Insulto ou História?

 


A luta de um advogado californiano que pretende processar 
a cidade de Los Angeles pela designação do acampamento 
“Portagee Joe Campground”, em homenagem ao terceirense 
José C. Pires, falecido em 1960 e que o Los Angeles Times nos dá conta

 

O nosso bom amigo Pedro Bicudo, que conhecemos dos tempos do extinto Seminário-Colégio Santo Cristo em Ponta Delgada, S. Miguel (e que agora deu lugar ao S. Miguel Park Hotel), agora a residir em Washington, DC e sempre atento a histórias relevantes da imigração portuguesa para os EUA, chamou-nos à atenção para um interessante artigo publicado dia 26 de dezembro de 2019 no conceituado Los Angeles Times, sob o título: “Insult or History”, de autoria de Louis Sahagun, e que basicamente nos conta a luta de Allen Berrey, um advogado, 62 anos de idade, e que reside atualmente em Bishop, Califórnia, na tentativa de mudar o nome de uma área de acampamento em Lone Pine Creek, em Sierra Nevada, no norte da Califórnia, denominada “Portagee Joe Campground”, em homenagem ao açoriano da ilha Terceira, José C. Pires, nascido em 1904 em Angra do Heroísmo, ilha Terceira, tendo imigrado para os EUA em 1920 e 21 anos depois estabeleceu-se em Lone Pine. (O jornal Inyo Register refere-se a Pires como sendo natural da “ilha Treseia, na costa de Portugal”). Pires juntou-se ao fluxo de imigrantes portugueses que escapavam de condições financeiras deprimentes nos Açores, Madeira e Cabo Verde e como muitos outros, descobriu a sua estratégia para as comunidades montanhosas da Sierra Nevada, local onde a indústria de mineração e criação de ovelhas proporcionavam uma vida mais próspera e uma integração mais rápida na sociedade americana.
José C. Pires faleceu a 08 de dezembro de 1960, de doença cardíaca. Embora os habitantes locais o conhecessem como Portagee Joe, amigos e familiares gravaram a lápide com o apelido de português Joe, talvez como uma medida de respeito. Até à sua morte, Pires era apenas um dos muitos vagabundos que acamparam no extremo oeste da cidade. Bem-humorado e hospitaleiro, tinha a reputação de ser Robin Hood local, que roubava perus de propriedades vizinhas durante a semana de Natal para entregá-los a famílias carentes.
Allen Berrey nasceu e foi criado no Parque Nacional de Yosemite. Seu pai era diretor de marketing de uma concessionária de parques e a mãe, guarda florestal. Berrey considera a denominação de “Portagee Joe” depreciativa, tendo referido que: “o uso da palavra pejorativa portagee pelo município em nome do parque de campismo alugado é um ato de discriminação contra um grupo de pessas com base na origem nacional, e, portanto, é uma violação do pacto antidiscriminação mencionado no contrato de locação da LADWP-Inyo County”, tendo acrescentado que as despesas de fundos do condado para operar o Portagee Joe Campground são, portanto, ilegais.
Contudo, Anselmo Collins, diretor de operações da LADWP, sublinha: “Não apoiamos qualquer insulto depreciativo... O nome desse acampamento não é uma coisa boa... mas é um acampamento do condado... Com um processo ameaçado contra Los Angeles e o condado, tenho que ter cuidado”, disse Collins, para adiantar: “Preciso de mais tempo para lidar com isso, uma vez que tenho uma cidade inteira que quer que o nome permaneça o mesmo”.
A verdade é que Allen Berrey tem sido alvo de ataques pessoais por querer mudar designação de vários lugares, considerando alguns desses nomes racialmente ofensivos, muitos deles “baptizados” no tempo da Corrida ao Ouro (1848-1855). De referir que Berrey reside numa comunidade onde a desconfiança das grandes mudanças é profunda, com muitos moradores e autoridades do condado a argumentarem que o nomes existente captura um momento da história, sendo por conseguinte apropriado a designação de Portagee Joe, e cujo nosso conterrâneo não parecia importar-se com o apelido.
“Nós chamámo-lo de Portagee Joe e ele gostou da atenção, recordou por sua vez Kathleen New, 75 anos, diretora executiva da Câmara de Lone Pine, que opõe firmemente à mudança do nome, considerando não se tratar de uma ofensa depreciativa a Pires. “Allen Berrey é um idiota”, afirma Kathleen, para acrescentar: “Que direito tem ele de entrar no nosso vale e mudar a nossa história?”
Para outros, o assunto não merece muita importância, como refere por sua vez Michael Prather, de Lone Pine, ativista ambiental. “O município tem muitos assuntos urgentes que merecem mais atenção do que isso”, afirma Prather.
Embora rotulado como um estranho, Allen Berrey vive no condado de Inyo desde 1997, muitas vezes defendendo os menos favorecidos. Durante quase dois anos foi defensor público do condado de Inyo. “Representei principalmente jovens - muitos deles índios Paiute - que foram acorrentados em celas de detenção”, disse Berrey.
No que se refere à designação de Portagee Joe, Berrey apresentou ao condado uma solução de compromisso que, segundo ele, respeitaria a história local e mostraria empatia pelos sentimentos dos americanos de ascendência portuguesa: que se mude o nome para “Joe Português”.
No entanto, após uma análise mais aprofundada, Berrey anulou essa ideia. Decidiu que esse nome também seria inapropriado para um acampamento com financiamento público.
Kevin Carunchio, que era administrador do condado de Inyo na época, tentou acabar com o furor com um compromisso oficial próprio: manter o nome existente, mas adicionar informações históricas sobre como ele fio anexado ao acampamento. Contudo essa mudança nunca aconteceu, levando Berrey no passado mês de dezembro a lançar uma nova ofensiva, que vai além de pressionar os supervisores do condado de Inyo para resolver o problema: avançar com um processo contra o Departamento de Água e Energia de Los Angeles. “Quero que o nome mude, pois o condado está perpetuando uma ofensa racial, que é uma maneira perversa de homenagear o homem... e sinceramente não entendo a animosidade sobre este caso... Não é como tentar mudar o nome para Che Guevara”, disse Berrey.
Na visita ao cemitério de Whitney, em Sierra Nevada, Allen Berrey aproximou-se da lápide de granito modesta gravada com o nome José C. Pires e disse: “Olá Joe! Sou advogado e não vou mais deixar que as pessoas lhe chamem nomes depreciativos”.
Berrey ergueu uma garrafa de vinho do Porto e ao levantá-la, disse: “Salud!”
Nos últimos meses de vida, José C. Pires frequentou a Foursquare Church, tendo confienciado durante um culto de testemunho que “amava o Senhor, mas não tinha a certeza se o Senhor o amava”.
No seu funeral de Pires, alguém cantou a sua música favorita: “This World Is Not My Home”, de autoria de Albert Brumley, em 1936.