Anedótico político

 

Nascer ilhéu atlântico é privilegio único. Crescer em “ilhas de bruma” sabemos ser sorte só de alguns. Afor­tunados somos os que de lá viemos. Orgulho-me imenso de ter vindo da Terceira de Jesus Cristo – terra boa de gente alegre e vida sã. São os meus pitorescos Biscoitos que me inspiram a escrever assim. Guardo-os bem cá dentro, apesar de nos termos separado há já largos anos.

Despedida dura, sem dúvida, dolorosa – cicatrizou-me para sempre. Bordado no litoral norte da nossa linda Ilha Lilás, esse meu pequeno paraíso natal foi o meu mundo florido de sonhos juvenis até me deixar morder pela reles realidade adulta a segredar-me um dia: “Vais ter que emigrar…”

Conhecia o incómodo verbo do dicionário e pouco mais. Tinha uma vaga ideia do seu dramático peso no fundo da alma ilhoa mas confesso nunca lhe haver prestado demasiada atenção. Muito embora contasse com família a residir na Califórnia e meu pai até já tivesse vindo cá… de visita, com intuito de arrecadar algumas patacas preciosas na ajuda ao sustento do lar. Lembro-me tão bem das maravilhas que nos contou desta fabulosa América então liderada por Lyndon B. Johnson. John F. Kennedy perecera, assassinado, pouco tempo antes. “Grandes presidentes, grandiosa nação!”

“América – The Greatest Nation On Earth”, aliás, era uma noção orgulhosa que os simpáticos militares da Base Aérea das Lages facilmente transmitiam à ilha ao transitarem nas nossas estradas de terra batida com aqueles vaidosos automóveis que quase enchiam o caminho e pareciam dar dois dos nossos. Isto para não falar dos aviões. Quando vi, pela primeira vez, um bruto Boeing da TWA… pasmei. Não era para menos. Apesar de ainda mais pasmado ter ficado quando o fabu­loso Concorde francês levou George Pom­pidou a cruzar-se com Marcelo Cae­tano e Richard Nixon na nossa acolhe­dora Estalagem da Serreta. O tal Nixon do Watergate, man­cha negra na “America – The Great”. A grandeza territorial americana, todavia, já me havia comichado o miolo quando um primo meu, regressado à terra de férias, quantificou o tempo que lhe tinha levado a travessia aérea dos States, desde a costa atlântica à do pacífico. Não queria acreditar. “A América…” – no dizer dele, não era um país – “…é um Mundo.”

O meu mundo, no entanto, resumia-se à minha ilha pequenina mas com tamanho bastante para os meus verdes sonhos de estudante já à espreita de um bom emprego. Queria lá saber de emigrar. Nem quiz, até ver florir, eufórico, o vibrante Abril dos Cravos. A bem-vinda revo­lução rebentou-me mesmo na flor da juventude. Rejubilei, entusiástico, com o aprazível aroma da Liberdade e abra­cei, comovido, aquele novo rumo cheio de políticas pro­messas que soavam tão bem. Só foi pena, no que tocava a bons empregos para a malta, não haver (quase) nada p’ra ninguém. Custou-me bem engolir a amarga pílula. “Vais ter mesmo que emigrar.”

Cheguei cá no outono de 78. Aterrei em Boston após cerca de cinco horas sobrevoando o Atlântico. Depois, mais outras cinco e tal de voo até San Francisco deram-me para constatar a geográfica imponência norte-ameri­cana, então presidida por Jimmy Carter. Mal desci do avião, ofereceram-me logo emprego. Preferi, contudo, atirar-me ao trabalho. E tive sorte. Por sinal, nunca me faltou durante mais de três décadas com Reagan, Bush(s), Clinton e Obama à frente desta poderosa nação sempre “Great”, como o tem sido ao longo da sua gloriosa História.

O meu filho mais velho formou-se precisamente em História. Adora lecionar a disciplina. Como dedicado professor que é, todavia, confessa-se determinado a apren­der sempre mais. A seu ver, nos seus já trinta anos de vida, cada presidente tem contribuído com lições distintas para a opulência estadunidense aos olhos do mundo. “America has always been a great nation”, diz-me sorridente, confiante. Custa-lhe, por conseguinte, apreender o repetitivo slogan de Donald Trump cismado em insistir naquela sua bazófia do “… I’ll make America great, ‘again”. “Again…?” Francamente, só um tipo meio curto de vista se atreve falar assim, recusando reconhecer a grandeza evidente da nação à sua frente. Clara casmurrice política – infelizmente, e para mal dos nossos pecados – esta dele (devido às olheiras que tem) ver apenas o que quer.

‘Tá mais do que visto que o atual presidente ameri­cano, já na casa dos setenta, parece estar a precisar de um bom par d’óculos com lentes graduadas naquele bom senso outrora usado pelo Ti Guilherme Relógio lá na minha freguesia-berço. Trabalhava na Base e, no fim do dia, a caminho de casa, cruzava-se com o Ti Gabriel da Tia Soares, velhote que vivera e labutara em tempos idos cá, na Califórnia. Ambos aproveitavam logo a chance para desenferrujarem ali o seu escasso inglês. “Willy, are those ‘gringos’ treating you ok?”… “Gaby, you know it better than me. Americans are the best. America is always great.” E lá trocavam a sua valente gargalhada, com mais uma ou outra “bulcheta” barata de que já não me lembro. As suas palavras principais, porém, colaram-se-me à memória, traduzidas mais ou menos assim: “Os americanos são formidáveis. A América é grandiosa!”

Quem nasceu ilhéu atlântico, e se atreveu a dar o ‘salto’, não lhe resta a mínima dúvida da grandiosidade americana. Trump, um patriótico bilionário dos ridí­culos, também estava farto de saber isso. Só que, agora, como anedótico político sem escrúpulos, todo inchado naquele seu soberbo muro do “posso, quero e mando”, convém fazer-lhe de contas que não sabe. Eu já sabia que ia ser assim – tentar passar uma esponja suja pelo histórico brio do cessante mandato com assinatura Oba­ma na Casa Branca.

É preciso ter muita lata.

Ou não ter pisca de vergonha.