compras, nas casas novas, nos passeios de cruzeiros - de
excessos de pompa e consumismo descontrolado, o facilitismo
institucionalizado, o crédito plástico, como tapete mágico. Era a cegueira
de José Saramago,  o confiar num sistema que nos engodava a todos.
Em outras palavras demos largas ás nossas vontades, impusemos os nossos
direitos - de alma e coração, vendemo-nos aos valores do mercado, e isso
tinha um preço, o que agora pagamos com a crise. Note-se que nisso tudo,
como já o Marquês de Pombal sublinhava,  por altura do terramoto de Lisboa,
não entra não o factor de Deus.  Deus não é factor nenhum desta crise. O
nosso desregulamento, os exageros da sociedade, do mundo em que vivemos, por
nossa culpa, nossa grande culpa, são o grande factor  deste "Rola-rola que
você diz que dá que dá, você diz que deu na roda, você na roda não deu" como
canta uma cantiga antiga. Fomos nós e mais ninguém que criou esta crise,
esta besta de Armagedão no colectivo.
Humanidade de Judas, vemo-nos, assim,  presos de um casulo de seda, tecendo,
urdindo, entrelaçando, maquinando, estrebuchando sem saber o que fazer. Uma
cultura de excessos, de artificialidades, de superficialidades de lagartas
famintas, acabamos todos pendurados numa árvore, essa a realidade de Judas.
Em resumo, o famoso quadro de Picasso, Guernica, é bem a imagem que se pode
ter desta crise. Como a guerra faz vítimas, como a guerra tem culpados, com
a guerra destrói, como a guerra assenhoreia-se de tudo e de todos,
envolveu-nos, "mea culpa, mea culpa," a todos.
Bichos de seda - abundamos em escritórios do governo, onde as tecemos, mais
do que governamos, encabulámo-nos, mais do que trabalhamos, prevaricamo-nos
mais do que nos estimamos uns aos outros. Dedicamo-nos a rabiscos,
sarrabiscos, enredos de contas, com as quais cosemos e descosemos, apontamos
e despontamos o mundo.
Este muro de Guernica, de fabrico de seda, é um muro que, como raça humana,
teremos que escalar, derrubar ou romper com novas atitudes, as que assentem
na disciplina, moderação, abnegação,   compreensão, integridade e
honestidade cristã, palavra que se tornou tabu na sociedade permissiva que
até aqui nos trouxe.
Está-se no tempo da metamorfose, a metamorfose da humanidade para uma nova
era.
Neste nosso país, que viveu em trinta anos um "comunismo" disfarçado ou
excesso de consumismo, resiste-se, resmungam-se as mudanças. Os novos-ricos,
forçados a serem novos pobres não gostam da nova era de contenção e
disciplina, de responsabilidade colectiva.
Ir-se-hão trocar governos como se trocam as cartas de um baralho, àespera de
melhor mão. Continuarão as festas e touradas "como é dado", na ilusão de que
está tudo normal, que não há crise, que a vida contínua, continuará. O muro
porém está ali e não vai cair. Sem Moisés algum, muitos se afundarão e
morrerão na onda que se fecha e completa este quadro de Guernica da nossa
era..

Silvério Gabriel de Melo - Terceira, Açores
 


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