Morrer de velho

 

Morrer de velho é uma expressão graciosa que sempre ouvi na Terceira. Um dizer castiço e antigo que a linguagem popular adotou com manifesto carinho. Um ancião finava-se sem se saber bem de quê e a curiosa pergunta “de que faleceu fulano?” atraía a típica resposta “morreu de velho”. Envelhecer com a ajuda duma saúde razoável é ambição de todos nós. A morte virá, com certeza, bater-nos à porta a seu tempo. Quem tem a sorte de disfrutar uma vida longa, suspira por um fim sereno e livre de escusado padecimento. Não faltam espelhos à nossa volta de familiares ou amigos envoltos em fins excessivamente dolorosos. Será justo sofrer-se tanto na inevitável ida desta para melhor? 

Perdi meu pai há pouco mais de uma semana. “A América não me vai roer os ossos”, dizia-nos enquanto mourejou por cá com o intuito de ajudar os filhos a encarreirarem a sua vida. A idade da reforma chegou e a Ilha acolheu-o durante os seus últimos vinte e pou­cos anos de merecido repouso gozado em pleno enquanto a saúde cooperou. Calhou-lhe ter levado consigo um dos filhos e quatro netos incansáveis no auxílio que lhe prestaram sobretudo quando ela decidiu  descambar-lhe de mal para pior. As visitas ao hospital tinham-se tornado ultimamente mais fre­quentes. A caminho dos oitenta e sete, qualquer com­plicaçãozinha alarmante pode tornar-se mesmo fatal.

O telefone soou às quatro e pique, coisa pouco habitual. Desconfiei logo tratar-se de notícia temida mas atendi. A conversa durou pouco. Frases secas, curtas e engasgadas, tolheram-me a língua. A emoção não dava para mais. As lágrimas apoderaram-se de mim e o corpo expulsou-me da cama. Pedia café. Fiz-lhe a vontade. Negro, a fumegar e sem açúcar, provocou-me uns arrepios amargos. A morte nada tem de doce. Então a de uma mãe ou de um pai é quase como arrancarem-nos um pedaço de carne viva a sangue frio.

Meu pai era um homem de trato quente, jeito afável. A simpatia em pessoa, no dizer de inúmeras pessoas que gabavam a sua dada maneira de ser. Viveu a vida a seu gosto. Gostava de fumar e não conseguia livrar-se desse reles vício. Fintou-o e desconsiderou-o até às últi­mas consequências. Uma forçada operação cirúrgica à traqueia, afetando as cordas vocais, fê-lo perder a voz e ter de passar a comunicar por sinais. Conversador nato, não hesitou em recorrer à mímica para se ir desenras­cando. Foi um mal menor que aceitou com paciência ao reconhecer-se culpado na azeda alhada em que se meteu. “Com a saúde não se brinca”. Não fora aquele contratempo, segundo o médico, e talvez pudesse ter suavizado um pouco melhor o seu fim.

Complicações no influxo normal do oxigénio indis­pensável a uma respiração adequada foram-lhe casti­gando o coração incapaz de resistir ao desgaste contí­nuo, massacrante. Ainda muito aguentou, até poder. Eu é que não posso perceber esse raio de força bruta que impele uma pessoa a não ajudar-se a si própria en­quanto dispõe dessa opção. Por mais do que uma vez discutimos a sua firme teimosia em não se desfazer do cigarro. Acabaria por fazê-lo tarde demais, depois do susto e da mágoa em admitir que o mal estava feito.

Faz-me bem este desabafo pertinente sobre o fim dos nossos dias e a saúde das nossas escolhas porque, azares imprevistos à parte, antevejo-me como um candidato voluntário a morrer de velho. Só Deus sabe o que está para vir, gostava de dizer meu avô. A meu gosto, porém, ao olhar bem em frente, imagino-me de bengala na mão, barba alva da neve e os netinhos com as netinhas a escutarem-me já bisavô entretido a contar-lhes historietas dos meus bons velhos tempos. Para que isso aconteça, claro que é preciso ter a sorte à espera e a saúde em dia. Sem a cooperação de ambas não será fácil chegar lá.

Cheguei ao fim deste capítulo crucial no livro aberto da minha vida agora ainda mais focada no que me resta de tempo útil por cá. Sem pai nem mãe a segre­darem-me ao ouvido ou a puxarem-me as orelhas, estou por minha conta. Não adivinho o que aí vem nem nada posso fazer quanto ao que me reserva o implacável destino. Sei que é pródigo em surpresas desagradáveis e espero bem não estar na sua lista negra. Se pudesse, à boa maneira portuguesa e na saborosa linguagem da minha terra, transmitia-lhe apenas o meu profundo desejo em não me vir a tornar num velho rabujento. Meu avô não era. Meu pai não foi. Nem os meus filhos querem que o seja. Quanto ao meu neto, já percebe que sou… tolo por ele.

Por enquanto, tenho-me por um tipo discreto. Oxalá assim continue até ao fim digno que julgo merecer. Todos o merecemos. Só que, torna-se pratica­mente impossível todos o conseguirmos. O menos que faltam por esse mundo fora são vítimas de doenças arrasantes deixando-lhes a vida pendente dum frágil fio atado à crítica questão – desliga-se… ou não?

É uma das respostas dificílimas com que nos depara­mos sem pedirmos. Fácil talvez só para a intrusa Dona Eutanásia, a ganhar cada vez mais protagonismo nos nossos dias. Prefere matar para despachar mas não me agrada essa polémica moda nova. Se me deixarem escolher, e a saúde me ajudar, prefiro morrer de velho.