Poema a Julia Roberts

 

(ou os efeitos

da testosterona)

 

 

• Victor Rui Dores

 

 

bem sei que sou pobre e casado

e não esqueço que és rica e comprometida

mas a tua beleza é o meu pecado

que me consome e me dá vida…

bem sei que deveria ser mais sensato

e ter mais juízo na mona

(desculpa, mas a culpa é da testosterona)

 

 

 

ah, se nos teus lábios eu brincasse

a festa redonda de um beijo

se nos teus olhos me embriagasse

e tu me deixasses acender o desejo…

eu seria capaz de tudo:

fazia fitas contigo

e contigo fugia para Bangkok ou Barcelona

(desculpa, mas a culpa é da testosterona)

 

 

 

querer-te em silêncio é meu tormento

porque, minha, nunca poderás ser,

mas, dia a dia, no meu pensamento

tenho por ti um secreto prazer.

gostar de ti é coisa turbulenta e trapalhona

(desculpa, mas a culpa é da testosterona)

 

 

 

quem me dera apertar-te os dedos

navegar teu corpo de aventura

afagar os teus íntimos segredos

e contigo partilhar cinema e ternura…

chamar-te ilha, barco, hortênsia, beladona

(desculpa, mas a culpa é da testosterona)

 

 

é que tenho andado tão abatido

com tanto stress, tanta emoção

que às vezes chego a ser atrevido

por não aguentar tanta excitação!

o que sinto por ti é a sério, não é assédio…

mas… até quando esta intentona?

(desculpa, mas a culpa não é minha –

- é da hormona!).

 

 

in O ouvido que escreve (BLU edições, 2017)

a ser lançado brevemente.