Grandeza d’alma

 

Enquanto vivinho à superfície da Terra, a meu ver, o ser humano define-se no seu melhor pelo espírito solidário em prol dos demais. Quem o faz de forma entusiástica ao longo duma vida inteira, atrai sempre toda a espécie de elogios possíveis e imaginários ao despedir-se deste mundo. Eu percebo que a pessoa boa, humilde por natureza, os dispense bem à última da hora. Mas eu não resisto. O desabafo vem-me de dentro. Cola-se ao reconhecimento pessoal e apreço comunitário por quem tanto e tão empenhadamente fez pelos seus. Os seus, no caso do sr. Lionel Goularte, éramos todos nós em necessidade fosse do que fosse. Ele estava lá, presente e sempre cooperante.

Era assim a sua amável maneira de ser. Viveu a sorrir e a servir pessoas, causas, organizações, até poder. Fomos uns felizardos todos quantos, duma ou outra forma, nos cruzámos com ele antes de partir recentemente. Aos 91 anos de idade, deixa uma vida repleta de brio humanitário com tanto para nos contar. Adorava ouvi-lo e foi sempre um enorme prazer vê-lo bem disposto, sem mãos a medir nem pés a poupar, deslocando-se aonde quer que fosse precisa aquela sua inesgotável vontade de fazer o bem sem olhar a quem.

“De quem és tu, cara porfeita?” Foram as primeiras palavras que me dirigiu ao encontrarmo-nos, há quase quarenta anos, no Centro Pastoral de Newark. Tinha acabado de chegar àquela então bem portuguesa cidade desta cosmopolita Área da Baía de San Francisco, onde os meus pais e irmãos me esperavam. Na minha ânsia de embarcar p’rá América, esgotara as vias de vir de visita e obrigara a família a voar à minha frente devido aos meus adultos 21 anos. E a família, cá de fresco, já falava muito bem dessa extrema simpatia em pessoa que era o impecável sr. Lionel. “Sou filho do casal Cardoso, o Arnaldo e a Ariete”, disse-lhe sabendo que já os conhecia através do Centro. “Vê-se logo pela cara. Mas, se tiveres um coração como o deles, estás salvo.” E sorriu, brincalhão.

Rebento de raízes faialenses, Lionel Bartholomew Goularte, já nasceu cá. A sua jovial maneira de comunicar naquele seu português afável, punha-nos logo à vontade para uma conversa aberta e amiga. Era assim que ele mais gostava. Detestava peneiras descabidas, desnecessárias. Talvez do facto de se ter formado professor e casado com uma professora, ambos lecionando por vocação numa era em que a profissão era bastante mais respeitada, tenha advindo a melhor lição que foi o seu radiante percurso de vida exemplar aos olhos de quem tanto os admirava. O sorriso genuíno da sua atitude generosa contagiava deveras. E inspiraram a valer. Sobretudo quando já aposentados mas sempre fieis às suas origens, decidiram dedicarem-se ainda mais a fundo ao que melhor sabiam fazer: auxiliar em pleno até as forças o permitirem.

Permitam-me aludir que ninguém me encomendou o teor elogioso destas rabiscadas linhas a saltarem-me da mente para o papel com toda a naturalidade. Saem-me francas e sei que não transmitem apenas o que sinto. Garantidamente, espelham também o que sente toda uma comunidade grata e orgulhosa da alma sã deste homem bom que adorava fazer-nos sentir bem. Daí emana o sublime sentimento comunitário que ultrapassa facilmente esta meia dúzia de parágrafos. Claro que uma crónica de jornal não dá.

A longa vida de Lionel Goularte daria um bom livro. Curiosamente, embora o seu zelo filantrópico se tenha repartido por diversas causas e agremiações, foi no seu tempo dedicado à Portuguese Heritage Publications of California que mais contatámos. Mormente, aquando do lançamento de livros cá, no previlegiado espaço que é a nossa biblioteca J. A. Freitas de San Leandro, cidade onde resido há três dúzias d’anos. Convívios e conversas que guardo com imenso carinho, inseparável duma sua honesta biografia.

Se fosse eu a escrevê-la, diria que viveu a vida a dar muito mais do que a receber. Foi sempre esse o seu altruístico lema enquanto vivo e ativo entre nós. O mais novo dos quinze filhos de um lar açor-americano, crescendo na era dura dos anos trinta, não hesitou em agarrar-se às raízes firmes e aos valores fortes que os nossos ilhéus noutros tempos cá cultivaram esperançados numa boa colheita mais tarde. Seria interessantíssimo poder agora quantificar todos os benefícios colhidos por todas as pessoas ou famílias bafejadas ao longo de décadas pelo exímio filantropismo deste fabuloso ser humano. Não creio que tenha medida possível.

Nem acho também que, agora ido, senhor sensato como foi, ele gostasse que andássemos a exaltar o seu nome ou a louvar os seus méritos. Não ia nessas soberbas cantigas. Eu é que não resisti fazer-lhe daqui alguma justiça à minha maneira. Olhando o seu formidável humanismo entre nós, não me parece que um livro ou até uma estátua bastassem para homenagear Lionel B. Goularte em toda a sua grandeza d’alma.