Nevoeiro ao pé da porta

 

Está hoje um daqueles dias nevoentos, numa tarde pachorrenta de calor asfixiante, em que a paisagem descora e o corpo entorpece… A literatura açoriana tem vários nomes para isto: azorean torpor, spleen, mormaço, morrinha, pasmaceira, mornaça… Há quem diga que o clima inconstante e imprevisível dos Açores (as famigeradas “4 estações num só dia”) pode potenciar e favorecer a hipocondria, a melancolia, a neurastenia ou a depressão…

Luís da Silva Ribeiro (1882-1955) defendia mesmo a existência de uma relação entre ilha e inspiração poética, entre mar e aptidão artística, entre humidade e indolência…

Aquele etnógrafo terceirense, pretendendo caracterizar a personalidade do homem açoriano, avançava com os seguintes traços identificadores: “O vulcanismo, a presença constante do mar, a insularidade ou isolamento do resto do mundo, a humidade do ar, a nebulosidade do céu, a temperatura oscilando entre estreitos limites, a pressão atmosférica, os vendavais e tempestades, a diferença entre ilhas e continente pelo que respeita às condições geográficas e da paisagem, qualidades morais comuns a todos os ilhéus, a sua religiosidade profunda, espírito de submissão, indolência, imaginação criadora, sentido de perfeição e de pormenor, espírito satírico, certo grau de saudosismo, etc.” (1)

Foi esta influência do meio geográfico no espírito dos açorianos que levou Vitorino Nemésio (1901-1978) a criar, em 1932, o conceito da “açorianidade” (por decalque de hispanidad, criado por Miguel de Unamuno) e que, segundo ele, é “esse amor elementar que não conhece razões, mas impulsos”. Aliás, ficamos a dever ao autor de Mau Tempo no Canal a emblemática frase: “Para nós, açorianos, a Geografia vale outro tanto como a História”. (2)

Somos excessivamente exigentes no que concerne as questões climatéricas que assolam as ilhas. E, bem vistas as coisas, não há razão para tal. Temos um clima temperado marítimo com temperaturas amenas que variam desde os 16ºC no Inverno aos 26ºC no Verão. As temperaturas do mar sofrem influências da Corrente do Golfo, sendo também elas amenas e entre os 14ºC e os 22ºC em média. É certo que no dia-a-dia sentimos na pele os microclimas e os elevados índices de humidade no ar… E o pior é quando os densos nevoeiros se abatem sobre as ilhas e obrigam ao encerramento dos aeroportos ou condicionam a operacionalidade dos mesmos. Todos sabemos que a falta de visibilidade nas pistas tem custos: voos cancelados, voos que divergem para outros aeroportos, atrasos nas partidas de voos programados e… passageiros à beira de um ataque de nervos… Estes, sim, são os “custos da insularidade”. Para compensar, temos, para exportação internacional, o “anticiclone dos Açores”…

É óbvio que estas ilhas são mais apetecíveis sem nevoeiros a cobrir-lhes os cumes, as crateras e as lagoas…. Mas não deixa de haver beleza, mistério e poesia no nevoeiro. É preciso é saber apreciar. No inverno deparamos com estrangeiros, nos seus impermeáveis, a calcorrear alegremente as estradas das nossas ilhas, à chuva e ao vento… E dá para ver que eles não estão propriamente interessados no postal turístico e a cores dos Açores… Há que saber aceitar e explorar o nevoeiro como cosa nostra, tal como os turistas aceitam a bruma e a chuva de Londres durante todo o ano. Acima de tudo, que não nos falte mundividência.

 

Victor Rui Dores

 

 

Post Scriptum: Do aeroporto das Lajes, tomo um táxi para Angra do Heroísmo. Diz-me, espertíssimo, o taxista Miguel:

 

-Isto de andar de táxi, é um luxo! Veja lá: acabo de transportar um passageiro que, viajando em low cost, pagou 30 Euros para fazer Lisboa/Terceira, tendo percorrido uma distância de 800 milhas marítimas, o que dá 1. 500 Km. Pois bem, o meu amigo, para chegar a Angra, vai fazer 25 km e vai pagar 25 Euros

Pergunto: Mas que raio de desregulação vem a ser esta?

 

 

(1) RIBEIRO, Luis Silva, Obras, vol. II, Etnografia Açoriana, Instituto Histórico da Iha Terceira, SREC, Angra do Heroísmo, 1982.

(2) NEMÉSIO, Vitorino, Corsário das Ilhas, Livraria Bertrand, Lisboa, 1956.