Cá estou


 

O Criador das Coisas desistiu de me abrir a porta por enquanto. Segundo Ele, a minha hora H está marcada, mas em regime de segredo, como os vio­ladores do telefone do nosso chefe supremo. E assim sendo, e como “quem é vivo sempre aparece”, cá estou dizendo-vos de minha justiça.

Que a minha justiça está cada vez menos justiceira, isto é, com menos vontade de “justiçar”. Mas quem apanhou esta doença — condenada pelo nosso imperador como vil e impura — aos vinte e cinco anos, e a conservou viva e activa até aos  noventa e tais, dá para fazer uma paragem, pois não dá? Não escrevi livros — além de um magro tomo com os “Frutos da Minha lavra” poética —. Escrevi crónicas e comentários, e reportagens das festas  do Espirito Santo e da Senhora dos Anjos, e do Santo Cristo, e dos Romeiros Açorianos, em busca de Deus e de perdão para crimes que não cometeram. E assim tenho vivido, cronicando os feitos e defeitos dos meus irmãos  imigrantes que por aqui têm deixado o melhor de si, junto com a vida que trouxeram, os frutos do seu amor, e as saudades que não esquecem e os acicatam até à hora final — como “Jornaleiro” de Colónia.

Não sei se imerecidamente, ao longo da minha caminhada, alguém se tem lembrado de assinalar a minha passagem com cerca de vinte pequenos troféus, placas, “citations”, e ao centro, a Cruz de Comendador da Ordem de Mérito do Governo de Portugal. E já agora não quero deixar de exprimir a minha gratidão a todas as organizações, incluindo os jornais portu­gueses com os quais tenho colaborado.

E como a vida é secretiva e não nos avisa das suas intenções, aqui fica este recado, como penhor da minha gratidão, que é tudo quando lhes posso dar.

E aos meus amigos e humildes leitores imigrantes, aqueles que melhor entendem as palavras deste irmão imigrante também, eu deixo, antecipadamente, os desejos e os votos de que a vida os recompense de todos os seus sacrifícios, na “fabricação” desta nação de nações. Todos nós temos contribuído com a nossa telha, o nosso tjolo, para a construção desta nação diferente de todas as outras, porque feita com suor e lágrimas, e também o sangue de quem aqui chegou, não livres, como nós, mas como animais de canga e de carga, vendidos por “cristãos” irmãos nossos. E foi essa massa humana, sem pátria nem bandeira, que ajudou a lançar os alicerces económicos da “America Grande” — como diz o nosso atual condutor.

E esta é hoje a America de todos nós. Com as nossas crenças e feitiços, as nossas festas e procissões, os nossos mitos, a nossa cozinha, o bacalhau, que já não é nosso mas dos islandeses, os nossos sabores e os nossos vinhos, as nossas saudades, e a  ideia, cada vez mais longinqua, de algum dia voltar. E estes têm sido os temas simples, deste cronista tão simples como os seus leitores .

A visão do nosso torrão de nascença, e o linguajar que aprendemos no berço ou no cesto de vimes, são heranças que vivem dentro de nós, onde quer que o destino nos tenha levado. Mas a Liberdade, com seu facho ao alto, que um dia nos acenou da pequena ilha americana, e nos fez abandonar a cadeia ditatorial em que viviamos, não é uma democracia como outra qualquer, mas uma nação de nações. Não é católica nem protestante, não é muçulmana, não é budista, embora seja tudo isso e mais alguma coisa. Não possui uma raça nem uma cultura ou uma religião próprias. Como era costume formar nações no tempo do nosso Afonso Henriques.

E a opinião deste velho cronista, pronto a meter a viola no saco definitivamente, é a de que este nosso atual comandante supremo é um tor­tulho perigoso no caminho desta nação de nações. E oxalá que seja apenas eu que estou errado.

 

 

 

Caminheiros da Fé

E os Romeiros lá vão, lá vão,

Xaile nas costas, lenço na cabeça,

Varapau e contas na mão,

Sempre orando e suplicando,

Do misterioso Deus,

A sua compaixão.

Romeiros, irmãos de mim,

Eu sei que a Natureza

Das terras que o mar pariu,

Para muitos tem sido um degredo.

Eu queria ter de vós

A inquebrantável fé,

Mas não o vosso medo.

Mêdo não só do mar profundo,

Mas  daquilo que julgais ser,

O misterioso esquecimento

Do Criador do mundo.

A Ele pedis que afaste para longe

Aquilo que vos faz sofrer.

Ele é a força criadora e implacável

Do magma que ruge no fundo das caldeiras.

A vós, caminheiros da fé,

Imberbes ou decanos,

Eu lembro com tristeza,

Que tudo o que vai acontecer,

Já foi programado

Há muitos milhões de anos.

Fé, eu sei, é força, é arte, é poesia.

É a essência  dessa voz

Que fala e grita dentro de nós,

E nos faz sonhar.

 E o Criador não é um ditador,

Iracundo e sem coração,

A quem tem de se pedir,

Constantemente,

De joelho em terrra e de chapéu na mão.

Ele é nosso amigo, e não quer de nós,

Tal humilhação.

Romeiros de então e de agora,

Percorrei a vossa terra,

Não de cabeça baixa,

Com remorsos no coração,

Mas de cabeça erguida,

De autênticos heróis,

A quem a pedra da montanha,

Depois de luta feroz, tamanha,

Ingente e suada,

Aqcabou, finalmente,

Por dar vinho e pão!

E aqui acabou, Romeiros,

A minha oração.