Apelo à paz

 

O dia treze de maio de 1917 está gravado num can­tinho da História de Portugal com brilho inapagável. É um capítulo único no seu impacto espiritual junto dos portugueses crentes. Mesmo muitos dos que não crêem, reconhecem que nada verdadeiramente  se lhe compara.

Meu avô materno nasceu em 1901 e falava-me sempre com vívida emoção do feliz fenómeno de Fátima. Era um homem firme na sua fé e forte no seu físico. Dos dantes quebrar que torcer. Só quebrou por acidente. Já o conheci arrumado a uma bengala mas houve quem o conhecesse bem mais jovem e ainda homem valente, sem medo de nada nem de ninguém. Nunca virou a cara à luta diária duma vida de trabalho honrado e suado até ao limite das suas forças. Labutava, certo dia, na construção inicial da Base Americana das Lajes, quando uma pesada cimenteira avariou e foi logo cair-lhe em cima do corpo soterrado de pronto num fofo monte de areia que ali estava a amaciar-lhe a feia pancada e a poupá-lo ao esmagamento mortal. Foi um acidente pavoroso. Quem lá estava, disse que escapou por milagre.

Meu avô era um crente devoto de Nossa Senhora de Fátima. Desde pequenino, habituei-me a vê-lo man­quejando a custo até à igreja, com particular devoção a cada 13 de maio, para rezar e agradecer à Virgem tê-lo amparado no momento chave daquele dia negro em que teve a vida presa por um frágil fio.

A fé move montanhas. E aglomera multidões a perder de vista por esse mundo fora. Ou por este mundo adentro. O nosso disperso universo português, ainda presente nos quatro cantos do mundo, vibrou em pleno nos passados dias doze e treze deste maio – um século exato após as aparições da Cova da Iria – com a visita emocionante ao Santuário de Fátima do carismático líder da Igreja Católica, o popular Papa Francisco. Quem lá esteve, cerca de um milhão de peregrinos de várias nacionalidades, delirou. Quem apenas viu pela televisão, também não escondeu a sua emoção.

O homem cativa e inspira por onde passa. É aplaudido e adorado como ídolo das multidões que saúda sempre com um sorriso genuíno nos lábios. Um sorriso que se vê vir do fundo da alma. Uma alma boa de pessoa humilde e extremamente simples na sua simpática maneira de ser. Uma simplicidade que se reflete no seu claro apego à mensagem de Fátima – um apelo à paz.

Poética palavra de pronúncia fácil e sonância doce, seduziu-me desde miudinho com aquela sua sílaba só. Cai bem ao ouvido o sossego do seu significado. Sempre me lembro de ter sido um puto pacato. Não me dava com os reguilas do meu lugar. Nasci numa freguesia dividida em dois patéticos partidos sem pés nem cabeça. Custava-me ver gente que se dizia discreta com as costas voltadas, preferindo as brigas às pazes. Pessoal pegado a fundo por puras palermices era coisa que me fazia confusão. Fiz-me rapaz e depressa aprendi que a ignorância é uma das maiores inimigas da paz. Contudo, num lugar pequenino duma ilha pequenina, os desamanhos ainda escapam porque a gente aprende a dar o desconto à burrice humana. Já num país cujo mapa atravessa continentes, quando os conflitos explodem em guerras estúpidas, as coisas complicam-se. E as gentes, sensatas, não perdoam.

Sinto imensa dificuldade em perdoar aos reles líderes da nossa quase milenar nação que então apostaram na vergonhosa Guerra do Ultramar. Sangue desnecessa­riamente derramado. Isto para me cingir apenas ao ruim guerrear do meu tempo de menino e moço. Depois, tive a sorte de ir às sortes quando os nossos militares regressavam de África. Não me queriam na tropa. Agradeci e emigrei. Mal cheguei cá, fartei-me de ouvir filhos desta orgulhosa América queixarem-se do histórico fiasco que foi o pesadelo do Vietname. Nem vale a pena lembrar o absurdo do Iraque, ou Afeganistão, para não mencionar mais. Haverá porventura algum conflito bélico que faça sentido?

Meu avô queixava-se dos efeitos da Primeira Guerra Mundial. Meu pai queixou-se dos pecados da Segunda. A minha geração tremeu ante os estragos da extinta Guerra Fria. E a dos meus filhos teme os perigos da corrente Guerra Feia. Rebentou recentemente em Man­chester e ameaça continuar a rebentar ali, aqui e acolá. Até quando?

Ninguém sabe. Porque o ser humano, infelizmente, vai dum extremo ao outro. Aquando irracional, desce ao pior dos piores, como bem sabemos. Só que eu, como todos os homens e mulheres de boa vontade, prefiro-o no melhor dos melhores. De momento, é o Papa Francisco. Está no topo da lista com o seu distinto carisma e compromisso constante pela paz universal. Poderá parecer uma utopia inatingível, tal como as Aparições de há um século pareceram inacreditáveis. Acredito, no entanto, que o Sumo Pontífice veio a Fátima abraçar os portugueses e portuguesas de boa vontade e apelar-lhes à fé para que não percam a esperança numa humanidade mais pacífica.

Apesar de todos os hodiernos sinais de desânimo, não podemos perder essa preciosa esperança.