Boias da Memória

 

A fina flor da sociedade

O relacionamento com os sacerdotes obedecia à herança cultural muito antiga e ainda presente em sociedades, nem sempre primitivas, nas quais gozam de um poder implícito e paralelo e por vezes sobreposto ao governo político como na prática da teocracia. Foram os primeiros feiticeiros. Assumiram o papel dos xamanes dos grupos primevos, intocáveis. Na sua imunidade imensa e incrível, eram protegidos. Ocultavam-se-lhes os relacionamentos ilícitos de que gozaram à semelhança de uns quantos Papas no registo das suas indiscrições carnais programadas no código genético de toda a bicharada desde os primeiros organismos. A eles se deve a descoberta, no exórdio da atividade solene dos grupos humanos, dos feitiços lançados pela ignorância sobre povos indefesos à mercê de forças sobrenaturais. A ansiedade, o medo do desconhecido e dos mistérios da natureza tiveram explicação nas práticas sigilosas e cerimoniais para conter a influência dos maus espíritos e afastar o quebranto, intercedendo junto das divindades pela segurança individual e sobretudo coletiva. Criaram com imaginação fértil, ainda que absurda, o culto de entidades abstratas e fantásticas. 
Toda a gente julgava quase santos os curas, numa categoria quase imutável entre deuses e santos arreigados em séculos de tradição. Não tinham ainda trocado o hábito sacerdotal pelas calças de ganga de inspiração americana, os jeans, e as roupas que os camuflam no anonimato da multidão sem face.  
Os filhos da elite do morgadio burguês — ou dos membros de distinção reconhecida como o governador —, deixavam a ilha para seguir a via dos bacharéis. Ficavam amiúde pela metrópole em casamentos ou ainda permeados na sociedade sem a exiguidade característica da geografia humana das ilhas. Mesmo os que abraçavam o sacerdócio, frequentemente circunscritos ao quotidiano repetitivo e sem futuro de aldeias debruçadas sobre o mar sempre revoltado do arquipélago.  
Dir-se-ia que os morgados alegóricos regressados à sua origem natal mantinham apenas a aparência de que se supunham membros da mesma sociedade. Para alguns, os trabalhadores reduziam-se à condição de coisa ou objeto, servos pertencendo a uma classe de escravos. Numa escravatura racionalizada na tradição autoritária em que viviam para servir os privilegiados da hierarquia social. 
A classe rica possuía com Deus, e sobretudo com os santos representados nas imagens de caras imperturbáveis anichadas nos templos, um relacionamento romano. De clientela como o fariam numa feira. Pediam-se aos santos padroeiros favores, prometendo pagar-lhes o conserto da ermida ou caiar a igreja. A anuição aos pedidos do pároco dependeria do grau de cooperação do Santíssimo Sacramento, ou da Virgem Maria, ou dos santos patronos. E em alguns casos infrequentes, nos quais a influência do santo venerado se não realizava, a efígie de gesso e pau ficava prisioneira numa gaveta com um barbante arrotando-lhe o pescoço. 
Um homem assaz idoso oriundo do Continente, conhecido por Tio João Cabo-de-Mar, talvez falecido nos últimos anos de 1940, tocava bateria no areal então existente paralelo ao lado sul do Castelo de Santa Cruz. Os seus instrumentos eram panelas velhas e tampas de bidões e um penico, cada um atado a um pau enfiado na areia. Detrás da porta da frente da sua residência escondia um Santo António enforcado, suspenso do teto. A Alda Badela, contínua na Escola Capelo Ivens então localizada na rua com o mesmo nome na freguesia de Angústias, compadeceu-se até às lágrimas ao ver o boneco enforcado: “Esconjuro o diabo, pobre santinho”. 

 

(Continua numa próxima edição)