Sinal de sorte

 

Nasci com um sinal escuro gravado nas costas que de forma alguma consigo ver sem a ajuda de dois espelhos alinhados ao mesmo tempo. Há muito que me deixei disso mas, em pequenino, mordia-me a curiosidade de perceber se aquela mancha negra na minha pele alva seria sinal de sorte ou de azar. A Dona Clotilde Barcelos, nossa sim­pática vizinha defronte, mui­to orgulhosa dos seus ocasio­nais dotes de visionária, para não dizer adivinhona, certo dia de sol quente em céu aber­to e eu a brincar em tronco nu, garantiu-me que aquele sinalzinho escondido dos meus olhos de menino e moço queria dizer-me que iria ter uma vida muito feliz. Na altura, fedelho de orelhas meias moucas para os palpites de gente idosa, ri-me e não fiz grande caso. Aquelas palavras, no entanto, tal como o sinal, ficaram-me gravadas... até hoje.

Já com mais cinquenta e tal anos de idade em riba do lombo, confesso que adoro agora manter os meus ouvidos bem atentos às conversas dos mais velhos. Tal como gosto muito que os mais novos me oiçam quando é preciso. O reles rolar do tempo, cada vez a fugir-me depressa demais, ensina-nos muita coisa boa. Talvez a melhor que apreendi com o passar dos anos tenha sido mesmo a de aprender a ser feliz com o que tenho e, sobretudo, com quem sou. Claro que, olhando para trás, poderia sempre ter sido mais isto, aquilo ou aqueloutro mas vejo muita boa gente acabar os seus dias tremendamente insatisfeita consiga mes­ma e isso não me agrada. Prezo a tranquilidade dos meus a sorrirem-me amiúde nesta fase adiantada do meu risonho viver.

Seis décadas vividas com a ajuda da boa saúde é brinde mais do que suficiente para me sentir extre­mamente grato. Acima de tudo, nunca deixarei de agradecer o meu ser eternamente ilhéu. A ilha acolheu-me à chegada, no inverno de 56 e confortou-me à partida, no outono de 78. “Boa sorte, meu filho!” Tive o azar dos rubros cravos de abril, na primavera de 74, terem desabrochado tarde demais para mim. Já nesse tempo me carcomia o bichinho aventureiro e a ilusão de embarcar para longe começou a namorar-me mais de perto. Visitei, um dia, a Base Aérea das Lajes e a América piscou-me o olho antes de me beliscar a alma. “Porque esperas? Está na altura de dares o salto.” Deixei-me seduzir ao tentar emigrar como estudante e também como visitante, mas não calhou. Era um processo arrastado e a minha idade adulta chegou, deixando-me apenas com a espinhosa alternativa de convencer os meus pais a irem-se à minha frente para me poderem fazer depois a respetiva carta de chamada.

Chama-se persistência a virtude magna ‘sine qua non’ conseguimos o que verdadeiramente desejamos. Éramos seis lá em casa, abrigados sob o mesmo teto, com idades compreendidas entre os dez e os setenta. Muito embora eu contasse com a maioria dos votos, de nada me servia esse consolo porque quem mandava era o chefe. Meu pai já tinha vindo à Califórnia de visita durante um ano e pique a moirejar longas horas diárias sem muito descanso de permeio, e lá sabia porque não lhe apetecia voltar. “Ó filho, soubesses tu o que é ao certo a vida de quem trabalha duro na América e talvez não estivesses assim tão inquieto para para pegar e andar sem mais nem menos.” Meu irmão do meio, apaixonado pela noiva e pela ilha, quase chorava para não ter de abalar à toa. Eram os dois votos mais teimosos da casa, e com maior peso emocional naquela crítica decisão, mas lá acabaram por ceder bem contra a sua vontade.

As coisas consertaram-se e cá vivemos dezassete lindos anos em maravilhosa harmonia – nasceram-nos filhos e aos meus pais floriram-lhes netos a rechearem-nos os lares de genuína alegria sempre bem temperada à portuguesa nesta intensa correria de labuta à america­na – até que meu pai se reformou. “A América esfolou-me a carne mas não me vai roer os ossos.” Foi a sua desculpa imediata e toca a fazer a viagem ao contrário na companhia da sua inconformada cara-metade. Minha mãe não era senhora de dizer que não sem mais nem menos e deixou-se levar. Meu irmão apro­veitou a boleia e lá se foi também, com a mulher e qua­tro tenros filhos. Reconstruiu a sua vida linda­mente e, acima de tudo, soube acarinhar os nossos mimosos velhotes na sua dolente descida pelo incó­modo ocaso da vida. Ambos faleceram com o consolo de um filho e quatro netos ali à beira e o desconsolo de dois filhos mais cinco netos mais à distância. É a fatura dura de quem se aventura a ter de andar para cá e para lá, com a casa às costas e o destino à deriva.

Vinte e dois anos depois, meu irmão está de volta para uma oportuna visita. E eu não podia estar mais contente. Abraça-nos um compromisso comum. Esta minha segunda pátria é a mãe dos nossos filhos. Só lhe temos a agradecer tudo o que lhes deu e dá. Vai-nos dar, sem dúvida, um prazer enorme, depois de todo este tempo de ausência, voltarmos a sentarmo-nos à mesa reunidos na celebração de mais um saboroso Thanksgiving. Bem sabemos que não se trata duma refeição qualquer. Trata-se de saborearmos, calmamente, a comida e o convívio em vívida Ação de Graças. Meus pais não desejariam melhor destes seus rebentos gratos por tudo quanto nos deram e esperam podermos de igual modo doar aos nossos filhos. Nada, de momento, me poderia fazer mais feliz.

Acabo de consultar o espelho que não demorou em confirmar-me o curioso palpite da minha velha vi­zinha, a saudosa Dona Clotilde. Tinha toda a razão ao rotular-me aquela manchazinha nas costas como um seguro sinal de sorte linda que de forma alguma pretendo enjeitar.