Calor cultural

                                                                                         

 

Sou um filho de fevereiro. Nasci na gema do inverno, lá ao norte da Ilha, com o tempo da banda do avesso. Descia dos lados do Pico Rachado um frio que, no castiço dizer de meu avô, era mesmo de rachar cornos. As nossas casas de então, por não disporem do aquecimento com que as de hoje nos confortam, pediam mais agasalho. Valeu-me minha mãe estar bem preparada com uma linda manta de retalhos alinhavada pelas prendadas mãos de minha avó. Coitadinha, já no fim da sua vida, mesmo com a vista a faltar-lhe devido a complicações diabéticas, nunca desistiu e acabou-a a custo. Morava connosco e queria o primeiro filho daquela sua derradeira filha muito bem aconchegado. Morreu antes de eu aprender a dizer-lhe o meu muito obrigado.

Os fihotes dos fevereiros de há mais de meio século, na fogosa lha Lilás, mesmo com a invernia a castigar-lhes a pele fininha sobre os ossos tenrinhos, sabem que não podem limitar a sua gratidão aos papás ou vovós por todo o calor então recebido. Agradecem também à sua terra – a festeira Terceira – nesta fria altura do ano, a ferver em escaldante criatividade cultural. Desce dos palcos para as plateias onde as gentes não tem mãos a medir nos seus aplausos calorosos em louvor do Santo Entrudo.

Desde muito pequenino que o Carnaval do meu torrão natal me caíu cá por dentro como uma gostosa filhós. A gente mastiga, saboreia e deseja sempre mais. É assim a aprazível tradição carnavalesca da Ilha feita palco montado no coração do povo. De facto, não conhece rival na sua animada forma de teatro popular. Nestes dias de abundante folia, por lá, a ilha rodopia de alegria. Por cá, as comunidades movimentam-se também com esse vivo entusiasmo, curtindo rimas e rábulas em troca dumas boas gargalhadas. Quando os Bailhinhos tem graça, a alma saudosa da gente imigrada, que se aglomera nos engalenados salões comunitários, não os substitui por nada. Nada como rir de vontade quando os gracejos são bem redigidos e o enredo melhor interpretado. Carnaval, acima de tudo, deve ser divertimento. Quando não o fôr, perde a piada.

Há quem perca o juízo nestes dias em cata de assunto para rir. Não é para menos. Porque a vida, para muita boa gente e quando menos se espera, vira de airoso mar de rosas para amargo vale de lágrimas. Há almas demais, por aí, depenadas e desesperadas a cramarem a sua sorte. Queixas não faltam. Tristezas abundam. Miséria é a dar-lhe com um pau. Mesmo na terra da abundância, não falta fome escondida a castigar malta lusa, sem eira nem beira, à mercê do deus-dará…

Dá, de facto, muito que pensar mas… – … noutros dias, diz-nos o Carnaval. Nestes, de farra à farta – (tristezas não pagam dívidas) – o melhor mesmo é esquecer tudo e gozar com todos. A festa é do povo. Sempre foi. Nesta quadra de algazarra desmedida, ele faz-se poeta e destrava a língua. Mete-a em tudo o que acha graça. Apraz-lhe rir-se de si próprio mas muito mais de quem lhe pisa os calos ou trama a vida. Arma-se em ator do seu drama virado comédia divertida. Diverte-se, pula, dança, rima, canta e diz o que muito bem lhe apetece sem ter de pedir licença seja a quem for. Para quê…? Não receia a censura, venha ela donde vier. Sobretudo, se se atreve vir de cima para baixo, manhosa e malcriada, ataca-a logo sem quaisquer papas na língua e não lhe perdoa coisa alguma. 

Há quem se pique com certa linguagem porventura mais rude, atrevida ou até ofensiva que sobe ao palco nestes festivos dias. Tenha santa paciência quem não quer ouvir. Tape as orelhas ou fique em casa, porque nada nem ninguém escapa ao mordaz espírito de humor que zela por aí à espreita da tacada precisa no momento exato. Claro que não são só os políticos os fáceis bombos da festa a apanharem pela medida grossa ou por alma da caixa velha. Os alvos do escárnio e maldizer popular, nesta curta quadra de pândega infinda, não poupam vítimas. Arrede-se quem quiser. Salve-se quem puder.

Mesmo que a palhaçada se exceda com uma pinguinha a mais, porque é Carnaval, não há que levar a mal. Levei há e trinta e tal anos a palco, com um grupo de amigos, um divertido bailhinho que nos fez dar a volta à ilha e saborear aplausos que jamais esquecerei. Na rua, as temperaturas faziam-nos bater o dente… até entrarmos nos salões. E tínhamos ensaiado precisamente para isso, para subirmos aos palcos e aquecermos as plateias. É assim na Terceira.  Por mais que o inverno assuste e o frio ameace, nada como o salutar calor cultural daquele seu cativante Carnaval para entusiasmar e divertir multidões – gentes de todas as idades saboreando sorrisos abundantes em agradável ambiente de ótima disposição.