Comunidade

 

Rumo à Ribeira Quente, 46 anos depois
John Pine, o açoriano que foi “estrela” por 15 minutos no programa
Undercover Boss, da CBS, volta aos Açores

- Por: Alfredo da Ponte

Sim, ao que parece, passou despercebido à maioria da comunidade lusófona o
programa da cadeia de televisão CBS de 24 de fevereiro do corrente ano.
“Undercover Boss”, para quem não conhece esta série televisiva, traduzido
para um português acessível às mais comuns camadas de leitores significa:
patrão disfarçado, escondido, ou qualquer coisa parecida. Para além de ser um
espetáculo de tv, mostra realidades no mundo do trabalho e negócios. Tem
como objetivo principal mostrar ao público a eficiência dos empregados e a
forma como reagem às decisões das firmas e dos clientes. Uma espécie de
“apanhados”. O patrão disfarça-se por entre os trabalhadores durante um determinado
tempo. Por vezes vê coisas que não desejava ver e ouve o que nunca desejou
ouvir. Mas, também acontece ficar maravilhado com certos comportamentos
humanos, ao conhecer trabalhadores que tudo fazem para a firma progredir no bom
sentido. 
O episódio número 5 da terceira série foi dedicado à companhia American
Seafoods, empresa sediada no Alaska, com várias divisões em diferentes pontos
do país, onde se inclui uma fábrica de processamento, com base na cidade de
New Bedford, MA. Com um movimento anual de 450 milhões de dólares, emprega
mais de 1.500 pessoas. É seu propriétário, presidente e chefe executivo, Bernt
Bodal, imigrante norueguês que conseguiu realizar o seu “sonho americano”.
Um dos “apanhados”, aquele que tornou o programa mais interessante naquele
dia é açoriano:
João Manuel Xavier Pina, segundo filho do casal João Manuel Pina e Maria
Xavier, nasceu na freguesia da Ribeira Quente, São Miguel, a 29 de setembro de
1957.
Em 1966 os pais, como tantos outros, pelos motivos mais comuns naquela
altura, resolveram emigrar assentando base em Toronto. Três anos depois
resolveram outro destino: os Estados Unidos. E fixaram residência em New Bedford.
Foi aqui que João completou a sua educação básica, terminando o ensino
secundário em 1977. A ambição levou-o a arranjar um bom emprego e, segundo ele, “os
trabalhos bons, em algumas companhias eram dados somente aos cidadãos
americanos”.
Por isso, João naturalizou-se americano em 1978 e foi trabalhar como
soldador na companhia General Dynamics, sediada em Quincy, Mass. Recorda que, nos
anos setenta do século passado a discriminação de raça era notória,
pressionando os imigrantes a entrarem no “melting pot” e muitos optavam por ocultar
a sua origem. Mas este não foi o caso do João, que sempre sentiu nas veias
o valor da lusa-gente. Mas, pela dificuldade que os americanos tinham em
pronunciar o seu apelido, ao tornar-se cidadão americano mudou o seu nome de
João Pina para John Pine. O orgulho de ser português nunca lhe saiu da pele e
morrerá com ele. E quem o conhece pessoalmente pode bem afirmar isto. Embora
tivesse saído da terra que lhe serviu de berço aos nove anos de idade,
lembra-se perfeitamente do areal da sua Ribeira Quente, que lhe queimou os pés
várias vezes, pelos seus resfolgadouros vulcânicos; dos montes à sua volta,
das sardinhas e dos chicharros que os barcos de boca aberta traziam ao porto
diariamente. Nunca lá voltou mas sempre teve a esperança de um dia levar a
familia à terra onde nasceu.
Em 1980 casou com Rita Manteiga, de quem teve um casal de filhos dos quais
muito se orgulha. Pouco depois do casamento decidiu ficar a trabalhar em New
Bedford, numa fábrica de processamento de peixe, esta que já teve o nome de
New Bedford Seafoods e que, mais tarde, veio a fazer parte do grupo
American Seafoods. De há uns anos até fevereiro do corrente ano, John Pine era o
gerente geral da manutenção. Agora, depois do programa ser emitido as coisas
mudaram.
Tudo começou em outubro de 2011, quando a gerência da fábrica de New
Bedford foi informada que o edifício ia ser filmado para o Discovery Channel e que
alguns dos trabalhadores iam ser entrevistados. Assim, os responsáveis
receberam os nomes dos interessados a falar sobre si e sobre as funções que ali
desempenham. Em princípios de novembro começaram as filmagens e entrevistas
que, desta vez duraram cerca de dois dias e meio. Filmaram um pouco de todas
as áreas, entrevistaram os interessados e prometeram voltar. Ao que consta,
das pessoas que se expressaram diante das câmaras, falando sobre si e do
seu trabalho, o chefe executivo da empresa escolheu um. Neste caso, na fábrica
de New Bedford, John Pine foi o escolhido.
Em meados de dezembro, outra vez vieram os homens da televisão fazer novas
filmagens. Contataram John Pine e disseram-lhe que era muito importante para
o programa filmar com ele um recrutamento de um novo mecânico de
manutenção. Este novo mecânico seria um ator profissional e era necessário que John
lhe mostrasse grande parte das reparações e outras coisas ligadas à
manutenção, a ver se o candidato se qualificava ou não para o trabalho. Assim
aconteceu. O candidato não tinha habilidade para as funções e John quase perdeu a
paciência com ele por algumas vezes. Nas filmagens John foi sempre igual a si
próprio.  Mal sabia ele que, aquele ator era o dono da companhia.
Entretanto, enquanto tudo isto se passava, trocavam conversas de caráter
particular e profissional. John falou de onde veio: dos Açores. E disse que um
dos seus sonhos era ir às ilhas, acompanhado pela família. Porque emigrou
com nove anos de idade e nunca mais lá voltou. Mencionou os Açores duas
vezes.
Passou-se mais um mês. Em janeiro John Pine foi chamado para ir ao Alaska e
compareceu nos escritórios do comando do grupo American Seafoods. E a
surpresa que teve foi a cena mais cómica do programa emitido no dia 24 de
fevereiro. O homem ficou muito aborrecido. Disse que não poderia estar feliz,
sabendo que tinha sido enganado. E, lamentando este facto, adicionou ao seu
comentário, diante das câmaras, que devia ter desconfiado, porque as mãos do
indivíduo que era ator e mecânico eram muito finas e não pareciam estar
habituadas a lidar com parafusos e ferramentas.
Mas tudo acabou bem. Bernt Bodal, recordando os maus momentos que passou em
New Bedford, recompensou John Pine, dizendo que ele é muito eficaz nas suas
funções, que só admite na sua equipa pessoal qualificado e que cuida da
empresa como se sua fosse. Ofereceu-lhe dez mil dólares a mais no seu salário
anual, promovendo-lhe de gerente a diretor. Além disso, deu-lhe mais dez mil
dólares para gastar nos Açores e prometeu levá-lo a São Miguel no seu jato
particular. A viagem será efetuada no dia 19 de Julho e a estadia está
programada para dez dias no Hotel Terra Nostra, nas Furnas, bem pertinho da “sua”
Ribeira Quente.
Registamos aqui os nossos sinceros parabéns a John Pine e aos seus
familiares, fazendo votos de boa viagem e desejando-lhes uma feliz estadia.
Esperamos que gozem muito e que lá voltem num futuro próximo.
De uma coisa temos a certeza: Esta experiência será certamente inesquecível
para John Pine.

 


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