Do tempo do penico

 

Entrei decisivamente na fase mais ternurenta da vida. Aquela em que a gente se derrete por tudo e quase nada. Não precisamos de muito para que lagrimazinha nostálgica nos venha brilhar no cantinho do olho comovido. Mesmo que não o molhe por fora, pinga-nos por dentro em licor adoçado de memórias meladas em gratos afetos. Quando se entra na casa dos sessenta é mesmo assim. São os netos. E os anos que nos restam, a mingarem-nos, provam-se muito mais preciosos. Os dias que nos faltam, a fugirem-nos, fazem-nos saborear melhor o todo das horas e todos os momentos contam.

Contava-me meu avô coisas do arco da velha que fa­riam hoje o meu neto franzir logo o nariz: “Vavô tem a certeza do que diz?” As duras verdades de há um século, quando os nossos avós eram ainda meninos tenrinhos, seriam hoje dificílimas de engolir pelos nossos mimosos netinhos.

(…) “Manuel, puseste-me a lenha àbrigada? Parece que vai vir chuva e eu preciso dela enxuta p’ra meter no forno logo de manhãzinha. A massa não espera.”

“Tive cá tempo nenhum d’abrigar a lenha, mulher. Viste às horas que parei? Foi sempre a dar-lhe nesse quintal, p’ra trás e p’ra diante, suando como um toiro, a tirar as batatas da terra quase à luz da lua. Tenho este corpo num molhe. O melhor é apagares esse candeeiro qu’a gente tem que s’erguer cedinho. Trato disso de madrugada. Na t’agoneies que na vai chover coisa quê.”

“Tens a certeza, Manuel? Olha que não é a primeira vez que te enganes.”

“Já sei o que queres dizer. Se m’enganar, hei de comer pão duro. Não é?”

“Pois é.”

“Mas, logo que não tiver bolor, sempre dá p’ra enganar a fome. O que não posso enganar agora é o sono co’a excomungada dessa luz acesa.”

“Queres qu’eu apague o candeeiro? E c’ma é que vou remendar as tuas calças às escuras?”

“Ó mulher, deixa-me essas calças da mão. Visto as oitras que vesti ontem.”

“Vestias s’elas na tivessem alagado pingando. Lavei-as e só as pus na corda a secar já à tardinha. Mas c’o este nosso tempo da banda do avesso, esquece-te.”

“Tou-me aqui alembrar, Maria, c’o melhor é desti­narmos um dia destes p’ra irmos à cidade comprar uma roipinha.”

“Com que dinheiro…?”

“Ó mulher, aquele que recebeste anteontem dos bor­dados já ajuda. Depois, se vendermos umas galinhas e alguns daqueles pintos mais grados…sempre deixam uns vinténs. E na te esqueças qu’as laranjas tamén tão quase a modes d’apanhar. É só arranjar maneira d’ir botá-las no Mercado.”

“Por mim, poipava na roipa. Tenho mais precisão duma ‘mánika’ de costura. Não achas que dava mais conta s’eu pudesse ir fazendo serão costurando a roipinha cá em casa?”

“Com que tempo, serva de Deus…?... Acordar de madrugada a bordar, lavar, cozinhar, engomar e limpar sem nunca parar… - não aguentas, Maria! - … e ainda queres costurar p’la noite dentro…?...Tás-me mas é já a costurar o juízo e a espantar o sono. Apaga-me esse diacho desse candeeiro porque o petróleo tá caro que mete medo.”

“Pronto, Manuel. Candeeiro apagado, conversa aca­bada. Amanhã hás d’ir p’rá terra c’o a camisa ‘incunicada’ e as calças meias rotas.”

“E depois…? Não é a primeira vez nem há de ser a última.”

“Eu sei. Mas, o que é que essa gente vai dizer por aí…?...Qu’eu sou uma mulher desalastrada, que nem sequer sabe dar um ponto numas calças?”

“Maria, sabes que mais? Dá-me licença da palavra mas tou-me cagando de ribeira alta p’ró que essa gente diz ou deixa de dizer.”

“Que conversa tola a tua. Tá bem que na t’importes mas tamén não é preciso encheres essa boca de merda sempre que falas de quem não t’agrada. Fica feio e cheira mal.”

“Agora por isso, trouxeste-me o bacio aqui p’ró quarto?”

“Não. Mas tens o penico de barro no arco da chaminé p’ró que der e vier.”

“Tá-me aqui a vir uma dorzinha reles na barriga. Na m’aguento sem fazer as minhas necessidades. Não apagues ainda o candeeiro.”

“Ah! Agora já te convém. Na me digas que ainda tens medo d’obrar às escuras, Manuel.”

(…)

“Vavô, o que era o arco da chaminé?”

“Era onde se cozinhava todos os dias, meu querido.”

“E o penico, o que era?”

“Era onde se obrava no aperto das noites, queridinho.”

“Obrava-se e cozinhava-se dentro do mesmo arco, vavô?”

“No mesmo arco mas não ao mesmo tempo, meu fofo. Era conforme a hora do dia e as necessidades da noite.”

“E quais eram as maiores necessidades, vavô?” (…)

Entrei na fase mais ternurenta da vida e derreto-me quase a chorar de tanto rir com o teor ingénuo destas castiças perguntas porque o humor implícito nas res­petivas respostas cruza-me memórias caricatas do feliz neto que fui com vivências hodiernas do felizardo avô que sou.