Livro de António Raposo a ser apresentado em New Bedford

 

Hagan, o doente da bola – Memórias desportivas

 

“Hagan o doente da bola - Memórias Desportivas” é o novo livro de António Raposo, que será apre­sentado dia 11 de novembro, pelas 7:00 da noite, no New Bedford Sports Club, depois de ter sido lançado em Ponta Delgada, Nordeste, Salga e em Lisboa.

António Raposo, médico fisiatra e especialista em medicina desportiva, conhecido por Hagan, alcunha que lhe colocaram por ser um adepto fervoroso dos métodos de Jimmy Hagan, treinador do Benfica nos anos 70, nasceu na Salga, São Miguel.

Este livro de memórias desportivas é uma viagem entre a saúde dada por uma vida de prática clínica e a doença que é, para muitos, o futebol. Praticante de futebol federado durante 20 anos e treinador/jogador da equipa de Veteranos do Nordeste já há 23 anos, des­creve mais que um relato da convivência entre duas paixões – o futebol e a medicina -, e oferece uma narrativa, tão pungente quanto cicatrizante, de uma vida feita total por amizades, família, carreira e incontáveis venturas, em que a constante que tudo conecta e a tudo confere o sentido é o desporto, em especial o futebol.

Médico de diversos clubes, por mais de 30 anos, che­gou a médico do Estoril Praia, foi campeão nacional da II Liga pelo Santa Clara, foi médico oficial de um campeonato do mundo de atletismo adaptado - trissomia 21 -, médico da seleção dos Açores nos Jogos das Ilhas e da seleção dos Açores de futebol.

Descreve vários momentos de glória na sua carreira, como a sua estreia nos seniores do União do Nordeste, com a obtenção de 3 golos ou o golo que marcou à Aca­dé­mica de Coimbra na sua despedida do CDUL no Estádio Universitário de Lisboa. Fez a sua despe­dida de jogador em jogo nos Estados Unidos.

 

• Entrevista: Francisco Resendes

 

Portuguese Times — Como e quando surgiu a ideia de lançar este livro?

António Raposo — “Um grande amigo meu, dr. Pedro Paulo, advogado, conhecido nos meios futebolísticos por “Melão”, convidou-me para o lançamento do seu livro “Da Bola à Toga”. Apreciei a ideia de deixar escrito a sua experiência. A partir desse dia comecei a pensar que face ao meu percurso de vida também teria muitas histórias para contar. Como a parte profissional não ligada ao des­porto também é muito extensa, decidi escrever apenas as memórias relacionadas com o desporto, em especial o futebol”.

 

PT — Que memórias guarda da sua infância?

AR — “Eu tinha 2 anos e meio e o meu irmão Zeca 8 meses quando os meus pais emigraram para o Canadá. Ficamos na Salga com os meus avós maternos, Maria José Negalha e Antóinio Inácio “Faial”. Nunca passamos neces­si­dades de maior, mas em criança estar longe dos pais naquela altura não era fácil. Mas guardo as recordações da amizade entre o pessoal da Salga, os jogos de criança, o brincar nos quintais dos vizinhos, o ajudar os avós nas tarefas domésticas e nas terras, já mais velho trabalhar no campo e a tratar das vacas. Tive muita sorte em ter na escola na 3ª e 4ª classe a professora Emília Mendonça, que sempre me incentivou a continuar a estudar, porque via em mim capacidades para como se dizia na altura “ser alguém na vida”. Já adolescente e adulto liguei-me sempre aos movimentos da Salga: desporto, grupo de teatro, grupo folclórico, política, etc. Tive uma infância muito feliz”.

 

PT — Fale-nos do trabalho de pesquisa, estudo, investigação e preparação dos conteúdos aqui contidos.

AR — “Desde muito novo, com a criação da equipa dos Bebés da Salga, costumava a registar tudo o que era relacionado com a equipa. Jogos, resultados, quem marcava os golos, quem jogava, etc. Depois quando eu estava no continente, pedia ao José Luís para registar e me enviar. Eu em jovem lia muito o Jornal “A Bola”. Gostava daquelas estatísticas. Então fui também tomando notas de uma grande parte da minha vida desportiva. É pena porque em 2011 tive um fogo na minha casa e per­deram-se alguns destes registos. Acresce a isto que tirei sempre muitas fotos. A minha avó tinha uma pequena máquina fotográfica, já nos anos 60, que era para ir enviando fotos minhas e de meu irmão para os meus pais no Canadá. Também é verdade que a minha mãe Olga “Negalha” tinha uma memória fabulosa, que a minha mulher Goreti até desconfiava se aquilo que ela contava seria tudo verdade. Devo ter herdado essa característica dela, razão pela qual durante cerca de um ano fui escre­vendo num livrinho, o que me lembrava e comecei a depois em outubro de 2016 comecei a escrever o livro. Também pedi a alguns amigos que me ajudassem a recordar casos pontuais.  Essa parte não foi difícil”.

 

PT — O livro será apresentado em São Miguel e em New Bedford. Qual o motivo da escolha desta cidade em Massachusetts?

AR — “Irei apresentar o livro em Ponta Delgada no dia em que vou comemorar os meus 60 anos. Será uma coisa tipo 2 em 1. Aniversário meu e da minha filha Catarina, que faz anos no mesmo dia, juntar os amigos e a família. A 28 de outubro será na Vila do Nordeste, com direito a jogo de veteranos só com mais de 50 anos. A 29 será na minha freguesia da Salga. É uma forma de agradecimento às gentes da minha terra. A 4 de novembro será em Lisboa na Casa dos Açores. Nos EUA (New Bedford) tenho uma parte da família do lado da minha mãe (“Negalhas), tenho o meu irmão Zeca e família, tenho um grande número de amigos da minha geração e tenho muitas histórias passadas aqui pois vim jogar futebol por quatro vezes, vim jogar ténis 2 vezes, fiz ski em New Hampshire, fui ver os Boston Celtics e adoro vir aos EUA encontar a família e os amigos. Julgo já ter vindo cá cerca de 20 vezes”.

 

PT — De que forma o futebol e a medicina o marca­ram na formação humana e profissional?

AR — “O futebol sempre foi a minha paixão. A outra foi a medicina. Na medicina podemos ajudar os outros. Não há melhor recompensa do que tratar um doente e ele ficar bom. Muitas pessoas julgam que vamos para médico para ganhar dinheiro. A verdade é que a “arte” de tratar é uma arte nobre. Tento ser sempre muito rigoroso nas minhas avaliações e no meu trabalho. Estou feliz com aquilo que eu consegui na vida. O futebol ajudou-me em vários aspetos. Aprendi com muita gente. Diverti-me imenso. Adaptei para a minha vida profissional algumas regras do futebol. Para se chegar longe não é só necessário talento. É preciso muita dedicação e muito esforço ao longo da vida, quer seja no futebol ou na medicina”.

 

PT — No seu percurso de vida profissional rica que etapas mais marcantes guarda na memória? Ou episó­dios curisosos?

AR — “No meu livro eu tenho um capítulo que lhe chamo de “Momentos de Glória”.  Aponto 100 momentos, aliás são 101 porque ao lançar o livro este será um momento de glória “especial”. Para citar alguns posso dizer que na minha estreia nos seniores do União do Nordeste, com 18 anos, marquei 3 golos ao Benfica Águia da Ribeira Grande. Durante um jogo em que um adversário se lesionou, na Base das Lajes, ele foi substituído para ser tratado e eu fui substituído para ir tratar dele. Fui campeão nacional da segunda liga pelo Santa Clara, 2000/2001. Fui médico oficial de um campeonato do mundo de atletismo adaptado, trissomia 21. Sou um homem orgulhoso daquilo que já consegui na vida. Ter saído de uma pequena aldeia da Salga, do concelho do Nordeste, ir estudar, ser especia­lista em fisiatria e medicina desportiva (o único nos Açores) e chegar a ser palestrante numa mesa redonda de medicina desportiva em Barcelona, ao lado de grandes “craques” da medicina mundial, são coisas conquistadas que eu, com 10 anos, quando apanhei aquela camioneta do Caetano Raposo e Pereira para sair da Salga e ir para Ponta Delgada, com uma cesta de vimes na mão, com roupa e biscoitos, nunca pensei que poderia alcançar”.

 

PT — Na sua área de atividade, futebol e medicina, será que Portugal Continental e os Açores em particu­lar, estão no mesmo patamar e nível de progresso dos EUA e doutros países na Europa?

AR — Em muitos aspetos estão. Temos técnicos de alta qualidade no futebol e na medicina. As condições de tra­balho é que não são iguais, em especial nos Açores. Na me­dicina “de ponta” os avanços são semelhantes. Assim como no futebol. O problema é na base. Na medicina os cuidados primários precisavam de um grande investimento por parte do Governo. No futebol, embora já se trabalhe um pouco melhor com as camadas jovens, falta muita formação de qualidade e “verdadeiras” escolas de formação de jogadores”.

 

PT — Que mensagem deixa aos jovens que começam a dar os primeiros passos na prática do desporto?

AR — “Nos cursos de treinadores em que sou palestrante costumo dizer sempre aos candidatos que devem em primeiro lugar ensinar aos jovens o gosto pela prática do desporto, neste caso do futebol. Isto é o principal. Depois incutir-lhes o espírito ganhador. Nada se consegue sem trabalho, dedicação, esforço e muito empenhamento. Isto é válido para o futebol e para a vida. Depois, sabendo nós que muito poucos chegam a alto nível, o importante é estudar, estudar, estudar sempre. Dou-lhes muitas vezes o exemplo do Juan Matta, jogador espanhol de alto nível mundial e que possui duas licenciaturas! Joguem, divirtam-se e estudem é a minha mensagem”.

 

PT — Tem algum projeto em manga após este livro?

AR — “Depois do livro irei “abandonar” uma série de coisas que fazia para me dedicar a outras. Manterei a atividade de médico na minha clínica (Açorclínica) até à idade da reforma. Nessa altura (no dia da reforma, aos 66/67 anos) conto lançar um livro da minha vida pessoal e profissional. Agora vou descansar da escrita por um perío­do e quem sabe se com os dados agora recolhidos dos Bebés da Salga e dos Veteranos do Nordeste se não penso em publicar mais alguma coisa sobre isto, quem sabe!”