Recordando raparigas do tabaco

(Crónica recebida após o seu falecimento)

 

Dava-se o nome Raparigas do Tabaco às mulheres (jovens e adultas) que, antigamente na ilha de S. Miguel, trabalhavam na Fábrica de Tabaco Micaelense e na Fábrica de Tabaco Estrela, localizadas na cidade de Ponta Delgada.

No Quinto Volume do Apontamento Histórico & Etnográfico, publicado pela Direção Escolar de Ponta Delgada, no espaço reservado aos costumes e tradições da freguesia da Covoada, lê-se: “As raparigas do tabaco, de xaile e lenço, repenicando as galochas na calçada, logo ao romper do dia partiam a caminho da fábrica de tabaco em Ponta Delgada, onde trabalhavam p’ra anga­riar meios que aumentassem a parca economia familiar.”

Herculano Silva, em “Trajes do Folclore Micaelense”, (Pg. 29, Ed. 1996), escreveu: “Recordo-me ainda com saudade dos tempos da minha juventude, em que acom­panhado por alguns amigos da minha idade, ia ver passar as raparigas que tradicionalmente vinham dos Arrifes ou de outras freguesias próximas de Ponta Delgada, cheias de alegria e frescura em grupos, martelando com as suas alvas galochas na calçada em direção à centenária fábrica de Tabaco Micaelense, despertando assim do sono da manhã muitas pessoas p’ra quem aquele barulho estranho, à mistura com as gargalhadas vindas do exte­rior, indicava a hora de começarem o seu dia de trabalho.

Era assim todos os dias. Nós lá estávamos perfilados à espera das lindas Raparigas do Tabaco, com as suas faces rosadas e sorriso nos lábios, as quais dirigiamos alguns gracejos, raramente correspondidos porque na maioria dos casos recebiamos uma atitude de indiferença, e até às vezes uma resposta seca de quase insulto, razão por que muitas vezes simulávamos espirros como provocação tabaqueira.”

O testemunho, que se segue, pertence ao meu saudoso amigo Fernando Feliciano de Melo, natural da Relva onde nasceu em 1929, tendo emigrado com a família p’ró Canadá em 1967 e falecendo em Toronto em 2003. São da sua autoria: “Os Visitantes da América”, “Nadine, A Sereia dos Corais”, “A Ilha do Dolphin” e “Folhas Levadas p’lo Vento.” Do livro intitulado “Nadine”, apresento aqui uma transcrição parcial de reminiscências preciosas.

“Olhando em retrospetiva pela indústria do tabaco em S. Miguel, fez-me pensar entre outras coisas nos bandos de raparigas alegres, na sua maioria de tons mo­renos, com tranças de cabelos escuros e lustrosos bem arrematadas no pescoço, no seu desfile diário p’ró traba­lho, qual revoada de pombas buliçosas, que hoje recordo com nostalgia. Tinham as pernas e as faces rosadas pelas energias que cada dia tinham de despender com a cami­nhada e ainda da sua exposição ao sopro das aragens frescas da manhã e ao sol abrasador das tardes de Verão.

Todos os dias desciam à cidade, vindas das freguesias limítrofes, p’ra irem trabalhar nas duas fábricas de tabaco em Ponta Delgada, a Micaelense e a Estrela. Vinham dos Arrifes, da Covoada e da Relva, algumas com mais de uma hora de caminhada, que ao fim do dia voltava a repetir-se no regresso ao lar.

Eram umas centenas de jovens ruidosas e ativas, de xaile a agasalhar-se aos peitos. Nos pés calçavam galochas forradas de pano ou cabedal amarelo, arrematado por pregos de cabeças metálicas. Algumas galochas exibiam bordados de flores nos seus topos. O matraquear desse calçado rústico de madeira mantinha-lhes os pés quen­tes. O chilrear das conversas produzia uma algaraviada caraterística, que vinha quebrar a pacatez e o silêncio da manhã na Rua de Santa Catarina, onde residia uma tia minha. Quando lá me encontrava por altura da passa­gem das raparigas do tabaco no seu regresso a casa, vinha até à porta assistir àquele exuberante e ruidoso desfile.

Umas das inocentes traquinices que a rapaziada gosta­va de praticar, e que as raparigas do tabaco detestavam, era a simples e banal provocação, sempre que o vento trazia às nossas narinas o cheiro do tabaco. Alegorica­mente e com base no rapé, ao fazermos o sinal de expirrar ATXIM, por vezes uma galocha voava ao nosso encon­tro, vindo depois a pobre rapariga a mancar p’ra recu­perar a tamanca. Hoje, com o advento do progresso, o andar a pé tornou-se um anacronismo. Essas revoadas alegres das raparigas do tabaco foram substituídas pelas camionetas ou na melhor das hipóteses pelos carros dos maridos, que alguns têm-nos também, dada a sua grande proliferação por todas as camadas sociais.”

A fechar, da autoria de Herculano Silva, versos apro­priados a este recordando:

 

Raparigas do tabaco,

Que beleza era a sua,

A ninguém davam cavaco,

Quando passavam na rua.

 

Tão airosas, tão singelas,

Espalhando alegria,

Que bonitas eram elas,

Quando vinham em romaria.

 

De lenço e xaile traçado,

E galocha a martelar,

Era assim no passado,

Que hoje nos faz recordar